Técnica minimamente invasiva para tratamento dos quistos de Tarlov

Dr MiguelCordeiro

Dr. Miguel Cordeiro, Neurorradiologista do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa

miguel.cordeiro@hcvp.com.pt

O seu diagnóstico é por vezes desvalorizado. São uma das múltiplas  causas para a dor de costas. Na maioria dos casos não se detectam factores de risco associados, embora em casos raros possam estar associados a doenças do tecido conjuntivo como síndrome de Marfan, de Ehlers-Danlos, de Sjögren ou de Loeys-Dietz.

Falamos dos quistos de Tarlov, dilatações que se formam na raiz dorsal dos nervos espinhais que saem da coluna. Esta dilatação das bainhas radiculares foi descria pela primeira vez por Isadore M. Tarlov, em 1938, no contexto de um estudo sobre o filo terminal (final da espinal medula) em autópsias.

O nosso cérebro e espinal medula estão rodeados pelo líquido cefalorraquidiano, que tem como uma das funções proteger o sistema nervoso central, evitando atrito e choques. Os quistos perineurais de Tarlov resultam da acumulação do líquido cefalorraquidiano na bainha do nervo. Com o aumento de volume, o quisto pode remodelar o osso criando uma depressão óssea mais frequente no sacro. Frequentemente os quistos contêm tecido nervoso nas suas paredes ou no seu seio.

São em muitos círculos médicos erroneamente considerados assintomáticos. São identificados (mas nem sempre relatados) em cerca 1 a 2% das ressonâncias magnéticas (RM) lombosagradas realizadas, podendo, em cerca de 25% dos casos, ser na realidade sintomáticos. Podem causar dor e, por vezes, perda de sensibilidade, disfunção vesical, sexual e intestinal. Mais raramente pode haver sintomas radiculares (tipo “ciática”).  As queixas podem ser incapacitantes para a realização de tarefas básicas do dia-a-dia.

O diagnóstico dos quistos de Tarlov é habitualmente realizado através de RM embora a TAC lombo-sagrada possa sugerir a sua existência. Por vezes é necessário realizar mielografia/mielo TC, com injeção de contraste no saco tecal para identificar se o quisto comunica de forma ampla com o espaço sub-aracnoideu ou se, pelo contrário, a conecção é valvulada ou de fluxo lento. A mielo-TC permite distinguir quistos de Tarlov de outras patologias. O diagnóstico correto é importante pois o tratamento mais seguro e eficaz usado nos dias de hoje implica a injeção de cola de fibrina no interior do quisto, o que está contra-indicado caso haja comunicação ampla do quisto com o saco tecal.

A grande dificuldade na abordagem dos quistos de Tarlov é perceber se a dor tem origem nestes quistos ou em outras alterações da coluna como discopatias, síndromes facetários (“artroses”) ou disfunção sacro-ilíaca, entre outros.

O tratamento inicial é sempre conservador, com anti-inflamatórios não esteroides ou fisioterapia. Foram desenvolvidas varias técnicas cirúrgicas para tratamento dos quistos e apesar de terem alguns riscos, como infecção ou persistência da dor, por exemplo, as revisões publicadas referem uma taxa de satisfação do doente com o resultado da cirurgia a que foram submetidos de 88%.

Graças à evolução da tecnologia médica, nomeadamente na área da imagem, temos hoje disponíveis equipamentos de imagem topo de gama, nomeadamente no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa, que nos permitem tratar os quistos de Tarlov com técnicas minimamente invasivas que asseguram ao doente uma recuperação muito rápida.

A aspiração guiada por TAC com dupla agulha fina e injecção de cola de fibrina é uma técnica não cirúrgica minimamente invasiva que permite, em cerca de uma hora e de forma simples e eficaz, tratar esta patologia sem necessidade de internamento do doente.

Os estudos publicados referem que em praticamente 100% dos casos é conseguida a aspiração. O sucesso clínico na extinção da dor é de cerca de 80% (pensa-se que a persistência da dor possa estar mais relacionada com outras causas de dor que não o quisto do que propriamente com ineficácia do tratamento, daí a importância de uma avaliação prévia rigorosa).

O tratamento de quistos de Tarlov com esta técnica, aprimorada na sua forma usada pelo neurorradiologista norte-americano Kieran J. Murphy com quem tivemos o privilégio de aprender, consiste na inserção de duas agulhas finas no quisto através das quais se aspira o líquido para descomprimir o nervo. Após a aspiração, injeta-se cola de fibrina para “selar” o quisto. O doente pode retomar a sua vida normal no dia seguinte à intervenção.

Em conclusão, a existência de quistos de Tarlov como causa de dor é uma patologia a ter em conta quando já se excluíram outras causas e não se conseguiram controlar os sintomas dos doentes com o clássico tratamento médico ou de outras patologias degenerativas espinhais. A alternativa terapêutica é muito segura e com uma eficácia a longo prazo de cerca de 80%.