Um son(h)o de mulher

Uma noite de março, dez mulheres sentadas à mesa e várias horas de conversa, de partilha, de muitas aprendizagens e tantas gargalhadas. O assunto? Sono. O sono das mulheres como nunca ninguém se atreveu a falar dele.

Três pneumologistas, uma pedopsiquiatra, uma dermatologista, uma psicóloga, uma otorrinolaringologista, uma cardiopneumologista, uma jornalista de saúde e a responsável comercial da Resmed anteciparam o Dia Internacional da Mulher e juntaram-se num ambiente informal para conversar, sem tabus nem preconceitos, sobre o que verdadeiramente tira o sono às mulheres que sofrem de síndrome de apneia obstrutiva do sono.

Num mundo ideal, todas as mulheres deveriam nascer com o dom de dormir como verdadeiras princesas. Adormecer e acordar com a pele luminosa, o cabelo arrumado, hálito fresco e, se não for pedir muito, com um sorriso angelical nos lábios, como as bonecas da Disney. Mas não tenhamos ilusões, a Bela Adormecida aterrou como uma pedra porque foi enfeitiçada e a Branca de Neve porque foi envenenada. E, embora não tenha ficado documentado, talvez por cavalheirismo do príncipe ou por medo de represálias dos sete anões, é bem provável que ambas roncassem, até porque dormiam de barriga para cima.

Longe das histórias de encantar, a verdade é que também as mulheres têm “mau dormir”. Ressonam, falam alto, dão pontapés, têm pesadelos, babam a almofada e, às vezes, até param de respirar, acordam em sobressalto e deixam com o coração nas mãos os seus companheiros. E como depois de uma noite difícil vem um dia ainda pior, o resultado reflete-se sempre na falta de concentração, num humor de cão, na sonolência diurna e, não menos importante, numa pele péssima e numas olheiras até ao queixo.

A longo prazo, muitas noites de mau sono acabam por ter consequências ainda mais graves: doenças cardiometabólicas, depressão, ansiedade, AVC e até maior risco de doença oncológica. Já para não falar em acidentes de viação, tantas vezes associados ao cansaço acumulado de quem já não se lembra de dormir uma noite seguida.

Não foi discutida, neste encontro, a solução para a baba na almofada ou para as conversas subconscientes que ocorrem durante o sono. Contudo, não faltaram soluções e sugestões para resolver “pequenos” e “grandes” tabus relacionados com a apneia do sono e sobre o tratamento com CPAP.

Mas como lidam as mulheres com um diagnóstico de apneia obstrutiva do sono?

A opinião parece unânime: numa primeira fase, há negação.

O sentido maternal das mulheres fá-las assumir, à partida, um papel de cuidadoras, portanto, mais facilmente se preocupam com os problemas de saúde dos seus filhos e companheiros, do que com as suas próprias maleitas, como explica a psicóloga Eulália Gomes.

 Numa fase inicial, parece haver uma desvalorização e um adiamento do pedido de ajuda. “E quando decidem dar esse passo, geralmente vão sozinhas à consulta, ao contrário do que habitualmente acontece com os homens”, diz Vânia Caldeira. Segundo a pneumologista, “os homens vêm à consulta com as suas companheiras e, muitas vezes, delegam-lhes a tarefa de responder a todas as perguntas do médico. Inclusivamente são elas que descrevem os sintomas”.

Quando é a mulher que sofre de apneia obstrutiva do sono, há quase um sentimento de vergonha ou de fraqueza.

Assumir a apneia obstrutiva do sono significa encarar uma fragilidade que não se resolve com um comprimido ao pequeno-almoço e outro ao deitar. Significa levar para a cama um elemento – CPAP – que não deixa esquecer a doença. Contudo, é esse elemento que permite melhorar a qualidade do sono e, por conseguinte, melhorar a funcionalidade dos dias. Não só da mulher, mas também do seu companheiro que também se via obrigado a acordar durante a noite, fosse pela roncopatia ou pela aflição de ver interrompida a respiração da sua mulher.

No contexto da abordagem terapêutica, existem entre homens e mulheres diferenças da anatomia das vias aéreas que são importantes ter em consideração, tendo em conta a necessidade de aplicação de uma abordagem personalizada, como explica a otorrinolaringologista Cristina Caroça. Todas estas diferenças devem ser bem avaliadas no momento de escolher a solução que melhor se adapta às necessidades de cada uma.

Adesão à terapêutica é pior nas mulheres?

