Dia Nacional da Doação de Órgãos e da Transplantação

A propósito do Dia Nacional da Doação de Órgãos e da Transplantação, 20 de julho, Susana Sampaio, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Transplantação, partilhou um artigo em que fala sobre a relevância de assinalar esta data, mesmo em tempos de pandemia.

No dia 20 de Julho de 1969 nos então denominados Hospitais Universitários de Coimbra teve início aquela que seria uma das atividades de maior sucesso da medicina portuguesa. Nessa data, o Senhor Professor Linhares Furtado e sua equipa realizou o primeiro transplante em Portugal, neste caso um transplante renal de dador vivo.

Anos mais tarde e ao longo do tempo, seguiu-se o transplante renal de dador falecido, de fígado, coração, pâncreas, intestino, pulmão, a criação do Programa Nacional de Doação Cruzada Renal e a integração de Portugal no Programa de Doação Cruzada Renal Internacional. Enfim, Portugal tem o privilégio de poder realizar com sucesso, os diferentes tipos de transplante e os portugueses devem orgulhar-se disso.

O Dia do Transplante celebrado a 20 de Julho, pela Sociedade Portuguesa de Transplantação (SPT) desde 2009, pretendeu desde o primeiro dia homenagear os profissionais de saúde, todos os intervenientes que constituem elos importantes na transplantação, como a Força Aérea, a Guarda Nacional Republicana entre outros, os dadores portugueses e os doentes transplantados, promovendo também o convívio entre familiares e amigos.

Por todos estes motivos, foi com muita satisfação que vimos ser aprovada a institucionalização deste dia, em 2019, através do Despacho nº 5975/2019. Para além das comemorações inerentes, nomeadamente, as de homenagear todos os intervenientes na Transplantação, a institucionalização do Dia Nacional da Doação de Órgãos e da Transplantação, permite também chamar a atenção da população geral para a problemática da transplantação e da doação, alertando para o bem que é a generosidade da doação, quer em vida, quer nos momentos de luto, salvando vidas e melhorando a qualidade de vida de muitos doentes. Efetivamente, receber um transplante é receber um presente de vida e de esperança, permitindo uma maior contribuição do recetor, quer a nível familiar, quer do seu papel na sociedade, nomeadamente através da possibilidade de uma vida profissional ativa.

Este ano, tão diferente pelos tempos de pandemia que vivemos, não poderemos estar de forma presencial juntos nesta celebração, mas também não podemos deixar de assinalar este Dia Nacional da Doação de Órgãos e da Transplantação.

Nos tempos que conhecemos, nunca a sociedade nem a medicina assistiram a uma época como esta. A emergência de uma infeção por um vírus altamente contagioso e de fácil propagação, invadiu as nossas vidas ao minuto.

Nenhum serviço de saúde está preparado para uma situação destas e por isso foi importante tomar medidas precoces aprendendo com os países que sofreram primeiro as consequências desta pandemia. Foi premente e acertada as orientações da DGS e IPST e completamente subscritas pela SPT, aliás indo de encontro aos pareceres de Sociedades Científicas Internacionais, de suspender a atividade eletiva e prosseguir apenas com os transplantes urgentes ou emergentes. Estas medidas surgiram da necessidade de direcionar a assistência a doentes COVID e de reduzir os riscos de transmissão de infeção.

Nunca é demais referir que Portugal possui Unidades de Referência de excelência e mantém-se na primeira linha da doação e transplantação, pelo que foi notável o esforço de implementação de medidas de modo a reduzir os riscos de infeção e de manter a assistência a estes doentes.

No contexto atual ainda é difícil avaliar os danos produzidos nos doentes que tiveram ou que ainda presentemente têm, a infelicidade de ser acometidos por eventos de saúde agudos ou que sejam portadores de doenças crónicas como os doentes transplantados ou à espera de transplante.

Futuramente teremos a oportunidade de efetuar a análise desta época e das medidas adotadas, sem o espírito de criticar por criticar, mas com a mente aberta para aprender e retirar lições para situações futuras. A transferência das atenções para os doentes com infeção COVID-19 tiveram como natural consequência, a diminuição de sinalização de potenciais dadores e do número de transplantes realizados.

Neste momento, com a situação mais controlada e continuando a não levantar “as defesas” porque o vírus continua entre nós, é relevante chamar a atenção e relembrar a importância de retomar a atividade da transplantação e não só a considerada urgente, cumprindo com todos os procedimentos que visam o controlo da transmissão da infeção.

Os profissionais de saúde e a população portuguesa que tão bem souberam responder na primeira fase vão com certeza conseguir também ultrapassar e regressar à normalidade possível.

Vamos continuar a assinalar este dia, num ano diferente, sejamos diferentes e celebremos de formas diferentes.


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