Talento em transformação: tendências que redefinem a saúde em 2026
A área da saúde atravessa uma fase de transformações profundas, impulsionadas pela escassez global de profissionais, mudanças demográficas significativas e um ritmo acelerado de inovação tecnológica. Estas tendências estão a redefinir a forma como se presta cuidados e como os profissionais são recrutados e formados, exigindo novas competências e perfis adaptados a este novo cenário. Neste sentido, o Raio-X partilha o artigo de opinião intitulado “Talento em transformação: tendências que tedefinem a saúde em 2026”, escrito por Cátia Monteiro, Senior Consultant de Recrutamento e Seleção Especializado do Clan. No artigo, a autora destaca o papel crucial da digitalização em larga escala e da Inteligência Artificial (IA) como motores desta mudança, que vão para além da simples automação, promovendo a procura de perfis híbridos e multifacetados. Contudo, alerta também para a insuficiente integração das competências digitais nos currículos médicos em Portugal, um desafio que pode comprometer a capacidade do sistema de saúde para inovar e responder às necessidades futuras.
Globalmente, o setor da saúde entrará em 2026 num ponto de viragem histórico. Mais do que antecipar o futuro, é crucial identificar as competências que serão decisivas para navegar num contexto de crescente complexidade.
A escassez de médicos, enfermeiros e técnicos especializados, combinada com a pressão demográfica e o ritmo acelerado da inovação tecnológica, estão a transformar significativamente a forma de cuidar e de trabalhar. Esta mudança é global e, por isso, Portugal não será exceção, continuando a ser essencial identificar desafios que exigem respostas rápidas, estratégicas e sustentáveis.
A mobilidade do talento é uma realidade incontornável. A fuga de profissionais para o estrangeiro e a necessidade de atrair especialistas internacionais tornam-se fatores críticos para preencher lacunas e garantir a competitividade do setor, construindo uma força de trabalho global, diversificada e preparada para enfrentar os desafios do futuro. Neste contexto, importa destacar a recente aprovação, no Parlamento, de um programa que entrará em vigor em 2026 e que tem como objetivo apoiar o regresso de médicos que residem no estrangeiro.
Para além da escassez de profissionais e a nova configuração geográfica do talento, assistimos à transformação das carreiras na saúde, que se afirmarão ainda mais no próximo triénio como menos lineares e mais flexíveis. Cada vez mais os profissionais procurarão combinar a prática clínica com a investigação, gestão ou tecnologia. As instituições que conseguirem corresponder a esta expectativa através da oferta de trajetórias mais adaptáveis, terão maior capacidade de atração e retenção de talento.
Simultaneamente, emerge de forma acelerada, o processo de digitalização da saúde que transformará o setor. De acordo com o Digital Decade Report “a década que agora atravessamos será marcada por uma transição para E-health em larga escala, abrangendo desde a digitalização dos registos clínicos e telemedicina até soluções avançadas de interoperabilidade, data analytics e inteligência artificial aplicada à prática clínica”. Isto exige profissionais de saúde mais fluentes tecnologicamente e equipas multidisciplinares capazes de integrar tecnologia em benefício do doente.
Contudo, de acordo com o Barómetro de Inovação Clínica 2025, “a inovação na saúde enfrenta dois grandes obstáculos em Portugal: a limitada autonomia dos Centros de Investigação Clínica (CIC) e a insuficiente integração de competências digitais nos currículos das faculdades de medicina”. É emergente que este desfasamento acentuado entre a prioridade atribuída e a perceção dos estudantes e professores sobre a preparação digital dos futuros médicos seja ultrapassada em 2026.
O próximo ano aponta também para um perfil cada vez mais híbrido e flexível. Profissionais como data scientists clínicos, especialistas em interoperabilidade, engenheiros biomédicos digitais e especialistas em inteligência artificial (IA) aplicada a diagnóstico e imaging são cada vez mais procurados. Ao mesmo tempo, áreas científicas e regulatórias, como biotecnologia, farmacêutica, medical devices, veterinária e funções de Regulatory Affairs e pesquisa clínica enfrentam uma escassez crítica, criando oportunidades em nichos de rápido crescimento, como a saúde animal.
É ainda inevitável a referência ao lugar que a IA ocupará no futuro. Não irá certamente substituir médicos ou enfermeiros, mas vai redefinir profundamente o seu papel. Algoritmos de diagnóstico, triagem digital, análise de risco ou apoio à decisão clínica libertam tempo para o trabalho verdadeiramente humano e crítico. Em 2026, o profissional de saúde terá de saber trabalhar lado a lado com sistemas inteligentes, interpretando e gerindo a informação que estes produzem. A IA deverá, assim, ser encarada como um multiplicador de talento e não como substituto.
Em perspetiva, 2026 será um ano decisivo para o talento na área da saúde, num cenário em que escassez de profissionais, transformação digital, novas exigências de competências e mobilidade internacional se avizinham como principais desafios do setor. As organizações que souberem antecipar estas tendências, através do investimento na formação contínua, na atração e retenção de talento, em modelos de trabalho mais humanos e na integração inteligente da tecnologia, com certeza estarão melhor preparadas para garantir cuidados de excelência e responder a um futuro cada vez mais complexo.