Dia Mundial contra as Hepatites: os esforços que estão a resultar e os novos desafios

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Assinalou-se no dia 28 de julho o Dia Mundial da Luta Contra as Hepatites. As atenções estiveram concentradas nas hepatites virais (tema escolhido para este ano), mais propriamente na Hepatite C, devido aos novos avanços nas terapêuticas (anti-virais de acção directa) e na Hepatite A, muito mediatizada depois de no início do ano ter havido um surto em Portugal e em mais 15 países europeus. O dia trouxe muitas novidades: a Comissão Europeia acaba de aprovar outro novo medicamento, foi lançado um novo programa e um relatório da DGS e no dia anterior foi apresentada uma curta metragem, “HEP C FREE”, realizada por Cynthia Wade, que pretende dar a conhecer a doença, o diagnóstico e o tratamento em todo o mundo.

Em 2015 as hepatites virais causaram a morte de 1,34 milhões pessoas em todo o mundo: um número comparável às mortes causadas pela tuberculose e menor que as causadas pelo VIH. Mais, o número de mortes causadas pelas hepatites virais tem vindo a crescer. Com o objetivo de criar consciência, especialmente sobre a Hepatite C, foi criada uma curta metragem, “HEP C FREE”, que se foca nos motivos que levaram os protagonistas a utilizar drogas, o momento em que descobriram que estavam infetados e a sua luta pela cura.

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No evento, que se realizou no Cinema S.Jorge, estiveram presentes as associações de doentes SOS Hepatites e o Grupo de Ativistas em Tratamentos (GAT). O debate contou com a participação de Emília Rodrigues, presidente da associação SOS Hepatites, de Ricardo Fernandes, diretor executivo do Grupo de Ativistas em Tratamento (GAT), Guilherme Macedo, diretor do Serviço de Gastrenterologia do Centro Hospitalar São João e Rui Tato Marinho, Hepatologista do Serviço de Gastroenterologia e Hepatologia do Hospital Santa Maria.

Sobre o filme, Rui Tato Marinho diz que há uma realidade incomparável. Enquanto que nos EUA o acesso ao tratamento é ainda muito difícil, “no nosso país é cada vez mais fácil: cada vez mais conseguimos chegar a populações mais difíceis, com a ajuda das pessoas que estão no terreno. Já não há grandes limitações ao tratamento, há sim ainda algumas questões burocráticas e organizacionais, mas isto é uma questão de tempo”. O médico está otimista e considera que o principal está a ser feito: “estamos a tratar o maior número de doentes possível”.

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Especificamente sobre o tratamento da Hepatite C, foram autorizados mais de 17000 tratamentos dos quais mais de 11000 já foram iniciados. Já se conseguiram também evitar 3477 mortes prematuras por causas hepáticas, 339 transplantes hepáticos, 1951 carcinomas hepatocelulares e 5417 casos de cirrose (números relativos a fevereiro de 2016 do Relatório do Programa Nacional para as Hepatites Virais de 2016-2017).

Foi também aprovada pela Comissão Europeia, no mesmo dia, a introdução no mercado da nova associação fixa de glecaprevir/pibrentasvir da empresa farmacêutica Abbvie. O que significa que os infetados, sem cirrose e sem tratamento prévio, têm agora à disposição um novo medicamento de curta duração (oito semanas) que tem uma taxa de cura de 97,5%.

O surto de Hepatite A

No mesmo relatório dá-se conta das medidas tomadas à conta do surto que ocorreu no início do ano. Foram realizadas campanhas de vacinação em que foram administradas cerca de 4000 vacinas desde abril deste ano. O surto de Hepatite A “ocorreu em 16 países da União Europeia, incluindo Portugal, onde de 1 de janeiro a 30 de junho de 2017, foram notificados 378 casos, maioritariamente na região de Lisboa e Vale do Tejo (76,0%), em pessoas do sexo masculino (89%), dos 18-39 anos (69,3%), tendo havido referência à prática de sexo entre homens em 52%” destes casos.

O que falta fazer

“Os portugueses não estão despertos para o problema das hepatites nem tão pouco suficientemente informados”, alerta Arsénio Santos, coordenador do Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, em declarações em dadas em comunicado de imprensa. Considera o coordenador do núcleo que a divulgação precisa de ser mais direta e clara, principalmente quando se lida com as camadas mais jovens: “a solução pode passar por um ensino destes temas mais profundo, preciso e rigoroso, a nível das escolas”. Rui Tato Marinho concorda com esta ideia, já que a ideia dos “grupos de risco” está ultrapassada, e o que é necessário é minimizar comportamentos de risco que possam provocar o contágio.

Ao Raio-X, Emília Rodrigues, presidente da Associação SOS Hepatites, deixa o apelo ao rastreio da Hepatite C, especialmente “aos combatentes da guerra do Ultramar e da índia, às pessoas que fizeram transplantes ou transfusões de sangue antes de 1992, às mulheres que foram mães ou abortaram antes de 1992 e também a quem nasceu entre 1945 e 1985”.

A associação assinalou o dia, promovendo um dia de divulgação  junto das pessoas, na praia do Tamariz, em Oeiras. Foi também apresentado o relatório do “Programa Nacional para as Hepatites Virais (2016-2017) e das linhas estratégicas do Programa Nacional para as Hepatites Virais (2017-2018)”, num evento com a presença do cantor Rui Reininho, que apresentou o testemunho: “Hepatite C na primeira pessoa”.

 

Por Margarida Queirós

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