“É possível viver bem com uma doença mental, ter qualidade de vida e participar ativamente na sociedade”

Entre 20 a 25% da população mundial sofre de uma doença mental, contudo, o estigma e o preconceito que ainda existem em relação aos distúrbios do comportamento e das emoções continuam a representar um entrave ao diagnóstico e tratamento destas doenças. Por ocasião do 19.º Congresso Mundial de Psiquiatria, que decorreu em Lisboa, entre os dias 21 e 25 de agosto, o Raio-X falou com Pedro Varandas sobre o que está feito e o que falta ainda fazer para que os portadores de doença mental possam ter uma vida com qualidade, independentemente da gravidade do mal que lhes causa sofrimento. O diretor clínico da Clínica Psiquiátrica de S. José, membro da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental e da Comissão Organizadora deste congresso lamenta que, em Portugal, as doenças psiquiátricas representem uma prioridade apenas no papel pois, “na prática, no terreno, pouco se concretiza”.

Raio-X (RX)- O que significou para o nosso país ser, durante quatro dias, o palco da discussão da atualidade sobre saúde mental?

Pedro Varandas (PV) – Significa a receção de um congresso internacional muito importante na área da Psiquiatria. Esta reunião, organizada pela World Psychiatric Association (WPA) com parceria da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental reuniu, em Lisboa, mais de 4000 psiquiatras e outros profissionais da saúde mental. Foram abordados temas muito importantes de atualização científica e da própria prática clínica psiquiátrica, o que foi bastante benéfico para todos os participantes. A maior delegação psiquiátrica foi a portuguesa – recebemos cerca de 500 especialistas nacionais – que tiveram a oportunidade de atualizar o seu conhecimento científico. Trata-se de um grande evento internacional, com visibilidade que permite chamar à atenção para toda a área da Psiquiatria e da saúde mental. Enquanto entidade co-organizadora desta reunião, a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental teve também aqui oportunidade de chamar a atenção das autoridades para esta área do sofrimento humano, principalmente para quem tem doença mental ou sofrimento psicológico e que precisa de ajuda. No nosso país, as respostas não estão claramente a cobrir as necessidades.

RX – A nível global, qual é o peso epidemiológico da doença mental?

PV – Os estudos realizados de caracter epidemiológico têm mostrado que a possibilidade de ocorrência deste sofrimento psicológico/doença mental – desde as formas mais ligeiras até às formas mais severas – é de 20 a 25% na população a nível global. Logicamente que as pessoas incluídas nesta prevalência têm formas diferentes de sofrimento.

RX – Em Portugal, quantas pessoas estão diagnosticadas com uma doença mental?

PV – Não tenho ideia de quantos portugueses estarão diagnosticados com doença mental. Mas relativamente a formas graves da doença, nomeadamente, esquizofrenia, pensa-se que existam em Portugal 48 mil doentes. Sabemos também que cerca de 41.000 doentes acedem a cuidados de saúde. Contudo, não sabemos com que regularidade são tratados e a que tratamentos têm acesso. Isto significa, portanto, que há muitos doentes que não estão a ser acompanhados.

RX – Qual a doença mental mais prevalente? E o que representa o diagnóstico de uma doença mental para o indivíduo, para a sua família e para a própria sociedade?

PV As formas de doença mental mais prevalentes no nosso país são as doenças do espectro da ansiedade e da depressão, que podem manifestar-se de forma ligeira, moderada ou grave. Nos casos graves, as consequências para o próprio doente, para a família e para a sociedade são muito pesadas. Estes doentes apresentam um elevado índice de absentismo, de reforma precoce, de baixa produtividade o que, do ponto de vista económico, representa um enorme impacto. As autoridades, o Estado, deviam olhar muito seriamente para esta área porque aquilo que pode ser considerado um custo – que eu acho sempre uma conceptualização errada – podia ser considerado como um investimento, ou seja, o acesso ao tratamento e a prevenção desde os cuidados de saúde primários. Seria um investimento com retorno.

No contexto familiar, doenças mentais nos idosos, como a demência, a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson implicam um elevado grau de incapacidade e a necessidade permanente de cuidados de terceiros, geralmente cuidadores informais. São as famílias que sentem a maior sobrecarga. Transformar alguém com capacidade para ser cuidador, significa tirar essa pessoa do mercado de trabalho, colocar essa pessoa a fazer trabalho de enfermagem 24 sobre 24horas. Na maior parte das vezes, as famílias organizam-se e são várias pessoas a cuidar, durante anos.

