Vacinas antialérgicas são a única intervenção capaz de modificar o curso natural da doença alérgica
Em plena Semana Mundial da Vacinação (24 a 30 de abril), João Gaspar Marques reforça o poder das vacinas antialérgicas na modificação da história natural das doenças alérgicas e a necessidade de voltar a comparticipar esta importante ferramenta que interfere de forma tão significativamente na qualidade de vida dos doentes. Segundo o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, o efeito da imunoterapia específica com alergénios vai muito além do controlo sintomático.
Raio-X (RX): Porque é recomendável repor a comparticipação das vacinas antialérgicas?
João Gaspar Marques (JGM): As vacinas antialérgicas — tecnicamente designadas por imunoterapia específica com alergénios — têm um papel único no tratamento das doenças alérgicas: são a única intervenção capaz de modificar o curso natural da doença, e não apenas aliviar sintomas. Estas vacinas permitem uma redução significativa de sintomas, diminuem a necessidade de medicação, melhoram a qualidade de vida e têm um efeito sustentado de anos mesmo após a sua suspensão. Por este papel único, é fundamental repor a comparticipação destas vacinas, sobretudo porque sem esta comparticipação há uma iniquidade clara no acesso, limitando o acesso aos doentes com menos recursos económicos. Para além disso, há alguns subsistemas (ex: ADSE, ADM, etc) que reembolsam estas vacinas e aumentam ainda mais esta iniquidade.
RX: A medicação alternativa apresenta um custo expressivo?
JGM: As vacinas antialérgicas para além da redução significativa de sintomas e da melhoria da qualidade de vida reduzem a necessidade de medicação e têm um efeito sustentado de anos mesmo após a sua suspensão. Pensando nos doentes com rinite alérgica têm uma relação custo-efetividade bastante favorável porque pese embora os custos diretos da terapêutica padrão da rinite possam não ser muito elevados, quando consideramos que, sem estas vacinas, a terapêutica tem que ser instituída para o resto da vida e que indiretamente há um custo associado ao absentismo profissional e escolar, perda de produtividade, etc os custos são muito elevados e claramente superiores ao custo das vacinas. No caso da asma esta relação também se mantém havendo ainda o ganho adicional de evitar mortalidade (havendo ainda em Portugal casos de morte por asma) e de poder prevenir a evolução para asma grave, situação que obriga a terapêutica biológica com custos diretos consideráveis.
RX: Há um número crescente de pessoas com alergias? A que se deve essa evolução?
JGM: Há uma aumento das doenças alérgicas nas últimas décadas, não só pelo aumento dos diagnósticos, como um aumento real da frequência das doenças alérgicas nas últimas décadas, sobretudo nos países industrializados. Trata-se de um fenómeno multifatorial: menor exposição a microrganismos na infância, alterações da microbiota, maior urbanização e poluição, mudanças no estilo de vida e o impacto das alterações climáticas, que prolongam e intensificam a exposição a alergénios como os pólenes. A genética poderá também ter algum papel, mas a rapidez desta evolução aponta sobretudo para fatores ambientais e comportamentais.
