Gripe: um importante problema de saúde pública que pode ser evitado através da vacinação

Froes, Filipe

Afeta 10% dos adultos e cerca de um terço das crianças e, apesar de ter uma evolução geralmente benigna, tem um impacto significativo em termos de saúde pública. Ano após ano, a gripe está associada a um aumento da mortalidade uma vez que acaba por ser um importante fator de agravamento de várias doenças, nomeadamente da DPOC, da insuficiência cardíaca, da diabetes e da insuficiência renal. Em declarações ao Raio-X, Filipe Froes reforçou a importância da vacinação com as vacinas disponíveis na época 2018-2019, incluindo a vacina quadrivalente contra a gripe.

“Todos os anos podemos avaliar o impacto da gripe através do aumento da mortalidade que coincide com os picos da atividade do vírus influenza”, afirma o Dr. Filipe Froes, acrescentando que os doentes não morrem propriamente de gripe, mas sim das complicações e da descompensação de doenças de base, nomeadamente a DPOC, a diabetes, a insuficiência cardíaca, ou a insuficiência renal. Por outro lado, por deixar mais fragilizado o sistema imunitário, “a gripe abre as portas a pneumonias bacterianas oportunistas, em alguns casos bastante graves”, sublinha o pneumologista do Hospital Pulido Valente.

A gripe afeta, anualmente, cerca de 10% da população adulta e um terço da população pediátrica e, embora seja uma doença de evolução, geralmente, benigna, acaba por ter um impacto significativo em termos de saúde pública. “O facto de atingir 10% da população significa que há sempre alguns milhares de pessoas que vão ter formas graves de gripe”. Segundo o especialista, no doente respiratório, a componente de descompensação mais relevante é a DPOC uma vez que “ao reduzir os mecanismos de defesa local do aparelho respiratório, a gripe predispõe o doente de DPOC para um maior risco de exacerbação e de pneumonia”.

Filipe Froes lembra, contudo, que a gripe é um dos principais problemas de saúde pública que pode ser evitado através da vacinação, sobretudo nas populações que apresentam maior risco de desenvolvimento de complicações. A vacinação contra a gripe é fortemente recomendada, de acordo com a Orientação da DGS, a quatro grupos prioritários: pessoas com idade igual ou superior a 65 anos, pessoas com doenças crónicas ou imuno-comprometidas com idade superior a seis meses, grávidas e profissionais de saúde. “Em Portugal, 40 a 50% da população enquadra-se nestes quatro grupos de risco”.

Por ano, são disponibilizados, pelo SNS, cerca de 1,5 milhões de vacinas que são gratuitamente facultadas a indivíduos com mais de 65 anos, a indivíduos que, independentemente da idade, estão institucionalizados, que estão internados em Unidades de Cuidados Continuados Integrados, doentes apoiados no domicílio por equipas de enfermagem, doentes internados em unidades de ACES ou em hospitais do SNS, doentes que, independentemente da idade têm diabetes Mellitus, fazem diálise, têm trissomia 21, aguardam transplante de medula ou de órgãos sólidos, sob quimioterapia, com fibrose quística, com défice de alfa1 antitripsina sob terapêutica de substituição, com doença do interstício submetidos a tratamento imunossupressor, com doença crónica e compromisso da função respiratória, bombeiros e profissionais de saúde. Tendo em conta que a vacina atinge o seu pico de eficácia, geralmente, 15 dias depois da sua administração, Filipe Froes recomenda que esta seja administrada um pouco antes da previsão do início da atividade gripal. Por outras palavras, “considerando os mecanismos imunológicos da vacina, estima-se que o maior período de eficácia seja atingido após 15 dias e se mantenha elevada em média quatro a seis meses após a administração”, explica o pneumologista. Isto significa que, “se temos atividade gripal em Portugal que começa habitualmente em finais de novembro e vai até fevereiro, então o ideal é que a vacina seja administrada no início de novembro”, justifica. “Para evitar que as pessoas se vacinem muito cedo, a vacina só está disponível a partir de outubro”, acrescenta.

De acordo com o especialista, a população de risco está mais sensibilizada para a importância da vacinação o que, na sua opinião, se deve a dois fatores: “a disponibilização gratuita da vacina para as principais populações de risco e o facto de não ser necessária prescrição de uma receita para a vacinação. No âmbito das recomendações oficiais, qualquer pessoa incluída nos grupos recomendados, acima mencionados, pode vacinar-se no centro de saúde sem necessidade de consulta médica”. Desde a época de 2012/2013 que se verificou um aumento da cobertura vacinal, tendo atingido, nos indivíduos com mais de 65 anos de idade uma taxa superior a 60%. “Atualmente, Portugal está entre os cinco países a nível europeu com maior taxa de cobertura vacinal neste grupo populacional”.

Na perspetiva de Filipe Froes, a eficácia da vacinação depende das características específicas do hospedeiro e da concordância antigénica da vacina. Em relação ao hospedeiro, “o envelhecimento causa imunossenescência, o que significa que as vacinas administradas nos adultos não têm a mesma eficácia que nas crianças”. De qualquer forma “é sempre importante fazer a administração porque mesmo contraindo gripe, o facto de as pessoas estarem vacinadas protege-as das formas mais agressivas da infeção e evita que desenvolvam pneumonias bacterianas ou exacerbações de co-morbilidades”, salienta o especialista. Relativamente à concordância entre a vacina e as estirpes em circulação, Filipe Froes explica que a evolução tecnológica em biologia molecular tem permitido caracterizar melhor as estirpes de influenza que estão a circular, valorizando cada vez mais o vírus do tipo B, que pode ser da linhagem Yamagata ou Victoria. No entanto, “a previsão da escolha da linhagem do vírus B que tem sido feita pela OMS para a vacinação, nem sempre é a melhor. Isto quer dizer que, nos últimos 10 anos, em 50% dos casos não se conseguiu acertar com a linhagem do vírus B que mais circulou na comunidade”. Por outras palavras, “não houve concordância entre a vacina e a estirpe em circulação”. Isso motivou a OMS e os fabricantes de vacinas a tentarem melhorar a cobertura vacinal para o vírus do tipo B. Atualmente, a OMS também já recomenda a vacina quadrivalente que oferece abrangência para dois subtipos do vírus A (H1 e H3) e para as duas linhagens do vírus B (Yamagata e Victoria). “Desta forma fica assegurada a concordância antigénica e a maior proteção contra o vírus B”.

Segundo Filipe Froes, durante muito tempo o vírus B foi menos valorizado do que o vírus A, quer em termos de grupos etários (que se pensava que só afetava as crianças) quer em termos de gravidade de doença. “Sabemos hoje que o vírus do tipo B é igualmente agressivo nos adultos podendo desencadear gripes graves com necessidade de internamento em Unidade de Cuidados Intensivos”. O Inverno passado foi exemplo de falta de concordância entre a vacina e a linhagem em circulação o que significa que a proteção para as pessoas vacinadas com a vacina trivalente terá sido bastante inferior ao que seria expectável. Penso que, seguindo o exemplo do Reino Unido, no futuro próximo vamos acabar por adotar a vacina quadrivalente e, assim, tentar diminuir o “oxigénio da gripe”, concluiu o especialista.

Por Cátia Jorge

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