A realidade da malnutrição no nosso país

Entre 4 e 8 de outubro comemora-se a Semana da Malnutrição, uma iniciativa mundial com o objetivo de alertar para o diagnóstico precoce e tratamento da malnutrição associado à doença. Paula Ravasco, médica especialista em imuno-hemoterapia e nutrição clínica, investigadora e professora universitária, partilhou com o Raio-X um artigo de sua autoria sobre o tema.

Durante anos as políticas em saúde integraram diversas medidas educativas para prevenir a obesidade e o seu impacto. Ao mesmo tempo, continua a ignorar-se de forma sistemática o impacto da outra forma de malnutrição.

A malnutrição associada à doença, definida como desnutrição, é o resultado da falta de ingestão ou absorção de nutrientes, que leva à redução de peso, massa muscular, massa celular corporal, funções motora e cognitiva e franco comprometimento da evolução clínica em todas as doenças crónicas. Estes factos são amplamente suportados por extensa e robusta evidência científica, que mostra que a malnutrição aumenta o risco de complicações clínicas, readmissões hospitalares, tempo de internamento, taxa de mortalidade global e reduz drasticamente a Qualidade de Vida.

Em toda a União Europeia, um acréscimo significativo dos gastos em saúde deve-se justamente à malnutrição, onde se estima que 1 de 4 adultos hospitalizados estejam em risco de malnutrição. Em Portugal, o rastreio da malnutrição não se encontra incluído nos cuidados de saúde padrão, não permitindo o seu adequado diagnóstico; dados recentes mostram que a malnutrição aumenta em 20% os custos de hospitalização, representando um aumento de 200 a 1500€ por doente.

Adicionalmente, os doentes identificados como malnutridos nos nossos hospitais e/ou comunidade não têm acesso a tratamentos nutricionais adequados para a gestão da malnutrição. Ainda mais surpreendente é verificar que para estes doentes permanece a falta de apoio ou comparticipação na aquisição da nutrição clínica (suplementos nutricionais orais, nutrição entérica por sonda e nutrição parentérica), indispensável no adequado tratamento de doenças de base, na sua Qualidade de Vida e muitas vezes para a sua sobrevivência.

A ausência de orientações terapêuticas claras e de suporte legal para a nutrição clínica no domicílio leva a uma situação absolutamente arcaica em Portugal, totalmente distinta da maioria dos países europeus, onde os doentes com risco nutricional ou malnutridos têm há anos, ou mesmo décadas, acesso a terapêutica nutricional comparticipada pelos seus sistemas de saúde.

A 25 de setembro de 2020, a publicação da norma da DGS “Implementação da Nutrição Entérica e Parentérica no Ambulatório e Domicílio em Idade Adulta” poderia ter sido a alavanca para a regulamentação efetiva na definição da acessibilidade da nutrição clínica no nosso país. Contudo, volvido um ano desta publicação, equipas hospitalares e algoritmos de alta hospitalar para doentes com necessidade de suplementos nutricionais orais, nutrição entérica por sonda ou nutrição parentérica, continuam por definir e implementar.

Consciente de que já não é suficiente esclarecer ou alertar para a importância da malnutrição, resta-me continuar a lutar e insistir para que, aquela que é a necessidade mais básica de todas, assim seja finalmente reconhecida pelas entidades decisoras, para todos os doentes que diariamente precisam.


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