Melanoma: “1000 novos casos surgem, por ano, em Portugal”

cancer-389921_1280

O verão já acabou mas os dias quentes vieram para ficar. Por isso, vale sempre a pena falar de melanoma, o tipo de tumor cutâneo mais grave. Incidência, fatores de risco, impacto na mortalidade e possibilidades terapêuticas são alguns dos tópicos abordados por Emanuel Jesus. O Oncologista do Instituto Português de Oncologia de Coimbra alerta para a identificação precoce de “sinais, normalmente pigmentados, de cor castanha mais ou menos intensa”.

Raio-X (RX) – Qual a incidência de melanoma em Portugal?

Emanuel Jesus (EJ) – Em Portugal, estima-se que sejam diagnosticados 1.000 novos casos por ano, embora não haja dados precisos atualizados referentes à incidência. Os mais recentes publicados referentes ao Registo Oncológico Nacional, relativos a 2010, dão conta de uma taxa de incidência do melanoma, padronizada para a idade, de 8.6/100.000 habitantes no caso dos homens e de 9.1 nas mulheres, com maior prevalência a partir dos 65 anos.

RX – Qual o impacto deste tipo de cancro da pele em termos de mortalidade?

EJ – O melanoma apresenta uma taxa de mortalidade reduzida, quando comparada com outras doenças oncológicas. O diagnóstico precoce deste carcinoma leva, na maioria dos casos, à cura do tumor, mas o seu diagnóstico em fases tardias resulta em elevada mortalidade e morbilidade – quando a doença é metastática, isto é, atinge outras localizações que não a da zona da lesão inicial, torna-se praticamente incurável mesmo com os novos tratamentos. Embora a mortalidade seja baixa, a incidência de melanoma tem vindo a aumentar globalmente de forma rápida e consistente ao longo das últimas quatro décadas. Em 1999, havia dados que apontavam para 1%, mas, hoje em dia, a mortalidade rondará os 4,5%.

RX – De que forma pode condicionar a qualidade de vida dos doentes?

EJ – Pode influenciar de forma muito significativa. Primeiramente, do ponto de vista psicológico, o diagnóstico do melanoma maligno em qualquer idade, e sobretudo numa população jovem (1/3 da população diagnosticada tem menos de 50 anos) que adota comportamentos de risco que promovem o desenvolvimento deste tumor, é um fardo imenso. Posteriormente, do ponto de vista físico, limita a sua atividade profissional e sociofamiliar do doente. Embora a maioria das lesões sejam iniciais e uma pequena cirurgia de remoção do tumor seja curativa, nalgumas situações a doença pode vir a surgir noutros pontos da pele, seja junto ao tumor retirado ou a outros níveis. Estes outros níveis podem ser os gânglios da zona da lesão primitiva ou à distância, o que levará a atos cirúrgicos adicionais, na tentativa de evitar o alastramento do carcinoma, e põe o individuo em risco de ter uma doença potencialmente incurável e fatal, com grande sofrimento físico e psicológico, limitando o seu dia-a-dia.

Sinais de alerta

 

RX – Quais os sinais sugestivos de melanoma a que as pessoas devem de estar atentas?

EJ – Primeiro que tudo, há que identificar na nossa pele aqueles sinais que, por serem mais visíveis, devem merecer maior atenção, não esquecendo de modo nenhum outros que ela também contém. Os sinais são, normalmente, pigmentados, de cor castanha mais ou menos intensa. Devemos observá-los e submetê-los ao chamado guia ABCDE do melanoma, amplamente divulgado pelas organizações ou associações que defendem a prevenção do melanoma. Essas siglas significam: A – assimetria do sinal, B – bordo irregular, C – cor alterada, D – diâmetro superior a 6mm num sinal em crescimento, e E – evolução, confirmando se existe comichão, sangramento e novas manchas. Se um sinal evidenciar uma ou mais alterações descritas no ABCDE, deverá consultar um médico, com especialidade em dermatologia, de imediato.

RX – Quais os tipos de pele mais suscetíveis ao desenvolvimento de lesões malignas?

EJ – Todos os tipos de pele estão em risco e não é por sermos morenos ou ficarmos mais facilmente morenos que isso nos deve deixar menos preocupados. No entanto, há tipos de pele que requerem maior cuidado, nomeadamente aquelas que já contêm sinais em maior ou menor número, as pessoas com sardas, assim como as de pele mais clara e de olhos claros, cabelos ruivos ou louros, e que fazem facilmente queimaduras solares são as mais suscetíveis.

RX – Qual a proteção ideal e quais os cuidados a ter, sobretudo, durante o período de férias, em que a exposição solar tende a ser mais intensa?

