“Nem sempre as mulheres valorizam a perda de sangue”

Águas Dra. Fernanda (002)

No que respeita à anemia e à deficiência de ferro, as mulheres em idade reprodutiva representam uma população mais vulnerável, tendo em conta as perdas de sangue associadas à menstruação, mas também nas situações de gravidez e pós-parto. Fernanda Águas, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, explica de que forma estas situações podem ser prevenidas e tratadas e alerta para a valorização dos sintomas. Até porque, para poder cuidar dos outros, a mulher tem de aprender a cuidar de si.

RAIO-X (RX) – A anemia é uma complicação frequente nas mulheres? Como se define e como a detetam?

Fernanda Águas (FA) – A anemia é um problema de saúde frequente nas mulheres em idade fértil porque, ciclicamente, existe uma perda de sangue cujo volume pode variar entre 60 e 240 ml e, como tal, reflete-se negativamente nos valores da hemoglobina. A incidência de anemia por deficiência de ferro nos países desenvolvidos atinge 20% das mulheres nesta faixa etária e pode chegar aos 40% se ocorrerem hemorragias uterinas anormais. A anemia na mulher define-se como uma hemoglobina inferior a 12 g/dl e o diagnóstico é feito através da realização de um hemograma.

RX – Sabe-se que as mulheres podem apresentar deficiência de ferro, mesmo sem apresentarem anemia. Em que consiste e como se pode identificar a deficiência de ferro?

FA – A deficiência de ferro, também denominada sideropenia, pode ser considerada como a etapa inicial deste processo porque antecede os quadros de anemia. Deteta-se através de análises e a forma mais simples de o fazer é através da determinação da ferritina sérica. Um valor inferior a 30 µg/L é compatível com deficiência de ferro e as reservas de ferro estão profundamente afetadas quando esse valor é inferior a 30 µg/L.

RX – Quais são os sintomas que os ginecologistas e os obstetras devem procurar nas suas doentes de forma a identificar precocemente a deficiência de ferro e a anemia?

FA – Muitas doenças ginecológicas cursam com hemorragias uterinas anormais e sempre que há estes sintomas é obrigatório pesquisar a deficiência de ferro e a anemia. Contudo, nem sempre as mulheres valorizam a perda de sangue que têm nas menstruações pois há sempre alguma subjetividade desta avaliação, daí a importância de uma cuidadosa história clínica e do pedido de exames complementares sempre que necessário. Os sintomas de deficiência de ferro podem ser muito inespecíficos e gerar confusão com outras situações patológicas, quer pela mulher, quer pelo médico. Por outro lado se vamos aguardar pelos sintomas típicos de anemia, que são o cansaço fácil e a falta de forças, podemos deixar que se atinjam estados graves de anemia grave.

RX – A anemia e a deficiência de ferro só afeta as mulheres grávidas? Que causas ginecológicas podem potenciar o risco de anemia ferropénica nas mulheres?

FA – A anemia é frequente na gravidez e no pós-parto devido ao aumento das necessidades de ferro nem sempre compensadas pela alimentação. As causas ginecológicas relacionadas com anemia são sobretudo as doenças do útero que cursam com hemorragias anormais e também as doenças oncológicas.

RX – Como deve ser prevenida e tratada a anemia e a deficiência de ferro? De acordo com as recomendações nacionais e internacionais, quais as análises que devem ser pedidas? E que valores devem ser considerados? Qual o papel da ferritina e da TSAT nesta avaliação?

FA – A anemia deve ser prevenida com uma boa alimentação. O aconselhamento nutricional é muito importante neste âmbito. Do ponto de vista do ginecologista, importa caracterizar desde inicio os ciclo menstruais da mulher e corrigir as hemorragias anormais e/ou excessivas. Na mulher jovem muitas vezes este objetivo é alcançado com a toma da pílula. Para além disso, existem ainda outros compostos hormonais muito eficazes no controlo das hemorragias uterinas. Tal como já referi, é obrigatório fazer análises para diagnosticar precocemente a sideropenia e a anemia. O doseamento da ferritina é importante para que se possa diagnosticar e corrigir precocemente a depleção das reservas de ferro e prevenir a anemia. A determinação da saturação da transferrina é uma medida do ferro funcional e pode ser útil para diagnosticar a sideropenia quando há falsos negativos do doseamento da ferritina como por exemplo nos estados inflamatórios.

RX – Há, por parte dos ginecologistas/obstetras, a preocupação de corrigir as carências de ferro nas mulheres?

FA – Sim, cada vez mais se nota essa preocupação.

RX – Como é feita esta correção? Qual o papel da suplementação oral com ferro? E quando deve ser usado o ferro IV?

FA – O tratamento da anemia ferropénica têm por base a administração de compostos de ferro. Como primeira linha consideramos as formulações de ferro oral. Contudo há que ter em atenção que muitos compostos de ferro oral são responsáveis por efeitos indesejáveis a nível gastrointestinal e por isso mal tolerados. Nos casos de intolerância ou de ineficácia do ferro oral e em situações de má-absorção deve ser administrado ferro endovenoso. Também se deve preferir esta via de administração nos casos de hemorragia excessiva e mantida que não se coaduna com o ritmo de reposição de ferro da via oral. O mesmo se aplica a situações em que se pretende uma resposta rápida e eficaz como por exemplo em casos de pré e pós-operatório.

RX – O tratamento adequado e de forma antecipada com ferro IV contribui para a redução da necessidade de transfusões. De que forma é que a redução da necessidade de transfusões é vantajosa para as doentes?

FA – A transfusão deve ser sempre uma solução de último recurso e reservada para situações de anemias graves com instabilidade hemodinâmica. Para todos os efeitos o sangue é um “transplante” e pode estar associado a reações adversas graves. Por outro lado é um bem escasso e dispendioso como tal a evitar.

RX – Considera que este problema tem a devida atenção por parte da comunidade médica no geral? E por parte dos ginecologistas/obstetras especificamente?

FA – Os médicos estão cada vez mais atentos a estas situações, ainda assim nem sempre é dada a importância que elas merecem. No caso da patologia ginecológica associada a quadros de hemorragia, muitas vezes o foco do médico é na doença de base e o objetivo é resolvê-la rapidamente. Isto pode conduzir, por exemplo, à realização de cirurgias sem que previamente esteja acautelada a reposição da hemoglobina. Todos sabemos que operar uma doente com hemoglobina baixa aumenta significativamente a probabilidade de uma transfusão de sangue.

RX – Qual o papel que a Sociedade Portuguesa de Ginecologia tem tido e terá em relação a este assunto com tanto impacto na qualidade de vida das mulheres?

FA – A Sociedade Portuguesa de Ginecologia tem tido a preocupação de debater com muita frequência estes temas nas suas reuniões científicas. Por outro lado tem emitido recomendações específicas para o tratamento da anemia ferropénica no âmbito das doenças ginecológicas especialmente das hemorragias uterinas anormais. Finalmente temos estado e estaremos sempre disponíveis para participar em abordar esta temática em contextos multidisciplinares como por exemplo nos grupos dedicados ao “PatIent Blood Mangement”.

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