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Todas as mulheres devem ouvir o que as suas bocas têm a dizer

Todas as mulheres devem ouvir o que as suas bocas têm a dizer

Assinalado ontem, 8 de março, o Dia Internacional da Mulher é também um momento para refletir sobre aspetos da saúde feminina que continuam a ser pouco discutidos ou valorizados. Entre eles está a saúde oral, frequentemente dissociada da saúde geral, apesar da sua ligação direta às diferentes fases hormonais da vida da mulher.

Da puberdade à menopausa, passando pela gravidez, as alterações hormonais têm impacto significativo nas gengivas, nos dentes e no equilíbrio da cavidade oral. Ainda assim, esta relação permanece muitas vezes subvalorizada, quer na prevenção, quer no acompanhamento clínico.

Neste artigo de opinião, Clara Panão, Médica Dentista e Professora na Mandic Portugal, chama a atenção para esta realidade e defende uma abordagem mais integrativa da saúde feminina, em que a saúde oral seja reconhecida como parte essencial do bem-estar ao longo de toda a vida da mulher.

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As mulheres passam por transformações profundas ao longo das suas vidas, que podem ser causadas por alterações hormonais significativas, como as que ocorrem durante a menstruação ou a menopausa, ou que resultam de fases específicas das suas vidas, como a gravidez. Cada uma destas fases traz desafios próprios, exige cuidados específicos e uma abordagem médica verdadeiramente integrativa, que olhe de forma consciente para o corpo da mulher como um todo, incluindo para a boca, uma parte fundamental do nosso organismo que tantas vezes é marginalizada no contexto da saúde geral.

De uma maneira geral, cada fase biológica da mulher apresenta alterações hormonais significativas que podem afetar tanto as gengivas como os dentes. Para evitar situações mais graves, estas alterações não devem ser ignoradas, por se tratar de uma resposta biológica. Nesse sentido, fases como a puberdade, a menstruação, a gravidez ou a menopausa exigem cuidados redobrados e check-ups de rotina.

Em concreto durante a puberdade, as adolescentes sofrem profundas alterações no seu sistema hormonal, que se refletem tanto no seu estado físico como no psicológico. Estas alterações aumentam o fluxo sanguíneo nas gengivas, tornando-as mais propensas a gengivites, inflamações e sangramento ao escovar. É, também, durante este período em que as jovens mulheres adquirem possíveis novos hábitos comportamentais que prejudicam a gravemente a saúde, como o tabagismo, o consumo de álcool e a adoção de dietas menos equilibradas e com maior teor de açúcar. É fundamental que a saúde oral das jovens mulheres não seja descurada nesta fase de vida, sendo crucial o estabelecimento de bons hábitos de higiene oral de forma a prevenir eventuais problemas no futuro.

Por outro lado, durante a gravidez, é essencial que a mulher seja sempre acompanhada pelo médico dentista. Enquanto as alterações hormonais aumentam o risco de gengivite, as náuseas e o refluxo gástrico, tão frequentes nesta condição, alteram o pH da cavidade oral, criando um ambiente que favorece a erosão dentária e cáries.

Já na menopausa, as alterações hormonais também podem ter um impacto significativo. Com a diminuição dos níveis de estrogénio, pode haver alterações de humor, perturbações do sono e até o aumento de risco cardiovascular. No meio desta complexidade, a saúde oral tende a ser deixada para segundo plano, apesar de as manifestações orais puderem tornar-se mais evidentes. Tal é o caso da xerostomia, comummente conhecida por boca seca, precisamente por se caracterizar por uma diminuição ou ausência de saliva, gerando uma sensação desconfortável e persistente de secura na boca, que aumenta significativamente o risco de cáries radiculares e alterações na densidade óssea.

Na semana em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, é fundamental reconhecermos a importância da saúde oral na saúde geral e no bem-estar de uma mulher – uma componente da saúde que aposta na prevenção, aceita que o relógio biológico feminino tem diferentes ritmos e compreende o que a boca tem para dizer.