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1.º Congresso Internacional de Reabilitação Respiratória: juntar saberes, criar uma linguagem comum e aumentar o acesso à RR

1.º Congresso Internacional de Reabilitação Respiratória: juntar saberes, criar uma linguagem comum e aumentar o acesso à RR

Juntar, várias disciplinas, vários profissionais, todos com a mesma preocupação: aumentar a o acesso dos doentes respiratórios a programas de reabilitação respiratória. Para Bruno Cabrita e para Carlos Figueiredo, organizadores deste 1.º Congresso Internacional de Reabilitação Respiratória, a discussão multidisciplinar é o caminho para a criação de sinergias e de uma linguagem comum entre todos os que se dedicam a esta área.

As 150 vagas inicialmente disponibilizadas rapidamente esgotaram, mas ninguém vai ficar de fora pois, “estamos a criar condições de acolher todos os que queiram juntar-se a nós, em Ílhavo, entre os dias 26 e 28 de março”, garantem.

Raio-X (RX) – Este é o primeiro Congresso Internacional de Reabilitação Respiratória. Em que contexto sentiram que havia necessidade de fazer uma atualização nesta área tão específica da terapêutica das doenças respiratórias?

Bruno Cabrita (BC) – Sentimos que havia necessidade de criar um Congresso inovador, no sentido de reunir todas as disciplinas que trabalham na área da reabilitação respiratória e todos os profissionais de saúde que habitualmente discutem este tema, mas muitas vezes de forma muito individualizada. Assim, não existe uma linguagem verdadeiramente comum e consideramos que este é um dos primeiros passos que estamos a dar para começar a reunir várias disciplinas e vários profissionais, para falar a mesma língua.

A ideia é trocar experiências, aprender uns com os outros e discutir as barreiras existentes na reabilitação respiratória, que é um tratamento fundamental, mas que continua a ser pouco acessível. Em Portugal, apenas cerca de 1% dos doentes tem acesso a estes programas, mas esta é também uma realidade a nível internacional.

Daí a decisão de organizar um Congresso internacional, porque se trata de um problema global e não apenas português, procurando torná-lo muito enriquecedor do ponto de vista científico.

Contamos com palestrantes nacionais e internacionais com um currículo vasto nesta área e sentimos que havia necessidade de criar uma reunião inovadora que reunisse todas estas condições. Pretendemos também divulgar mais o papel da reabilitação respiratória e estimular a investigação nesta área, que é igualmente um dos focos muito importantes deste Congresso.

RX – A quem se destina este encontro? Já percebemos que é um evento multidisciplinar, dedicado não só a médicos, mas também a outros profissionais de saúde. Que especialistas e profissionais podemos encontrar neste Congresso?

Carlos Figueiredo (CF) – A palavra equipa é muito importante para nós. Sabe-se que a reabilitação respiratória é um tratamento multidisciplinar e, aliás, esse é um dos critérios formais para que se considere a existência de um programa de reabilitação respiratória.

No que diz respeito aos médicos, os pneumologistas são naturalmente um dos principais públicos-alvo. No entanto, contamos também com outras especialidades, como os fisiatras e mesmo áreas que, à partida, não estão diretamente ligadas à reabilitação respiratória, como os cardiologistas ou médicos mais ligados à Medicina Desportiva, que também podem beneficiar muito do conhecimento nesta área.

Para além disso, estarão presentes todos os outros profissionais de saúde que colaboram connosco de forma constante. Os fisioterapeutas e os enfermeiros de reabilitação são um dos principais grupos envolvidos, mas também contamos com outros profissionais cuja presença depende muitas vezes dos recursos disponíveis em cada centro, como terapeutas da fala e terapeutas ocupacionais.

Existem ainda áreas que, embora nem sempre associadas diretamente ao exercício, são essenciais para o sucesso da reabilitação, como a vertente social. A Nutrição é igualmente muito importante, até porque sabemos que existe uma ligação clara entre sono, nutrição e exercício físico, que são três pilares fundamentais de que falamos frequentemente.

Todos estes profissionais foram convidados a participar e também as respetivas associações profissionais foram convidadas a associar-se ao Congresso como patrocinadores científicos.

RX – Que tipo de intervenções cabem neste conceito de Reabilitação Respiratória?

