Mais de três décadas a comprovar o potencial terapêutico das células estaminais

Luis Madero, responsável pelo departamento de Onco-hematologia no Hospital Infantil Universitário Niño Jesús e no Hospital Universitário Quirón Pozuelo, em Madrid, partilha com o Raio-X uma reflexão sobre o presente e o futuro das terapias com células estaminais.

As células estaminais, também conhecidas por células “mãe” são células com uma enorme versatilidade e com duas características que as diferenciam das restantes células do nosso corpo: têm capacidade de se autorrenovar indefinidamente e a capacidade de se diferenciarem em múltiplas linhagens celulares.

Estas duas características fazem com que estas células sejam utilizadas no tratamento de mais de 80 doenças, atuando a nível da reparação dos tecidos e consequentemente no tratamento de doenças decorrentes de disfunção celular. São os casos das doenças hemato-oncológicas e doenças do âmbito da medicina regenerativa.

O sangue do cordão umbilical contém células hematopoiéticas, que se diferenciam em células de linhagem sanguínea, têm sido colocadas pelas pesquisas atuais como elementos de grande importância em terapias hematológicas e oncológicas, tais como leucemias, linfomas e anemias.

A minha experiência nesta área do transplante hematopoiético começou há muitos anos, por volta de 1985 quando fiz pela primeira vez um transplante autólogo tendo como fonte as células da medula óssea. Desde essa altura, até 2020 já realizei mais de 1200 transplantes de células hematopoiéticas dos quais 15% têm sido através da utilização de células estaminais do sangue do cordão umbilical, uma solução que começámos a desenvolver no início do século XXI.

A experiência que o grupo de investigadores que trabalha comigo tem conseguido desenvolver na área do transplante hematopoiético é muito ampla e temos realizado diferentes tipos de transplantes, tais como:

  • Autólogo com células do próprio doente;
  • Alogénico, principalmente entre irmãos;
  • Haploidêntico, esta tem sido uma solução utilizada nos últimos anos, recorrendo a um dador familiar que seja parcialmente idêntico ao doente.

Já realizámos mais de 150 transplantes de sangue do cordão umbilical, o que nos permite comprovar que são procedimentos seguros. Nomeadamente no caso das crianças que precisem de recorrer à utilização de células estaminais para tratamentos, podem utilizar as células do sangue do cordão, tornando desnecessário recorrer por exemplo às células estaminais da medula óssea. Tal facto tem-nos permitido conhecer os diversos benefícios de criopreservação do sangue do cordão umbilical, nomeadamente:

  • Sabemos que é completamente indolor para a mãe e para o bebé;
  • Podemos localizar a fonte mais rapidamente;
  • Permite tratar o doente mesmo quando tem uma idade jovem, como é o caso das crianças;
  • Podem realizar-se em situações semelhantes ao de qualquer outra fonte de células estaminais;

Importa também ressalvar que já se realizaram em todo o mundo mais de 40 mil transplantes de sangue do cordão umbilical, com indicação para o tratamento de mais de 80 doenças e que apesar de já sabermos muito sobre esta área, ainda existe uma parte muito importante por conhecer. Este desconhecimento está ligado essencialmente à utilização das células mesenquimais do sangue do cordão umbilical ou às células mesenquimais de outras fontes (como é o caso da medula óssea) como uma solução, através de um procedimento que chamamos de terapia avançada ou terapia celular, que pode ser a única hipótese para alguns doentes que já não tinham mais esperanças a nível terapêutico.

Temos sido pioneiros na utilização de células mesenquimais para o tratamento de doenças oncológicas, nomeadamente em crianças que tenham tumores sólidos recorrentes ou refratários, uma prática que já começámos desde 2005 e temos vindo a consolidar com a realização de ensaios clínicos. Neste momento estamos a realizar um ensaio clínico em crianças com tumores cerebrais refratários ou recorrentes, através do tratamento de células mesenquimais translucidas com a utilização de um vírus oncolítico.

Também temos utilizado a terapia celular com células mesenquimais do cordão umbilical, ou da medula óssea, noutras doenças oncológicas autoimunes, em crianças que tenham paralisia cerebral e em vários doentes que estejam infetados pelo novo coronavírus. No entanto, os tratamentos de terapia celular que temos feito através das células mesenquimais para a Covid-19 ainda não são extrapoláveis para o resto da população, uma vez que os doentes que temos tratado estão numa situação de saúde já muito crítica e da qual é muito difícil podermos tirar conclusões de que sejam seguras para outros doentes. Ainda assim o balanço é positivo, pois apesar de não ter sido possível utilizar esta terapia como algo massivo no tratamento da Covid-19, como naturalmente uma vacina possibilita, têm sido feitos avanços consideráveis nos últimos anos no potencial destas terapêuticas.

E estas últimas descobertas científicas sublinham a principal certeza de que 30 anos de experiência nos trazem: criopreservar o sangue do cordão umbilical, em bancos públicos ou privados, é fundamental.


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