“Prevenção do risco cardiovascular passa obrigatoriamente pela Medicina Geral e Familiar”

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Cerca de 400 participantes são esperados na 11.a edição das Jornadas de Prevenção do Risco Cardiovascular para Medicina Geral e Familiar, que terá lugar no Algarve, nos próximos dias 23 e 24 de junho. Em antecipação do evento, Pedro Marques da Silva adianta que a abordagem do doente cardiovascular no idoso será um dos temas de maior destaque. Em entrevista ao Raio-X, o organizador desta reunião explica o papel do Médico de Família na prevenção cardiovascular e alerta para a chamada “doença dos bocadinhos”.

 

Raio-X – Em que contexto e com que objetivos surgiram as Jornadas do Risco Cardiovascular para Medicina Geral e Familiar?

Pedro Marques da Silva – Estas Jornadas surgiram de um desafio que tinha como missão criar um veículo de comunicação e formação dos médicos de família. Este é um aspeto muito importante porque, tendo em conta a realidade de todos os países europeus, ninguém pode imaginar a definição de um plano de prevenção que não envolva os cuidados de saúde primários e os especialistas em Medicina Geral e Familiar. A prevenção do risco cardiovascular passa obrigatoriamente pelos médicos de família. Se os especialistas de Medicina Geral e Familiar não assumirem esse papel central na prevenção do risco cardiovascular, o programa é completamente deitado abaixo.

 

RX – Mas, em Portugal, os cuidados estão ainda muito centrados nos Hospitais…

PMS – Sim. Portugal é, por natureza, um país hospitalocêntrico e isso é mau. Também por natureza, não estamos ainda muito aberto à responsabilidade partilhada entre o médico e o doente. As pessoas aceitam passivamente essa atitude. O papel central do Médico de Família tem de assentar muito na convivência e na articulação com as outras especialidades do Centro Hospitalar de referência.

 

RX – Estas Jornadas surgem então com base numa necessidade de diálogo?

PMS – Exatamente. Pela necessidade de diálogo e pela necessidade de formação contínua. Numa área como a Medicina Interna, o tempo de renovação de conhecimentos é de três anos. Dentro de três anos, o conhecimento que eu tenho hoje estará desatualizado. Para a Medicina Geral e Familiar, esse prazo é ainda mais curto e as exigências de atualização são ainda maiores porque o médico de família tem de saber um bocadinho de tudo. Se cada um de nós, que trabalhamos numa área um pouco mais diferenciada, puder contribuir para essa atualização, decerto ficaremos todos a ganhar. Principalmente os doentes.

 

RX – A reunião conta já com 11 edições. É mais de uma década a contribuir para esta necessidade formativa dos profissionais dos CSP.

PMS – Na realidade, não imaginava que chegaríamos a este número. Aliás, cada vez que acaba uma edição, não sei se estarei à frente da organização da próxima. Cada ano é um desafio. Faço-o pelo prazer que me dá e pelo prazer que eu sei que dará aos participantes. Por outro lado, esta reunião representa também uma oportunidade para prestar homenagem aos meus companheiros.

 

RX – Que temas do programa científico gostaria de destacar?

PMS – Este ano vamos discutir um assunto muito sério, sobretudo no nosso país, em que é cada vez maior o número de pessoas com mais de 65 anos, das quais, mais de 35% vivem sós. Esse tema é a doença cardiovascular no idoso frágil. Esta é a população que não entra nas guidelines. Esta é a população que sentimos maior dificuldade em tratar. Há um vazio de evidência relativamente aos procedimentos terapêuticos que devemos implementar nestes doentes porque, geralmente, eles são excluídos da investigação clínica. É nestes doentes que tantas vezes pedimos ajuda para decidir a outros colegas.

 

RX – Quem será homenageado na edição deste ano?

PMS – Procuro homenagear os colegas que, ao longo das suas carreiras, têm dado um importante contributo para a prevenção do risco cardiovascular. Esta é uma forma de homenagear as pessoas que eu respeito e com as quais muito tenho aprendido. Este ano, será homenageado o Prof. Manuel Teixeira Veríssimo, que é um companheiro de muitas viagens e que muito tem feito pela prevenção de risco cardiovascular.

 

Nem todos os fatores de risco dão o mesmo contributo para a doença cardiovascular

 

RX – Hoje em dia fala-se do risco cardiovascular como se fosse uma constelação de vários fatores de risco. De que forma cada um destes fatores contribui para a ocorrência de eventos e para a degradação da saúde cardiovascular?

PMS – É de facto essa constelação de fatores de risco que faz disparar a probabilidade de um indivíduo sofrer um evento cardiovascular. É disso que falamos, de probabilidades. O risco é um somatório de exposição a diversos fatores que lesam os nossos vasos sanguíneos e o nosso sistema cardiovascular. E é hoje sabido que os diversos fatores não representam o mesmo peso em termos de risco. Há fatores que contribuem mais do que outros. Ou seja, temos fatores que mantêm uma relação causal com a doença aterosclerótica, como é o caso das alterações do perfil lipídico. Outros fatores são condicionantes e amplificadores desse risco e temos outros fatores que nem têm um contributo significativo.

Não há processo aterosclerótico sem haver uma alteração do perfil lipídico.

 

RX – Mas podemos considerar que a HTA contribui mais para o risco de AVC e as alterações lipídicas (colesterol elevado) para o risco de enfarte do miocárdio, por exemplo?

PMS – Os estudos mostram isso mesmo, nomeadamente o INTERHEART e o INTERSTROKE. Mais de 60% dos AVC são explicados por valores muito elevados da pressão arterial e uma grande percentagem dos enfartes do miocárdio está relacionada com a existência de placa aterosclerótica nas artérias, gerada pelas alterações lipídicas.

 

RX – O Dr. Pedro Marques da Silva costuma dizer que, na maior parte dos casos, os eventos cardiovasculares ocorrem nas pessoas que têm a “doença dos bocadinhos”?

PMS – É verdade. Muitas das vezes ficamos espantados porque são pessoas que têm um bocadinho de colesterol, um bocadinho de diabetes, um bocadinho de peso a mais, um bocadinho de hipertensão. Mas estes bocadinhos todos juntos representam um grande risco cardiovascular. Por outro lado, essas pessoas representam a maior parte da população. Felizmente, a minoria tem uma hipertensão muito complicada, ou um colesterol muito descontrolado ou uma diabetes muito descompensada. Portanto, mesmo do ponto de vista estatístico, é normal que a maior taxa de eventos ocorra no maior grupo de pessoas.

 

RX – Os novos estilos de vida têm determinado uma alteração do padrão de risco de doença cardiovascular?

PMS – Sem dúvida. Há até uma diferença nos padrões dos fatores de risco. Hoje em dia, a doença coronária ocorre em pessoas mais jovens, é agora bastante mais frequente em mulheres do que no passado. A mudança do padrão de idade introduz nuances impressionantes que vamos ter que discutir. Todas estas alterações vão obrigar-nos a repensar as estratégias terapêuticas.

 

Por Cátia Jorge

 

 

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