“Não há dúvida de que, no caso da apneia obstrutiva do sono, a adesão à terapêutica é pior nas mulheres do que nos homens”, sublinha Susana Sousa. “Talvez porque as mulheres toleram melhor a necessidade de CPAP por parte dos seus maridos do que o contrário”, acrescenta a pneumologista. Mas para Helena Afonso, “muitas vezes o estigma está na cabeça delas e não na deles”.

Desde sempre ouvimos falar da “cabeça complicada das mulheres” e também neste caso pode ser essa a justificação para uma adesão mais fraca ao tratamento e qualquer desculpa serve para, “naquela noite” o CPAP não ter sido utilizado.

São estes pequenos estigmas que devem ser desbloqueados para que as mulheres possam ter melhores noites de sono e uma vida mais feliz. É preciso ajudar as mulheres a superarem esses estigmas e a encararem o CPAP como uma solução natural para o problema de que padecem.

Faço alergia à máscara

Ora aqui está uma justificação frequente para a má adesão ao tratamento com CPAP. Mas, aquilo a que as doentes chamam de alergia é, na maioria dos casos, “uma reação irritativa”, como explica Marisa André. Segundo a dermatologista, uma reação alérgica manifesta-se, geralmente, com erupções eritematosas maculopapulares puriginosas, contudo, não é, habitualmente, este tipo de sintomas que as doentes reportam. “Podem queixar-se de alguma comichão, vermelhidão que são resultado de manifestações irritativas e não alérgicas”, descreve Marisa André. Estas manifestações são mais comuns na fase de adaptação ao dispositivo, nos primeiros dias de tratamento”, acrescenta Vanessa Cardoso. A cardiopneumologista que, no seu dia-a-dia é responsável pelo processo de educação e adaptação dos doentes ao tratamento, confirma que, de facto, a maior parte das reações coincide mais com esta síndrome irritativa do que propriamente com alergia.

De qualquer forma, há alguns “truques” que ajudam a minimizar este desconforto: “a limpeza do rosto antes e depois da utilização do CPAP, no sentido de reduzir a oleosidade da pele, a higienização correta e frequente da máscara e a utilização de um sérum termal para o cuidado de peles mais sensíveis”.

Como ser sexy e usar CPAP?

Há preocupações que as mulheres não levam para a consulta. Por pudor, por desconforto ou por receio de serem julgadas, a sexualidade fica, no caso das mais tímidas, fechada nas quatro paredes do quarto. Contudo, são preocupações que podem crescer e transformar-se em ansiedade e em crises que comprometem a intimidade do casal. Mas, vamos lá ver, “a cama serve para dormir e para a atividade sexual, mas o CPAP só faz falta para dormir”, sublinha Paula Pinto. Segundo a pneumologista, a mulher pode ter a sua vida íntima e a sua sexualidade perfeitamente resolvidas, longe do CPAP pois, só na hora de dormir vai precisar dele. Ainda assim, “há mulheres que não se sentem confortáveis e o transtorno é maior quando estão num relacionamento recente”, argumenta Helena Afonso. Num relacionamento sólido, de longa data, onde já não há segredos nem tabus, “a mulher sente-se mais à vontade e o CPAP acaba por ser um elemento natural”, justifica a pedopsiquiatra. “Mas se imaginarmos uma mulher que está a iniciar um relacionamento, que tem um novo namorado, é natural que se sinta menos à vontade para, na hora de dormir, depois da atividade sexual, puxar do seu CPAP”, explica Eulália Gomes. Aliás, acrescenta Susana Sousa, “ouvimos por vezes doentes assumirem que numa ou noutra noite não usaram o CPAP porque tiveram o namorado a dormir lá em casa”.

Como resolver este problema? “A Victoria Secret lançou há uns anos uma linha de lingerie que incluía umas rendas sexy em torno de um CPAP”, recorda Vânia Caldeira. “Por que não usar também cabedal, para as senhoras mais atrevidas?”, sugere Eulália Gomes.

Para Helena Afonso, “o segredo é o diálogo aberto, o amor e o respeito”. Sendo assim, ponto final neste tabu. Que venha a próxima questão.

