11 de fevereiro: Dia Mundial do Doente | O cuidado para além do tratamento
A propósito do Dia Mundial do Doente, que se celebra a 11 de fevereiro, partilhamos uma reflexão essencial de Leonor Pedro, Diretora Executiva da Pedalar Sem Idade Portugal. O projeto solidário, que combate a solidão e o isolamento de seniores e pessoas com mobilidade reduzida ou doenças físicas e psicológicas, alerta para o que ainda falta fazer pelos doentes em Portugal.
Os cuidados de saúde em Portugal têm vindo a evoluir exponencialmente nas últimas décadas, com o acesso a tratamento mais facilitado, a inovação crescente e os profissionais cada vez mais qualificados. Contudo, os desafios estruturais persistem, deixando muitas pessoas à margem da sociedade e de uma vida com dignidade, autonomia e bem-estar.
De acordo com o relatório “Estado da Saúde na UE: Portugal – Perfil de saúde do país 2021”, apenas metade dos portugueses afirmam estar de boa saúde, o que reflete as fragilidades do setor, apesar do papel fundamental do Serviço Nacional de Saúde (SNS) enquanto pilar de inclusão e de acesso universal aos cuidados. Ainda assim, a influência dos rendimentos mantém-se notória, com 63% das pessoas do quintil mais elevado a sentir-se saudáveis, face a 38% do quintil mais baixo, demonstrando que, mesmo com um sistema assente na equidade, as condições sociais e económicas continuam a ser determinantes na saúde.
Mas a prevenção de doenças e o seu tratamento podem ir muito além de medicamentos, exigindo hábitos saudáveis a nível físico e emocional. Evitar o abandono, a solidão e o isolamento social, mantendo uma vida social ativa, é imprescindível para garantir o bem-estar, tornando urgente a implementação de medidas que promovam a inclusão e as condições de mobilidade e de participação na comunidade.
A doença não se reflete apenas em sintomas físicos, mas na perda de rotinas, de contactos, de projetos, de movimento e, progressivamente, de um lugar na sociedade. A falta de atividades adaptadas e de espaços de convivência agrava sentimentos de solidão e de inutilidade, fatores que prejudicam gravemente a saúde.
Outro valor preocupante, presente no mesmo relatório, é o da reduzida taxa de atividade física em adultos e adolescentes, uma das mais baixas da Europa. Num país tão envelhecido como Portugal, esta realidade traduz-se em maior dependência, mais gastos em saúde e menor qualidade de vida da população. Promover o contacto com a natureza, os passeios ao ar livre e a participação social não é apenas um complemento, é parte integrante do processo de prevenção e tratamento de doenças.
As mudanças estruturais fazem, por isso, toda a diferença. São necessárias abordagens integradas que articulem centros de saúde, hospitais, autarquias, organizações sociais e a comunidade em geral. A saúde não se esgota na prescrição médica nem termina ao longo do processo de envelhecimento. Ser saudável implica reconhecer que as limitações físicas ou psicológicas não podem ser sinónimo de sedentarismo.
Os sistemas de saúde não se constroem apenas com enfermeiros, médicos e auxiliares, mas com uma sociedade inclusiva e comunidades atentas e ativas. Cuidar dos doentes é garantir tratamentos, mas é também dar voz, oportunidades e participação a quem mais precisa. A exclusão não é, nem nunca será, o caminho certo para o bem-estar.