COVID-19 e esclerose múltipla

Lívia Sousa, neurologista no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, partilhou com o Raio-X a sua reflexão sobre a relação entre a COVID-19 e a esclerose múltipla.

“Os profissionais de saúde que tratam pessoas com esclerose múltipla (EM) depararam-se nas últimas semanas com novos desafios, já que os medicamentos destinados ao tratamento da doença atuam no sistema imunitário e, como tal, podem interferir na resposta do organismo à infeção COVID-19. Voltou-se a olhar para a forma como os medicamentos aprovados para a EM atuam e rapidamente se tornou consensual que os medicamentos injetáveis de primeira linha, Interferões e acetato de glatirâmero  podem ser usados sem reservas, pois não deprimem o sistema imune.

Já sem a mesma unanimidade, muitos neurologistas concordam que a teriflunomida pode usada porque é principalmente imunomoduladora e poderá ter efeito antivírico, como demonstrado no HTLV vírus da paraparesia espástica tropical.

O fumarato de dimetilo poderá continuar a ser usado nos doentes que já o estão a tomar acautelando a contagem de linfócitos desejável acima de 800.

O natalizumab anticorpo monoclonal, de elevada eficácia de uso endovenoso (EV) mensal, pode continuar a ser administrado, mas recomenda-se um maior espaçamento das tomas para 6-6 semanas após os primeiros 6 meses de tratamento.

O fingolimod atua na EM por sequestração de linfócitos nos gânglios, originando uma baixa na sua contagem a nível do sangue periférico. A suspensão súbita do medicamento pode dar origem a um agravamento acentuado da doença EM, pelo que a recomendação é de vigilância, eventualmente um ajuste das doses semanais de acordo com a contagem linfocitária e medidas de prevenção e isolamento do doente.

A cladribina é um fármaco imunossupressor oral, utilizado em 2 ciclos de 5 dias por mês repetido ao fim de 1 ano e tem como principal efeito adverso a possibilidade de produzir linfopenia. O médico que trata o doente deverá ter isso em consideração adiando a sua introdução ou espaçando a intervalo para o 2.º ano de tratamento.

O ocrelizumab é um anticorpo monoclonal (anti-cd-20) que, como o rituximab,  produz depleção dos linfócitos B circulantes mas poupa os linfócitos T, pelo que preserva parcialmente a resposta imune aos vírus. Como é administrado 6-6  meses por via EV tem sido proposto como precaução um adiamento  ou espaçamento entre as tomas.

O alemtuzumab é um anticorpo monoclonal muito potente que faz uma depleção de células B e T, utilizado em formas muito agressivas de EM. É administrado em 2 ciclos EV de 5 dias no 1.º ano e de 3 dias no 2.º ano. Neste caso os receios são mais acentuados pelo que se recomenda ponderação dos benefícios /riscos, adiando quando possível a toma.

Nesta altura ainda não há muita experiência mundial sobre os riscos reais das pessoas com EM face à COVID-19, no entanto, não parece ser superior à população geral. Começam a emergir alguns dados da Itália que sugerem que as mortes também nesta população estão relacionadas com a idade, a incapacidade e outras doenças prévias.”

 

 

 

 

 


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