BC – A reabilitação respiratória é um tratamento não farmacológico fundamental na abordagem das doenças respiratórias. É uma área muito abrangente, que tem vindo a crescer à medida que vamos reunindo cada vez mais evidência científica. Atualmente, praticamente qualquer doente com patologia respiratória crónica — e também alguns com patologia aguda — já apresenta evidência de benefício com a reabilitação respiratória.

Existem determinadas doenças que reúnem mais evidência e que têm sido muito discutidas ao longo dos últimos anos, nomeadamente a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crónica). No entanto, hoje em dia também já existe evidência no cancro do pulmão, nas doenças do interstício pulmonar, nas bronquiectasias, na asma, nas doenças da pleura, entre outras.

Dentro da área da reabilitação respiratória cabe um conjunto muito vasto de intervenções. Estas podem decorrer em contexto domiciliário ou hospitalar e até durante exacerbações da doença, quando os doentes ainda estão internados. Muitas vezes, esse momento funciona também como uma porta de entrada para que os doentes iniciem a reabilitação respiratória e depois possam dar continuidade ao programa após a alta hospitalar.

Falamos também de programas de reabilitação na comunidade, com mais ou menos recursos disponíveis, e da utilização de diferentes dispositivos de apoio. Existe, portanto, uma panóplia muito ampla de áreas de intervenção e de formas de atuar, envolvendo diferentes profissionais na área da reabilitação.

CF – Outra palavra-chave na definição de reabilitação respiratória é o facto de ser individualizada e personalizada. Dependendo da condição específica de cada pessoa, a abordagem deve ser adaptada às necessidades concretas do doente que temos à nossa frente.

Incluem-se também várias técnicas respiratórias, estratégias de conservação de energia — muito importantes para melhorar a qualidade de vida e o dia a dia dos doentes — e métodos de gestão de secreções, que é igualmente um tema muito relevante e bastante discutido nesta área.

Depois, naturalmente, há aquilo que é mais conhecido dentro dos programas formais de reabilitação, que é o treino de exercício, incluindo treino de força, flexibilidade e outros tipos de treino mais personalizados.

Por fim, a educação é também um dos pilares essenciais da reabilitação respiratória.


RX – A cessação tabágica cabe também no conceito da Reabilitação Respiratória?

BC – Absolutamente. É um tema que também iremos abordar. Vamos falar sobre isso e ensinar técnicas inovadoras, tendo inclusive um workshop dedicado à cessação tabágica.

Existe também, na reabilitação respiratória, uma componente muito importante de educação, porque o objetivo final é a adoção de um estilo de vida mais saudável e que se mantenha de forma sustentada, mesmo depois de o programa terminar. No fundo, trata-se também de uma intervenção comportamental. Nesse contexto, terapêuticas como a oxigenoterapia, a ventilação não invasiva (VNI) e o CPAP são igualmente integradas nos programas de reabilitação. Podem funcionar como componentes adicionais que ajudam no processo de reabilitação, mas também porque fazem parte da gestão da saúde respiratória do doente.

Se o doente já está a realizar ventilação ou a fazer oxigenoterapia, essas intervenções devem ser integradas no programa de reabilitação, implicando também ensino e acompanhamento específicos nessa área.

A vacinação é igualmente uma dimensão muito importante do ponto de vista educativo dentro da reabilitação respiratória.

RX – Apenas 1% dos doentes têm acesso a programas de reabilitação respiratória. Este evento pode contribuir para aumentar a acessibilidade? E quando falamos em programas na comunidade, pode também estimular a criação de uma rede de cooperação entre hospitais, USF, e espaços comunitários, como autarquias, por exemplo?

BC – Sabemos que os hospitais, por si só, não conseguem dar resposta a todas as necessidades. Mesmo em termos de financiamento e de recursos humanos, não é possível que a responsabilidade recaia exclusivamente sobre os hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). É evidente que existe também alguma cobertura por parte de entidades privadas, mas muitas vezes de forma pouco estruturada e sem grande ligação à restante rede de cuidados de que estamos a falar.

Este evento, sendo um Congresso Internacional e contando também com uma forte participação nacional, pode dar mais força à voz da reabilitação respiratória em Portugal e ajudar a sinalizar este tema junto dos vários stakeholders que têm capacidade para promover mudanças concretas na prática.