EJ – Este é um ponto importante. Há que alertar para a falsa sensação de segurança associada aos protetores solares: o creme pode prevenir a queimadura, mas dificilmente os efeitos dos raios ultravioletas (UV) na pele. A solução é usar grandes camadas de creme e renová-las frequentemente e após cada mergulho, sendo que a melhor solução é “fugir” do sol nas horas de maior perigo (entre as 11 horas e as 17 horas). Nos dias de calor e luminosidade intensa, é recomendo evitar as idas à praia – ou melhor, evitar a exposição solar – escolher uma sombra e, mesmo assim, pôr creme protetor em situações de grandes cargas de UV na atmosfera, o que é amplamente divulgado pelos meteorologistas.

RX – É fácil diagnosticar um melanoma?

EJ – Nem sempre é fácil, sobretudo para o cidadão comum, pelo que na presença do alerta que é dado pelo guia ABCDE, este deve consultar um especialista. Há ainda melanomas que não são pigmentados – são as chamadas lesões amelanóticas -, cujo sinal mais evidente pode ser a inflamação e o sangramento, podendo, desta forma, ser confundido com uma “borbulha” ou inflamação cutânea banal. Hoje em dia, a tecnologia proporciona uma grande ajuda, na medida em que existem apps e programas que nos podem alertar e orientar no aconselhamento profissional.

Taxa de cura em casos precocemente diagnosticados atinge quase os 100%

 

RX – Qual a taxa de cura em casos precocemente diagnosticados?

EJ – Neste momento, a taxa de cura, em casos precocemente diagnosticados, é extremamente elevada, atingindo quase os 100%. Contudo, nunca é demais reforçar, que, para a cura ser efetiva, é imperativo o diagnóstico precoce do tumor e início imediato do tratamento.

RX – Quais as opções terapêuticas atualmente disponíveis e a que ganhos de sobrevivência estão associadas?

EJ – Nos últimos 5 anos, houve uma autentica revolução no arsenal terapêutico aprovado para o tratamento médico do melanoma maligno, no que se refere à doença metastática. A quimioterapia foi, definitivamente, posta de lado e utilizada em último recurso, estando, por isso, reservada para casos muito específicos. Foi feita uma melhor caracterização das células malignas e descobertas alterações (mutações) que conduzem ao crescimento desordenado do tumor, possibilitando a descoberta de medicamentos que levam à inibição desse crescimento e à morte da célula maligna. É a chama terapêutica alvo, que tem grande eficácia, mas, infelizmente, um período não muito prolongado de atuação (em média 8 meses). De ressalvar que, no entanto, há doentes com períodos significativos de sobrevivência na ordem de anos.
O melanoma maligno trouxe à Oncologia (especialidade que estuda e trata as doenças oncológicas) um novo método de tratamento, a Imunoterapia. O conceito terapêutico traduz simplesmente a capacidade que os médicos podem ter de, mediante a utilização de fármacos, estimular o sistema imunitário do doente, transformando o arsenal imunitário de cada um numa arma contra o melanoma, permitindo, assim, a sua erradicação ou controle (transformando a doença oncológica em doença crónica). Existem duas classes de compostos: os que atuam sobre o CTLA-4 (Ipilimumab) e os que atuam sobre o PD-L1/PD-1 (nivolumab e pembrolizumab). Neste último caso, a célula tumoral consegue atuar sobre estes “marcadores de superfície” dos linfócitos de forma a inibir a resposta imunitária, parando assim a sua função citotóxica. Estes compostos refazem a atuação destas células retirando esse “travão”. O pembrolizumab (anti PD-L1) medicação autorizada e que mereceu avaliação custo benefício e comparticipação pelo Infarmed tem uma taxa de sobrevivência a 2 anos de 31%.
Em relação à doença localizada, mantém-se a cirurgia como arma fundamental e única curativa, sendo que a terapêutica adjuvante, aquela que se faz para prevenir o ressurgir da doença, não existe ou tem pouca eficácia nos seus propósitos preventivos.

RX – Que mensagem gostaria de transmitir à população relativamente a uma exposição solar segura e sem riscos?

EJ – Aconselho a cumprir com as regras que, há vários anos, as associações e organizações, como a Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo, Euromelanoma, DGS e outras, exaustivamente têm esclarecido a população em relação aos riscos e medidas a adotar.

A ter em conta:
– Evitar a exposição solar entre as 11 e as 17 horas e usar cremes protetores aprovados;
– Ter em consideração que usar cremes protetores não significa ausência total de risco de vir a ter melanoma;
– Ter em atenção aos raios UV na atmosfera, cuja informação é dada diariamente pelos meteorologistas;
– Não apanhar escaldões;

A um outro nível, a exposição solar, para além do risco de aumentar a incidência de melanoma, leva a outros tumores cutâneos e a um envelhecimento precoce da pele. Por último, não use solários, a maioria emite uma dose não quantificada de raios UV e não tem, por isso, um histórico de dose total irradiada.

logobranco

MORADA:

Rua Hermínia Silva nº 8 LJ A, Jardim da Amoreira
2620-535 Ramada

geral@raiox.pt