Área Reservada

Para além do sintoma: a dimensão relacional nos cuidados de saúde

Para além do sintoma: a dimensão relacional nos cuidados de saúde

O sofrimento emocional faz parte da experiência humana e, inevitavelmente, cruza-se com as relações que estabelecemos — sejam elas pessoais ou no contexto dos cuidados de saúde. Ainda assim, reconhecer e validar esse sofrimento continua a ser um desafio, mesmo para profissionais treinados para o compreender e intervir. Entre diagnósticos, protocolos e a pressão do tempo, há dimensões mais subtis que podem ficar para trás: a escuta genuína, a validação da experiência e a qualidade da relação estabelecida com o outro.

É precisamente sobre esta dimensão relacional — muitas vezes invisível, mas profundamente impactante — que reflete a psicóloga clínica Sofia Caetano, num artigo de opinião que integra o universo do livro “Estar Presente – Guia Prático para Familiares e Amigos de Pessoas em Sofrimento Emocional”. A partir da prática clínica, a autora convida a repensar o papel da validação, da compaixão e da presença na forma como cuidamos — e somos cuidados.

Na prática clínica, os profissionais de saúde são treinados para identificar sinais, reconhecer padrões e formular explicações. O objetivo é transformar narrativas em diagnósticos e reduzir a incerteza para tomar decisões. Neste processo, porém, há dimensões que podem escapar. Menos mensuráveis ou objetivas, mas igualmente relevantes, como é o caso do reconhecimento da experiência do doente.

É nesse contexto que podem surgir ruturas na relação de ajuda. São momentos subtis em que o sofrimento, para além de físico ou psicológico, assume também uma dimensão relacional. A evidência científica descreve este fenómeno como um tipo de comunicação em que a pessoa sente a sua autonomia e perceção face à sua condição comprometidos. Em termos simples, trata-se da experiência de não ser acreditado.

Esta dinâmica pode ser descrita em dois polos. De um lado, o profissional de saúde, treinado para resolver problemas. Do outro, o doente, que apresenta sintomas nem sempre alinhados com as descrições clássicas ou que não aparecem nas análises.

Perante limitações de tempo e pressão assistencial, reduz-se a pessoa a um caso clínico, a um problema a resolver, em detrimento de uma experiência a compreender. Esta invalidação nem sempre resulta de indisponibilidade ou falta de empatia, mas, frequentemente, de uma crença de que ajudar é afastar o sofrimento rapidamente, surgindo comentários como “isso é normal” ou “já lhe disse que não há nada de errado consigo”.

A invalidação surge também da luta interna do profissional de saúde. Confrontado com o sofrimento do seu doente, dor, incerteza ou impotência, pode recorrer a respostas que simplificam ou desvalorizam a experiência, como forma de gerir aquilo que também lhe é a si difícil de sustentar.

Do lado do doente, as consequências incluem dúvida sobre a própria perceção dos seus sintomas, procura insistente de validação ou reformulação do discurso para se adequar às expetativas clínicas. Do lado do profissional, essas respostas podem ser interpretadas como ansiedade excessiva ou hipocondria: “já experimentou psicoterapia?”.

Como observadores, vemos duas pessoas com uma experiência comum. De um lado, o medo de não conseguir ajudar e, do outro, o medo de não ter solução e de não ser compreendido e ajudado. A vulnerabilidade e o sofrimento humano não distinguem papéis. Também os profissionais necessitam de recursos e formação que lhes permita acolher o outro sem invalidar, assim como espaços para aprender a reconhecer e cuidar das suas próprias emoções. Saber ajudar implica também saber cuidar de si e reconhecer limites.

Assim, a validação do sofrimento e a compaixão deixam de ser apenas valores éticos e assumem uma função prática. Validar não é concordar com tudo, mas sim reconhecer a experiência do outro como importante, abrindo espaço para verdadeiramente estar com o que está presente, com disponibilidade e sem julgamento. Implica também reconhecer que, tal como afirma Carl Sagan, a ausência de evidência não corresponde, necessariamente, à evidência de ausência.

Este é o tema central do livro “Estar Presente – Guia Prático para Familiares e Amigos de Pessoas em Sofrimento Emocional (PACTOR Editora)”. A premissa de que quem cuida e quem é cuidado não são opostos, mas sim espelhos. E que a distância se cria e o sofrimento psicológico aumenta ao procurar evitar o inevitável, sofrer.

Este livro é para quem convive com pessoas em sofrimento emocional e procura ferramentas práticas para ajudar a cuidar melhor, compreendendo que ninguém vê e ajuda verdadeiramente o outro sem se ver também a si.

Sofia Caetano,

Psicóloga clínica nos Serviços de Saúde da Universidade de Coimbra; Coautora do livro Estar Presente (PACTOR Editora).