Estamos a falar de chegar a outros setores da sociedade, não apenas dentro do SNS, mas também fora dele, na comunidade. Naturalmente, a rede de Cuidados de Saúde Primários (CSP) é fundamental e temos inclusivamente alguns membros e palestrantes que têm essa ligação. Mas é importante ir ainda mais além, envolvendo Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais e outras estruturas da comunidade.

Há também toda a componente social. Já existe uma rede associada aos cuidados continuados e a outros cuidados prestados na comunidade e no domicílio do doente, e é importante que haja uma maior interligação entre essas estruturas.

Acredito que um evento com esta visibilidade pode trazer mais pessoas para esta discussão, criar novas ligações e permitir que mais profissionais conheçam melhor a área da reabilitação respiratória, o que poderá dinamizar essa interligação entre diferentes setores.

CF – Não podemos esquecer também um ponto muito importante: a investigação. Em Portugal existem vários centros muito fortes nesta área, que produzem publicações internacionais de grande qualidade e relevância. No entanto, por vezes, essa investigação não está tão próxima da prática clínica como poderia estar. Acho que também é nosso dever, enquanto clínicos, aproximarmo-nos mais da investigação, assim como a investigação se deve aproximar da prática clínica. E penso que o Congresso pode servir também para promover essa ligação.

RX – O que dizem as evidências em relação à eficácia e aos ganhos, não só de qualidade de vida, mas até de sobrevivência, associados à reabilitação respiratória?

BC – A reabilitação respiratória já tem mais do que evidência científica suficiente relativamente aos seus benefícios nas doenças respiratórias. Naturalmente, é uma área muito mais estudada na DPOC, onde sabemos, há já muitos anos, que melhora os sintomas, melhora a qualidade de vida, melhora a função pulmonar, reduz a progressão da doença, aumenta a autossuficiência do doente e pode mesmo melhorar a sobrevivência. Portanto, trata-se de um tratamento altamente eficaz para as doenças respiratórias crónicas em geral, não apenas para a DPOC.

Neste Congresso vamos contar com vários palestrantes, quer a nível nacional, quer a nível internacional, provenientes de diferentes países, como o Canadá, o Brasil e a Bélgica. Teremos também especialistas nacionais de diferentes áreas e realidades, alguns a trabalhar em contextos com mais recursos e outros com menos recursos disponíveis.

CF – Acreditamos que esta partilha de realidades tão distintas será muito útil. Escolhemos cuidadosamente os nossos palestrantes, que têm grande experiência na área, e que certamente trarão contributos muito valiosos. A ideia é que possam partilhar as suas experiências e ajudar-nos a melhorar os nossos próprios programas, mas também a questionar se podemos fazer mais e melhor, aplicando programas, técnicas ou dispositivos diferentes. Ao mesmo tempo, esperamos que este Congresso possa também incentivar alguns participantes que ainda não têm programas de reabilitação respiratória a criar novas iniciativas, inspirados pelo que irão aprender e discutir durante o encontro.

RX – Neste momento, as 150 vagas que abriram já estão preenchidas. Ainda assim, haverá alguma esperança para quem ficou de fora poder participar?

CF- Estamos a trabalhar ativamente nessa possibilidade, tanto ao nível da logística como do próprio espaço. Queremos reforçar que não queremos perder a qualidade do evento e, para nós, o bem-estar dos participantes é muito importante. O espaço é muito acolhedor e acreditamos que foi uma escolha muito acertada.

Efetivamente, as vagas desta primeira fase que tínhamos previsto disponibilizar esgotaram bastante cedo em relação à data do evento e, por isso, estamos a analisar ativamente formas de conseguir acomodar mais participantes. O que não gostaríamos mesmo era de ter de dizer às pessoas para não se inscreverem.

De certa forma, o acesso ao Congresso é também essencial — tal como o acesso à própria reabilitação respiratória — e sentimos que é também nossa responsabilidade tentar encontrar soluções.

Apenas por motivos que nos sejam totalmente alheios é que poderá não ser possível aumentar a capacidade.

RX – Este é um bom indicador de que estão criadas condições para que este encontro tenha continuidade, ou pelo menos para que possa repetir-se nos próximos anos, certo?

