Depressão afeta 33 por cento dos doentes que sofrem um AVC

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Artigo de Opinião da médica Ana Machado, psiquiatra na Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra

Anualmente, cerca de 17 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem um primeiro evento vascular cerebral. O Acidente Vascular Cerebral (AVC) constitui, assim, uma das principais causas de mortalidade, mas também de morbilidade e perda de anos de vida saudáveis, sendo que cerca de um terço dos doentes se tornam dependentes de terceiros para as atividades da vida diária.

Além dos défices neurológicos decorrentes do evento vascular, podem surgir no pós-AVC sintomas psiquiátricos, quer da esfera afetiva, quer cognitiva, quer comportamental. Dentro destes, os mais comuns são os sintomas depressivos, de ansiedade, a apatia e a instabilidade emocional.

A depressão pós-AVC, considerada a consequência neuropsiquiátrica mais frequente e importante após um evento vascular e com efeitos negativos sobre o prognóstico a longo prazo, afeta cerca de 33% dos pacientes. A existência de psicopatologia prévia bem como a de outros fatores médicos, o território cerebral afetado e a incapacidade resultante do AVC atuam como fatores de risco. A presença de sintomas depressivos persistentes no status pós-AVC está associada a um maior risco de mortalidade após o evento e a maior deterioração do estado físico e mental do doente a longo prazo, bem como a aumento do risco de suicídio.

Nesta população a deteção de sintomas depressivos pode tornar-se mais difícil, decorrente dos défices neurológicos subjacentes (por exemplo, em situações em que a capacidade de comunicação verbal do doente ficou comprometida). Os familiares próximos e amigos assumem um papel de grande importância na deteção precoce de sintomas (perda de apetite, diminuição da energia e vontade de participar em atividades sociais, alteração do padrão de sono, ideias de desvalorização pessoal) e procura de cuidados especializados de saúde mental.

O tratamento dos sintomas psiquiátricos após um evento vascular cerebral passa pela combinação de estratégias farmacológicas e psicoterapêuticas, sendo que alguns estudos mostram que a terapêutica antidepressiva pode, inclusive, ter um papel nos sintomas motores, de forma independente. Com o tratamento adequado, a pessoa pode recuperar dos sintomas neuropsiquiátricos e aumentar o grau de independência nas atividades de vida diária, contribuindo assim para a melhoria do prognóstico global.

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