Não consigo usar cremes de noite

“Pois então use-os à tarde”, curta e direta, Marisa André tem solução para tudo. É certo que a remoção da maquilhagem e a colocação de cremes hidratantes ou antirrugas podem deixar a pele oleosa e comprometer a aderência da máscara ao rosto. Mas, “uma pequena alteração no horário dedicado ao cuidado da pele pode resolver o problema”, adianta a dermatologista. “Se até aqui a mulher empurrava para o final do dia a sua rotina de cuidado da pele, então pode antecipá-la, por exemplo, para o final da tarde, quando chega a casa. Desta forma, a pele tem tempo para absorver os cremes e, na hora de deixar, já não terá aquela camada de gordura que dificulta a utilização da máscara”.

Para Paula Pinto, este é um problema que nunca lhe tinha ocorrido, mas que faz todo o sentido. “De facto, só damos conta dos problemas quando temos de lidar com eles e esta é uma questão que nunca me tinha passado pela cabeça. Mas vou passar a fazer esta recomendação às minhas doentes”.

O arnês desalinha o cabelo

Esta é mais uma das queixas frequentes que as mulheres reportam na consulta. Depois de uma noite com o cabelo pressionado pelos arneses, nem sempre as mulheres que usam CPAP acordam num good hair day, sobretudo as que usam penteados mais volumosos. “Quanto a este problema, não há muito a fazer, a menos que optem por dispositivos de avanço mandibular”, sugere Cristina Caroça. De acordo com a otorrinolaringologista, “esta solução não está indicada para todos os casos de apneia obstrutiva do sono, nomeadamente nos casos em que a obesidade é a causa de base”. De facto, “este dispositivo ajuda a controlar a apneia e reduz o ronco porque atua mecanicamente. Permite que a mandibula avance para uma posição mais anterior, aumentando o espaço do fluxo de ar”, adianta.

“Outra possibilidade passa pela utilização de máscaras cujos arneses não fazem pressão na nuca, mas sim no topo da cabeça”, sugere Patrícia Farinha, lembrando que a RESMED dispõe deste tipo de CPAP que, além de poder resolver o problema do cabelo, permite que o casal “durma juntinho”.

Embora não sejam comuns os casos de alopécia associada à utilização de CPAP, Marisa André reconhece que a escassez de cabelo em algumas zonas do coro cabeludo representa um importante problema de autoestima nas mulheres. Relativamente a este tópico, fica do lado da RESMED o desafio de desenvolver dispositivos que permitam contornar esta questão. As sugestões ficaram no ar!

Os vincos da máscara demoram a sair do rosto

“Sim, é verdade. Muitas vezes os doentes chegam pela manhã à consulta e ainda vêm com o rosto todo marcado”, reporta Vanessa Cardoso. Segundo a cardiopneumologista, “há até doentes que agradecem a utilização de máscara para se protegerem da COVID-19 porque dessa forma conseguem esconder os vincos da máscara do CPAP”.

Mas, para este problema, a dermatologista não tem grande solução. “Eventualmente lavar o rosto com água fria e massajar durante alguns minutos”, propõe Marisa André.

“A profundidade destas marcas varia muito da pressão do CPAP. Os doentes que fazem pressões mais altas tendem a ter marcas mais profundas”, justifica Patrícia Farinha.

Também neste caso, a Dr.ª Cristina Caroça recorda que os dispositivos de avanço mandibular podem ser uma boa alternativa. “O único problema é que não são comparticipados e o preço pode ser elevado para alguns doentes”. Além disso, há doentes (como é o caso dos que sofrem de obesidade) que, optando por esta solução, têm de manter o CPAP.

Vou incomodar o meu parceiro com o ruído do equipamento?

Esta é também uma dúvida comum. “Mas se o parceiro não conseguia dormir por causa do ronco da mulher, decerto vai agradecer a chegada do CPAP à sua vida”, comenta Cristina Caroça.

“Temos tido o cuidado de desenvolver dispositivos cada vez mais silenciosos e acredito que o ruído não represente, neste momento, um problema para o parceiro, nem uma desculpa para a mulher deixar de fazer o seu tratamento”, sublinha Patrícia Farinha.

Para Helena Afonso, “é uma questão de hábito porque aquilo que se ganha durante o dia, compensa largamente a utilização do CPAP durante a noite”. É certo que há casais que optam por dormir em quartos separados, “mas raramente isso acontece por causa do CPAP”. Na maior parte dos casos, são casais que já dormiam separados por causa da roncopatia.

Muito mais havia para contar sobre esta noite. Mas uma parte do que acontece naquele lugar que não existe, fica naquele lugar que não existe.

Cátia Jorge, a jornalista de saúde 🙂


MORADA:

Rua Hermínia Silva nº 8 LJ A, Jardim da Amoreira
2620-535 Ramada

geral@raiox.pt