RX – De que forma Portugal tem evoluído no que respeita a dar respostas aos portadores de doença mental e respetivas famílias?

PV – Em Portugal acontece uma coisa transversal a todo o mundo que é considerar que a doença mental e a sua respetiva abordagem, do ponto de vista de saúde pública, são uma prioridade, mas depois, na prática, no terreno, as coisas não são assim. Há várias razões para explicar isso, mas Portugal sofre muito deste mal – boas intenções, boas palavras, “palmadinhas nas costas” – mas no final as coisas não se concretizam. Aquilo que chega a ser concretizado é muito pouco para as necessidades que se impõem.

E é neste aspeto que sociedades científicas e éticas e como até os próprios colégios da especialidade têm de combater para chamar à atenção para a necessidade de o Estado criar  condições de cobertura a quem é mais vulnerável. Não há dúvida de que os doentes mentais graves são o grupo populacional mais vulnerável da sociedade. E é exatamente a esse grupo que o Estado deve estar atento e prestar os cuidados necessários.

 

Estigma social ainda representa “uma barreira muito grande”

 

RX – O estigma social é ainda uma barreira ao diagnóstico e tratamento adequados das doenças mentais?

PV – É uma barreira muito grande, quer da parte da própria pessoa que sofre de doença mental e das próprias famílias que são afetadas, quer da parte da própria sociedade. O preconceito relativamente à doença mental provoca uma barreira/uma fronteira que muitas vezes não se ultrapassa para ajudar as pessoas.

RX – É possível viver bem, com qualidade de vida, sendo portador de uma doença mental? Os tratamentos atuais permitem o controlo a esse ponto?

PV – Sim, é possível. Nas últimas décadas foram disponibilizados tratamentos mais eficazes, com menos efeitos secundários, houve um aumento do número de pessoas tratadas que deixam de ter grande sofrimento e podem ter qualidade de vida e participar ativamente na sociedade.

RX – Quais as doenças para as quais há ainda necessidades terapêuticas sem resposta?

PV – As doenças mentais são complexas e, portanto, não há uma resposta única. A resposta terapêutica para as doenças mentais é farmacológica e neste momento começa a exigir também uma resposta de dispositivos tecnológicos. Mas a abordagem está também muito baseada na psicoterapia, na ajuda social, no aconselhamento e num conjunto de ferramentas que facilitam a vida dos doentes. Nos casos em que a doença não é completamente controlável, o tratamento passa também pela reabilitação de algumas competências que as pessoas vão perdendo.

RX – O que diferencia uma doença neurológica, como a epilepsia ou o Parkinson, de uma doença psiquiátrica, como a esquizofrenia ou a doença bipolar?

PV – Muitas vezes nem nós especialistas temos uma resposta linear para isso. Aquilo que diferencia a Neurologia da Psiquiatria  é a forma como as doenças do cérebro se manifestam. Se se manifestarem de uma forma mais subjetiva e comportamental, estamos a falar de doenças do campo da Psiquiatria. Se se exprimirem com sintomatologia mais objetivável e verificável do ponto de vista imagiológico, já estamos a falar de doenças do campo da Neurologia. O que distingue é a forma de acesso à doença, ou seja, na Psiquiatria temos que aceder ao mundo subjetivo das pessoas, o que é totalmente diferente do que se faz na Neurologia.

RX – Como idealiza a abordagem futura dos portadores de doença mental?

PV – Exatamente como tem sido feita até hoje. Não creio que tenhamos uma margem de progresso muito significativa. Até podemos vir a ter uma tradução objetiva por meios tecnológicos da nossa emocionalidade, do nosso pensamento, mas tenho sérias dúvidas de que quando as nossas emoções, os nossos pensamentos e os nossos sentimentos estão a funcionar mal isso possa ser avaliado por meios tecnológicos. Portanto, a abordagem intersubjetiva – que é conseguida na relação do médico com os doentes – ainda é o instrumento principal e é a isso nós chamamos psicopatologia.

 

Por Rita Rodrigues e Cátia Jorge

 


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