“As características das doenças respiratórias tornam o diagnóstico precoce sempre difícil” afirma Venceslau Hespanhol

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Com o objetivo de assinalar a efeméride do Dia Mundial do Pulmão, o Raio-X entrevistou Venceslau Hespanhol, Presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia que apela a “uma maior consciencialização individual sobre os riscos pessoais e coletivos” que conduzem às doenças respiratórias.

VHRaio-X (RX) – Ao longo das décadas passadas, tem sido crescente o peso que as doenças respiratórias representam em termos de mortalidade e morbilidade. Que fatores estão na origem deste fenómeno?

Venceslau Hespanhol (VH) – As doenças respiratórias foram sempre reconhecidas como uma das causas mais importantes de morbilidade e mortalidade. São exemplos a tuberculose e as pneumonias. A tuberculose constituiu nos séculos XVIII, XIX e XX uma terrível ameaça, as pneumonias sempre foram consideradas doenças agudas altamente letais. Com o desenvolvimento social, científico, o acesso das pessoas ao conhecimento, a melhores condições de vida (habitação, alimentares, higiene) e o advento dos antibióticos, ficou a esperança que muito se alteraria e que essas doenças poderiam ser erradicadas. Porém, embora no que respeita à tuberculose, muito ligada à evolução social e às condições de vida, tem-se vindo a verificar uma redução progressiva da incidência; relativamente às pneumonias, o resultado foi diferente. As pneumonias têm mantido elevada taxa de mortalidade apesar dos meios disponíveis e Portugal é um dos países onde isso é mais relevante. Porém, paradoxalmente, entre as doenças respiratórias letais, a pneumonia é das que tem menos impacto nos anos de vida útil perdidos pelo facto da esmagadora dos casos letais ocorrerem em idades avançadas, em pessoas em situações de especial fragilidade. Por este motivo, em muitos casos, questiona-se o seu papel como verdadeira causa de morte, podendo a pneumonia ser considerada como evento terminal de um processo crónico anterior, esse sim, a causa da morte. A mortalidade associada à perda de anos de vida útil, antes muito ligada às infeções pulmonares agudas é agora liderada pelo cancro do pulmão – o principal motivo de perda de anos de vida útil em Portugal.

RX – A pneumonia é, em Portugal, a principal causa de morte por doença respiratória. É possível minimizar o peso desta doença?

VH – Na sequência da resposta anterior, trata-se de uma tarefa difícil pois, na maior parte dos casos letais, a pneumonia implanta-se em situações crónicas com uma evolução longa e sem possibilidade de resolução. Uma das formas mais óbvias de minimizar o impacto desta mortalidade será promovendo ações no sentido de aumentar a esperança de vida sem doença. No que respeita a este parâmetro, verifica-se que ainda não foi possível atingir os valores de outros países desenvolvidos (relatório anual da OECD, European Union), ao invés do que já foi alcançado com a esperança média de vida ao nascer, em que isso foi plenamente atingido.

RX – O tabaco e a poluição são apontados como causas principais das doenças respiratórias (sobretudo as obstrutivas e o cancro do pulmão), que medidas têm sido tomadas para melhorar o controlo do tabagismo e a qualidade do ar?

VH – Embora muitas tenham sido as medidas inscritas em leis e normativas, o êxito das políticas só poderá existir se houver o comprometimento de todos. Aqui entram não as leis, mas sim, o conhecimento sobre o efeito nefasto que a exposição inalatória a agentes potencialmente perigosos pode determinar. A consciencialização individual sobre os riscos pessoais e coletivos poderá progressivamente ser o elemento que falta para que tudo possa melhorar.

RX – Porquê assinalar um Dia Mundial do Pulmão?

VH – O argumento prende-se com a resposta anterior. Consciencialização dos riscos através do conhecimento. As ações normalmente desenvolvidas nestes eventos têm como objetivo disponibilizar conhecimento e chamar a atenção para os riscos.

RX – Qual a mensagem que a SPP gostaria de transmitir neste dia?

VH – Necessidade de reconhecer importância do aparelho respiratório na preservação da saúde e a sua suscetibilidade às exposições inalatórias ambientais.  As características das doenças respiratórias tornam o diagnóstico precoce sempre difícil. Por este motivo, salientar a importância da prevenção primária das doenças respiratórias controlando os fatores de risco.

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