“A minha mensagem para os doentes com Hidradenite Supurativa é de esperança” frisa Pedro Bastos

Pedro Mendes Bastos 2 (2)

A Hidradenite Supurativa trata-se de uma patologia da pele, crónica, dolorosa, debilitante, caraterizada pelo surgimento de foliculites, nódulos, fístulas ou úlceras nas axilas, virilhas, nádegas, mamas ou na área genital. Esta doença tem um impacto marcado na qualidade de vida dos doentes. Segundo Pedro Mendes Bastos, “estima-se que afete 1% da população”, em declarações ao Raio-X, o médico especialista em Dermatologia e Venereologia do Hospital CUF Descobertas, afirmou que “em Portugal, existem pelo menos 100.000 pessoas com Hidradenite Supurativa”.

Raio-X (RX) – Como se manifesta a hidradenite supurativa?

Pedro Mendes Bastos (PMB) – A doença segue um curso ondulante de crises intervaladas por períodos de acalmia. As crises cursam com dor, inflamação e até eliminação de pus nas referidas áreas da pele. Se a doença não for adequadamente tratada, podem originar-se cicatrizes desfigurantes.

RX – A hidradenite supurativa é contagiosa?

PMB – A origem da HS não está ainda esclarecida mas parece resultar de uma desregulação do sistema imunitário. Não é uma verdadeira infeção nem está relacionada com falta de higiene, não sendo, portanto, contagiosa.

RX – Quais são os principais critérios de diagnóstico?

PMB – O diagnóstico é clínico – não são habitualmente necessários exames laboratoriais, de imagem ou outros para estabelecer o diagnóstico. Assenta em 3 pontos essenciais: lesões cutâneas típicas, envolvimento das áreas anatómicas típicas e evolução crónico-recidivante ao longo do tempo.

RX – Qual é a atitude clínica recomendada após o diagnóstico desta patologia?

PMB – A história habitual nestes pacientes passa por terem consultado vários médicos e recorrido aos serviços de urgência aquando das crises, recebendo apenas tratamentos temporários, durante vários anos. O conhecimento da HS pelos profissionais de saúde é ainda escasso: muitas vezes é referido que “são apenas quistos” ou “pelos encravados”, desvalorizando as queixas de dor, supuração (saída de pus/sangue pelas lesões cutâneas) e o caráter crónico desta doença. O médico especialista em Medicina Geral e Familiar é o elemento chave do sistema de saúde em Portugal, sendo frequentemente o primeiro médico que poderá diagnosticar HS. Após o diagnóstico, cada paciente deverá ser corretamente avaliado e instituído tratamento adequado. Se não se verificar melhoria sustentada, a referenciação atempada a um médico dermatologista dedicado ao tratamento da HS deve ser o próximo passo para o controlo e tratamento adequado desta doença, no curto e no longo prazo.

RX – Quais são os fatores de risco deste tipo de patologia?

PMB – A HS é mais frequente em pacientes obesos e fumadores. Pode existir história familiar de HS. A utilização de vestuário demasiado justo e fricção pode também facilitar o surgimento das lesões.

RX – Qual é a faixa etária mais atingida?

PMB – A HS é mais frequente entre os 20 e 50 anos, podendo também iniciar-se na adolescência. Afecta tanto homens como mulheres, embora seja duas vezes mais frequente no sexo feminino.

RX – De que forma é que o diagnóstico desta patologia condiciona a vida do doente? Quais são as complicações?

PMB – O trabalho, a prática de desporto e a atividade sexual estão dificultados em doentes com HS, devido à dor e à eliminação de pus. A vergonha e o isolamento social são frequentes, devido ao grande impacto psicológico e na qualidade de vida que esta doença acarreta. Para além das questões da esfera sócio-profissional e psicológica, um diagnóstico tardio dificulta o tratamento pois já terá existido inflamação de longa duração na pele, condicionando cicatrizes, com consequências estéticas e muitas vezes funcionais de grande relevância.

RX – Quais são as comorbilidades associadas?

PMB – Muita investigação tem sido desenvolvida nesta área, sendo identificadas como comorbilidades da HS várias patologias do foro cardiovascular (síndrome metabólica, diabetes mellitus II, obesidade), imuno-mediado (espondilartrites, doença de Crohn) e psicológico (como depressão ou ansiedade).

RX – Quais são os tratamentos disponíveis para a hidradenite supurativa?

PMB – O tratamento da HS deve ser altamente individualizado e de acordo com as particularidades de cada paciente e com o tipo de lesões prevalente em cada momento. As soluções terapêuticas para a fase inicial da doença serão diferentes das necessárias para uma HS mais avançada e selecionar o melhor tratamento para cada doente em cada momento é um verdadeiro desafio.O tratamento pode incluir medicamentos tópicos, orais ou mesmo injetáveis. Muitas vezes a cirurgia dermatológica clássica, laserterapia ou electrocirurgia também são necessários. O grande avanço que se verificou recentemente foi a aprovação do primeiro medicamento biotecnológico para o tratamento da HS, o adalimumab, medicamento que tem melhorado a qualidade de vida a muitos doentes.A abordagem do dermatologista ao tratar a HS deve ser holística: controlar todos os componentes da doença física na pele, bem como gerir as repercussões psicológicas e promover a saúde global do paciente ao longo do tempo. Com todo o interesse atual nesta doença e os desenvolvimentos terapêuticos a que temos assistido, a minha mensagem para os doentes com HS é seguramente de esperança no presente e no futuro.

Por Rita Rodrigues