A psoríase afeta negativamente a qualidade de vida dos doentes

A psoríase é uma doença inflamatória crónica que se estima que afete cerca de 250.000 a 300.000 portugueses (1 a 3% da população portuguesa). É atualmente considerada uma doença sistémica, associada a múltiplas comorbilidades, incluindo cardiovasculares (obesidade, diabetes, hipertensão arterial e doença cardiovascular), articulares (artrite psoriática) e psicológicas (depressão e ansiedade). Filipa Rocha Páris, dermatologista do Hospital Santo António dos Capuchos, explica que esta doença “pode levar à incapacidade física marcada quando existe envolvimento articular”.

Raio-X (RX) – Como é que se manifesta a psoríase?

Filipa Rocha Páris (FRP) – Manifesta-se na sua forma mais comum por placas simétricas eritemato-descamativas com escama prateada, que podem ocorrer em qualquer localização, mas envolvem mais frequentemente as superfícies extensoras dos membros superiores e inferiores (cotovelos e joelhos) e o couro cabeludo. Existem várias variantes clínicas que incluem a psoríase pustular, gutata, inversa e eritrodérmica. Pode afetar as unhas (psoríase ungueal) e as articulações (psoríase artropática).

RX – Como se faz o diagnóstico da psoríase?

FRP – O diagnóstico de psoríase é clínico. Em caso de dúvida, deve ser realizada biópsia cutânea.

RX – Qual é o impacto que a psoríase tem na vida dos doentes?

FRP – Sendo uma doença crónica, que alterna períodos de melhoria e de agravamento, tem um grande impacto na vida dos doentes, afetando negativamente a sua qualidade de vida. Por um lado, os doentes despendem muito dinheiro em consultas e nos tratamentos, e podem ter um elevado absentismo escolar ou laboral. Por outro lado, ao afetar áreas do corpo visíveis como a face ou as mãos, pode ter um grande impacto psicossocial. Pode ainda levar a incapacidade física marcada quando existe envolvimento articular. Existem escalas que permitem avaliar e monitorizar a qualidade de vida dos doentes (DLQI – Dermatology Life Quality Index).

RX – Quais são as comorbilidades da psoríase?

FRP – A psoríase associa-se a várias comorbilidades como doença cardiovascular, obesidade, hipertensão, diabetes e depressão.

RX – Quais são os fatores que agravam a psoríase?

FRP – O stress físico e psicológico são os principais fatores de agravamento da psoríase. No entanto outros fatores podem agravar a psoríase como o tempo frio, alguns medicamentos (antimaláricos, betabloqueantes e lítio, entre outros) e infeções.

RX – Como é que se trata a psoríase?

FRP – O tratamento da psoríase depende da gravidade e da extensão da psoríase. Existe um certo número de medidas gerais, comuns a todos os doentes com psoríase, como o uso diário de emolientes e queratolíticos.

Na psoríase ligeira, podem ser usados apenas tratamentos tópicos (corticoides, análogos da vitamina D, inibidores da calcineurina ou associações de corticoides e análogos da vitamina D) ou fototerapia (UVB ou PUVA).

Na psoríase moderada a grave, para além dos tratamentos tópicos e da fototerapia, pode-se recorrer ao uso de tratamento sistémico com acitretina, metotrexato ou ciclosporina.

Na psoríase grave, ou com forte impacto na qualidade de vida dos doentes utilizam-se terapêuticas biotecnológicas (anti-TNF, inibidores da IL12/23, inibidores da IL 17 ou inibidores da IL 23).

RX – Como é que se pode prevenir?

FRP – Sendo uma doença com uma forte componente genética, a psoríase não se pode evitar. Podem, no entanto, prevenir-se as crises, recorrendo ao uso diário de cremes e géis de banho emolientes, evitando ou minimizando as situações de stress físico e psicológico, e evitando a toma de medicamentos que agravam a psoríase como os referidos anteriormente.

RX – A psoríase tem cura?

FRP – A psoríase gutata pode ser autolimitada, estimando-se, no entanto, que 1 a 2 terços dos doentes possam desenvolver psoríase em placas. A psoríase em placas é uma doença crónica, que não tem cura. Pode assistir-se a períodos de remissão da doença que podem ser variáveis, podendo durar várias décadas.

As terapêuticas atuais (terapêuticas biotecnológicas) podem manter os doentes sem lesões durante vários meses ou anos.

RX – Qual o estado da atualidade terapêutica no que diz respeito à psoríase?

FRP – Como já foi abordado anteriormente, a terapêutica da psoríase depende do tipo de psoríase, da sua localização e da sua gravidade e impacto na qualidade de vida dos doentes.

Nas últimas décadas, tem-se assistido a um grande avanço na terapêutica da psoríase, com a descoberta de agentes biotecnológicos que bloqueiam especificamente citoquinas inflamatórias importantes na patogénese da psoríase. Existem atualmente várias classes de medicamentos biotecnológicos usados na psoríase e aprovados em Portugal:

  • anti-TNF: Infliximab, Etanercept, Adalimumab
  • anti-IL12/23: Ustekinumab
  • anti-IL 17: Ixekizumab, Secukizumab, Brodalumab
  • anti-IL 23: Guselkumab, Risankizumab

RX – Qual a importância da adesão à terapêutica?

FRP – A adesão à terapêutica é muito importante na psoríase, como em todas as doenças crónicas. Permite por um lado prevenir as crises, melhorando a qualidade de vida do doente, assim como evitar a progressão da destruição articular (e a consequente deformidade irreversível) na psoríase artropática.

RX – O que diria aos seus doentes que não são acompanhados há vários anos?

FRP – Nas últimas décadas os conhecimentos sobre a patogénese da psoríase evoluíram muito, levando à descoberta de muitas novas moléculas e terapêuticas para a psoríase. Estas novas terapêuticas melhoram significativamente a qualidade de vida dos doentes com psoríase.

Abreviaturas:
UVB – Radiação ultravioleta B;
PUVA – Psoraleno e radiação ultravioleta B;
TNF– Factor de necrose tumoral
IL – Interleucina.

 

Por Rita Rodrigues


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