BC – Assim esperamos. Este é o primeiro evento e esperamos que seja apenas o primeiro passo de um percurso longo. A nossa ambição é que esta se torne uma reunião anual, de excelência, que se mantenha multidisciplinar e com uma forte componente internacional.

Não posso deixar também de destacar o papel de pessoas com quem tivemos o prazer de trabalhar, nomeadamente a Paula Simão e a Paula Almeida, pneumologista e fisiatra, respetivamente. Quando estiveram na Comissão de Trabalho de Reabilitação Respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) já tinham começado a dar alguns passos nesse sentido, tornando real a ideia de reunir diferentes países e promover a troca de experiências, inclusive entre diferentes especialidades. Aquilo que estamos a fazer agora é talvez dar um passo um pouco mais estruturado nesse caminho, criando efetivamente um Congresso propriamente dito, que esperamos que possa ter continuidade no futuro.

RX – Os eventuais lucros provenientes deste evento serão direcionados para a aquisição de equipamento e para o fortalecimento das Unidades de Reabilitação Respiratória. Podem explicar como será feito esse apoio?

BC – Enquanto elementos da Comissão de Trabalho de Reabilitação Respiratória da SPP, ao longo do ano passado e também durante este ano, realizámos um questionário e fizemos um levantamento da realidade dos hospitais que têm programas de reabilitação respiratória: que condições têm, que limitações existem e que barreiras ainda persistem. Dessa forma, conseguimos identificar os hospitais que não têm programas de reabilitação por falta de material.

Um dos nossos objetivos, que consideramos muito nobre, é precisamente utilizar os lucros do Congresso para adquirir os materiais em falta nesses hospitais. Já temos identificados quais são os equipamentos necessários, para que esses programas possam ser criados ou desenvolvidos e, dessa forma muito prática, aumentar a rede de reabilitação respiratória em Portugal. Acreditamos que é um contributo muito concreto e útil, que poderá deixar uma marca — ainda que pequena —, mas que ajudará a ampliar a rede de reabilitação e a apoiar cada vez mais doentes.

Gostaria também de salientar, sem dúvida, o apoio de todos os patrocinadores científicos, bem como das várias sociedades científicas que se juntaram a nós. Não vou enumerá-las todas porque são realmente várias, mas é muito positivo ver este apoio científico ativo por parte de diferentes grupos profissionais que nos ajudaram a projetar o nome deste Congresso.

Quero destacar igualmente todos os patrocinadores, tanto da indústria farmacêutica como da área dos Cuidados Respiratórios Domiciliários, que são um elo fundamental para que este evento aconteça. Sem esse apoio seria muito difícil organizar um Congresso desta dimensão. Esse contributo é importante não só do ponto de vista financeiro e da dinâmica do evento, mas também pela presença física destas entidades, que irão apresentar vários dispositivos, muitos deles bastante inovadores.

CF – Este apoio traduz-se também numa contribuição final que pode ser monetária, mas também na disponibilização de equipamentos. Dependendo do tipo de patrocínio, alguns destes equipamentos poderão ser diretamente cedidos aos centros que estão ainda numa fase inicial de desenvolvimento de programas de reabilitação respiratória.

Ao fazermos isto, estamos também a dar voz à necessidade de aumentar o acesso à reabilitação respiratória, algo que consideramos absolutamente imprescindível para a saúde da população.

Por fim, importa reforçar aquilo que o Bruno também referiu: muito trabalho já foi feito antes de nós. Não estamos a começar do zero nesta área. O Congresso é um marco diferente e estruturante, mas houve muitas pessoas que fizeram um percurso muito exigente ao longo dos anos. A reabilitação respiratória é ainda uma área pouco divulgada dentro da área respiratória, mas existem vários profissionais que têm trabalhado de forma muito dedicada para lhe dar visibilidade.

Alguns nomes já foram mencionados e muitos outros poderiam ser referidos. Há profissionais portugueses que têm destacado a reabilitação respiratória e que têm levado a reputação portuguesa a nível internacional. Por isso, é importante reconhecer e dar os parabéns a todos aqueles que abriram caminho antes de nós e que continuam a dar-nos força para prosseguir e projetar o futuro da reabilitação respiratória.