Microbiota intestinal: a derradeira barreira no que respeita as nossas principais defesas!

Ana Célia Caetano, gastroenterologista em Braga e Presidente do NMD, Núcleo de Neurogastrenterologia e Motilidade Digestiva partilhou, com o Raio-X, um artigo de opinião da sua autoria acerca da microbiota intestinal.

Ao conjunto de microrganismos – incluindo vírus, bactérias, fungos e parasitas – que colonizam o nosso intestino dá-se o nome de microbiota intestinal. Existem triliões de microorganismos que “habitam em nós” e em número de células até nos ultrapassam – existem aproximadamente 1,3 células microbianas por cada 1 célula humana no nosso corpo! Daí também o surgimento de um novo conceito já na década de 90 – o holobionte! Segundo a teoria do ser holobionte, este é definido como a soma do organismo hospedeiro (o ser humano, neste caso) e toda a sua microbiota. Este ser holobionte funciona como uma unidade biológica evolutiva e inseparável, mais capaz de se adaptar ao meio e perpetuar a espécie. Isto significa que os microorganismos são tão importantes que podemos considerá-los como uma parte integrante de nós mesmos.

Esta microbiota tem funções essenciais ao bom funcionamento do nosso corpo –  digestão de determinados nutrientes, defesa contra microorganismos agressivos, via de comunicação indirecta fundamental com o nosso cérebro, etc.. Quando existe um estado de desequilíbrio da microbiota intestinal, dizemos que estamos perante uma situação de disbiose e as funções desempenhadas por uma microbiota saudável ficam comprometidas. Esta disbiose pode ser causada por algo tão comum como utilização frequente e repetida de antibióticos. Vários estudos descrevem uma associação entre disbiose e doenças digestivas (como o “intestino irritável” ou o “fígado gordo”) e mesmo doenças extra-digestivas (obesidade, diabetes, cancro, doença de Parkinson, depressão).

Para tentar manter ou restaurar a saúde da nossa microbiota intestinal, temos algumas ferramentas – desde o exercício moderado – equivalente a 30 minutos diários, à ingestão de 1,5 litros de água por dia e a uma alimentação equilibrada.  Esta alimentação equilibrada deve essencialmente evitar extremos que frequentemente encontramos em “dietas da moda” com consumo proteico excessivo ou eliminação completa de açucares e hidratos de carbono. Existem “bons” açucares e hidratos de carbono e o consumo excessivo de proteínas também pode ser prejudicial. O ideal é a ingestão de alimentos de todos os grupos alimentares de uma forma harmoniosa. Também os prebióticos e probióticos podem combater a disbiose. Probióticos são bactérias saudáveis que habitam o nosso intestino, pré-bióticos são os alimentos que nutrem estas bactérias e promovem o seu crescimento e actividade. Os simbióticos contêm simultaneamente prebióticos e probióticos. Podem estar indicados para o controlo da proliferação de algumas espécies menos saudáveis e aumento das estirpes mais benéficas da nossa microbiota intestinal. Também o transplante fecal poderá vir a ser no futuro uma arma terapêutica para combater a disbiose intestinal em diversas patologias.

A microbiota é hoje reconhecida como sendo um órgão escondido dentro de nós e cujo desequilíbrio pode estar na origem de muitas patologias cada vez mais frequentes. Adotar uma dieta saudável e equilibrada deve ser uma preocupação de todos e deve estar presente no nosso quotidiano. Protegemos assim a microbiota que coloniza o nosso corpo e que tão importante é para o bom funcionamento do nosso intestino e do nosso corpo em geral.


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