“A epilepsia não são só convulsões”

O 32.º Encontro Nacional de Epilepsia vai decorrer nos dias 18 e 19 de setembro, em formato digital. Em entrevista ao Raio-X, a Dr.ª Francisca Vieira de Sá, presidente da delegação do sul da Liga Portuguesa Contra a Epilepsia (LPCE) e secretária-geral deste Congresso, comenta a importância de o realizar e as temáticas abordadas, bem como os vários tipos de epilepsia e o estigma ainda existente quanto a esta patologia.

Estima-se que a epilepsia afete entre quatro e sete mil pessoas em Portugal. Qual o impacto desta doença?

Há vários tipos de epilepsia, algumas são facilmente controláveis e, desde que seja feito o diagnóstico correto, a toma da medicação e alguma assistência médica regular de acompanhamento são suficientes. Por outro lado, para alguns doentes, a epilepsia pode não ficar completamente controlada, podendo existir crises com mais ou menos frequência. Nesse contexto, o doente deverá ter seguimento em consulta especializada e a doença implica que tenha algumas limitações e cuidados, nomeadamente em tudo o que seja situações em que uma perda breve transitória da consciência o possa pôr em risco. Portanto, são pessoas que se não tiverem a epilepsia controlada não podem, por exemplo, conduzir ou realizar desportos radicais. Do ponto de vista cognitivo, grande parte das epilepsias não tem um impacto de relevo, existindo pessoas a desempenhar funções sem limitações, nas mais diversas áreas profissionais. O impacto da epilepsia depende de caso para caso. De um modo global, se a epilepsia estiver controlada – o que acontece em dois terços dos doentes – pode ter-se uma vida normal desde que se cumpra a terapêutica e que haja alguns cuidados como descanso regular, já que a privação de sono, situações de cansaço extremo ou de stress podem levar à recorrência de crises. Os restantes doentes, que apresentam epilepsias refratárias, têm mais limitações e precisam de cuidados especializados multidisciplinares.

Ainda existe algum estigma associado à epilepsia?

Ainda. Está a mudar, mas mesmo os próprios doentes – de referir que, além das crianças, o segundo pico de incidência é a partir dos 60 anos – quando são surpreendidos com o diagnóstico, têm alguma dificuldade em aceitá-lo. Isto porque muitos ainda associam a epilepsia a situações de alterações comportamentais e até a algum misticismo. Quando percebem melhor a doença, que até pode ser sintoma associado a outras doenças prévias, geralmente aceitam. Contudo, algumas pessoas preferem manter para si o diagnóstico por receio de serem discriminadas, sobretudo no ambiente laboral.

É necessário sensibilizar a população para esta patologia?

É essencial que se perceba que a epilepsia não são só convulsões. Existem vários tipos de epilepsias e diversas doenças associadas a epilepsia. Por exemplo, o doente que tem um tumor cerebral ou que sofreu um acidente vascular cerebral pode desenvolver epilepsia, ou ter uma epilepsia sem causa identificada, mas que fora do período em que aquele circuito anormal é ativado tem um funcionamento perfeitamente normal. Por isso é que as pessoas, muitas vezes, nem reparam que aquela pessoa tem alguma doença. É importante que as pessoas reconheçam os sintomas.

E que sintomas são esses?

As crises podem ser muito variáveis de doente para doente, mas cada um tem o mesmo tipo de sintomas. Ou seja, para cada doente os episódios são muito estereotipados, mas podem ser completamente diferentes de um doente para outro porque depende da área do cérebro afetada. Por exemplo, se for no lobo occipital, vai ter sensações visuais, ver luzinhas ou formas; no caso do lobo temporal, das regiões cerebrais mais frequentemente afetadas na idade adulta, pode ter uma sensação de calor no estômago, angústia e alucinações olfativas. Mas estes sintomas são sempre iguais em cada doente, surgem subitamente e repetem-se, porém, as pessoas não lhes dão a devida importância e só recorrem ao médico, muitas vezes, depois de uma convulsão.

Qual a importância de realizar o 32.º Encontro Nacional de Epilepsia, mesmo em formato digital?

A Liga Portuguesa Contra a Epilepsia organiza anualmente este encontro e neste ano, por causa da pandemia, optámos por fazer em formato online. Consideramos que é importante realizar este Congresso, mesmo sem ser presencial, por ser um momento de partilha de experiências entre os vários colegas dos diversos centros do país que seguem doentes com epilepsia, em que podem discutir diferentes temas relacionados, e ouvir atualizações de diferentes áreas, mas todas com o foco no doente epilético. Também permite que as pessoas que fazem investigação na área possam divulgar os seus trabalhos.

Vão ser abordados desafios e soluções para o futuro do diagnóstico e tratamento da epilepsia. Que novidades destaca?

Não diria novidades, mas temas atuais em que o conhecimento cresceu mais nos últimos tempos, nomeadamente no que respeita à genética e à relação entre a autoimunidade e a epilepsia. O conhecimento tem aumentado muito nestas áreas e há que perceber qual o impacto que estes novos conhecimentos impõem à nossa prática clínica. Vai falar-se também na neurodegeneração, nas terapêuticas para o futuro e no papel da cirurgia da epilepsia.

Todos os tópicos vão ser abordados por palestrantes com bastante conhecimento e experiência na área, que estarão sempre disponíveis para responder a questões. Quem tiver interesse em participar ainda se pode inscrever até dia 17 de setembro, basta enviar um email para ene@epilepsia.pt.

 


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