01 de outubro – Dia Mundial da Urticária | “Retomar o controlo – da comichão à compreensão”: a urticária é muito mais do que uma erupção visível na pele
No dia 1 de outubro assinala-se o Dia Mundial da Urticária. Em 2026, o mote internacional para esta data é “Retomar o controlo – da comichão à compreensão” (Take Back Control — From Itch to Understanding), uma mensagem que, segundo Sofia Campina, da SPAIC, “lembra que a urticária é muito mais do que uma erupção visível na pele. A comichão persistente, o inchaço e a imprevisibilidade das crises podem afetar profundamente o sono, a vida familiar, o trabalho, a escola e a saúde emocional. Ouvir a experiência de quem vive com urticária, melhorar a comunicação entre doentes e profissionais de saúde e garantir cuidados adequados são passos essenciais para devolver controlo a quem vive com esta doença”.
O que é a doença, como é feito o diagnóstico, em que consiste o tratamento e quais os principais desafios nos acessos aos cuidados da saúde são alguns dos temas abordados no artigo de opinião em anexo, assinado por Sofia Campina, coordenadora do Grupo de Interesse de Alergia Cutânea da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC).
O que é a urticária e como se manifesta?
A urticária é uma doença caracterizada pelo aparecimento súbito de lesões na pele, habitualmente elevadas, rosadas ou avermelhadas — as chamadas “pápulas” ou “vergões” — que provocam comichão intensa. Podem também causar ardor, sensação de picada, de calor ou desconforto. Cada lesão individual desaparece habitualmente em menos de 24 horas, sem deixar marca na pele, embora novas lesões possam surgir noutras zonas do corpo.
A urticária pode afetar qualquer região corporal e apresentar-se de forma muito variável: desde pequenas áreas localizadas até episódios mais extensos e generalizados. Em algumas pessoas, surge também angioedema, isto é, um inchaço mais profundo da pele ou das mucosas, frequentemente nos lábios, pálpebras, mãos e pés. Ao contrário das lesões superficiais, o angioedema pode persistir até 72 horas e associar-se mais frequentemente a sensação de pressão ou dor.
A urticária classifica-se como:
- Aguda, quando dura até seis semanas.
- Crónica, quando os sintomas persistem, de forma recorrente ou quase diária, por mais de seis semanas.
A urticária aguda é frequente e pode ocorrer pelo menos uma vez ao longo da vida em cerca de 20% das pessoas. Em crianças, é muitas vezes observada no contexto de infeções virais. Embora medicamentos ou alimentos possam estar envolvidos em situações específicas, não devem ser assumidos como causa sem uma história clínica compatível e investigação orientada; em muitos episódios não é possível identificar um desencadeante concreto.
A urticária crónica afeta aproximadamente 1% da população em determinado momento da vida e é mais frequente nas mulheres. Pode ter um impacto profundo na qualidade de vida, no sono, no desempenho escolar ou profissional, na vida social e na saúde emocional.
Na maioria dos casos, trata-se de urticária crónica espontânea (UCE): as lesões surgem sem que exista um estímulo externo específico identificável em cada episódio. Isto não significa que a doença seja “imaginação”, nervosismo ou uma alergia alimentar persistente. Resulta de uma ativação inadequada de células do sistema imunitário da pele, incluindo os mastócitos, que libertam mediadores responsáveis pela comichão, vermelhidão e inchaço.
Em parte dos doentes, a urticária crónica espontânea está associada a mecanismos autoimunes e pode coexistir com outras doenças autoimunes, particularmente doença autoimune da tiroide. Ainda assim, cada caso deve ser avaliado individualmente, pois a realização indiscriminada de testes extensos raramente é útil.
Existem também as urticárias crónicas indutíveis, nas quais os sintomas são desencadeados de forma reprodutível por um estímulo físico ou ambiental. Incluem, por exemplo:
- Urticária dermográfica ou dermografismo
- Urticária ao frio (exemplo: após imersão no mar/piscina de agua fria)
- Urticária colinérgica, desencadeada pelo aumento da temperatura corporal, exercício ou stress
- Urticária de pressão retardada
- Urticária solar, aquagénica ou por contacto, entre outras formas menos frequentes
Uma mesma pessoa pode ter urticária crónica espontânea e uma ou mais formas de urticária indutível. O stress, a privação de sono, as infeções e alguns medicamentos — em particular anti-inflamatórios não esteroides, em pessoas suscetíveis — podem agravar a urticária. Contudo, estes fatores não devem levar a dietas restritivas ou a evitamentos desnecessários sem orientação médica.
Como se diagnostica?
O diagnóstico da urticária é sobretudo clínico. Uma história detalhada dos sintomas, da sua duração, frequência e possíveis fatores de agravamento é geralmente a ferramenta mais importante. Fotografias das lesões tiradas durante as crises podem ser particularmente úteis, porque as marcas podem já ter desaparecido no momento da consulta.
Na urticária aguda, habitualmente não são necessários exames laboratoriais nem testes de alergia. A investigação só deve ser feita quando a história clínica sugere uma relação consistente com um alimento, medicamento ou outra exposição específica.
Na urticária crónica, a avaliação deve ser orientada e proporcional.
As recomendações internacionais atualizadas em 2026 defendem uma investigação limitada, baseada numa história clínica cuidada, exame objetivo, avaliação de fotografias e alguns exames básicos. Em contexto especializado, podem ser considerados outros testes selecionados de acordo com cada caso. Nas urticárias indutíveis, podem ser realizadas provas específicas para confirmar o diagnóstico e identificar o limiar de reatividade ao estímulo desencadeante.
A biópsia cutânea não faz parte da avaliação habitual. Pode, no entanto, ser necessária quando as lesões duram mais de 24 horas no mesmo local, deixam marcas, são dolorosas em vez de predominantemente pruriginosas, ou quando existem outros sinais que levantem a suspeita de diagnósticos alternativos.
Também é importante avaliar não apenas a presença de lesões, mas o impacto da doença e o grau de controlo. O objetivo é alcançar o controlo completo dos sintomas e recuperar a qualidade de vida.
Como se trata?
O tratamento deve ser individualizado, com o objetivo de controlar totalmente os sintomas, prevenir crises e permitir que a pessoa retome a sua vida diária com a maior normalidade possível.
A primeira linha de tratamento da urticária crónica são os anti-histamínicos H1 de segunda geração, por apresentarem melhor perfil de segurança. Quando a dose habitual não é suficiente, pode-se aumentar progressivamente a dose até um máximo de quatro vezes a dose aprovada, sempre sob orientação médica. Os antihistamínicos de primeira geração, mais sedativos, não são recomendados de forma rotineira no tratamento da urticária crónica.
Se os sintomas persistirem apesar de anti-histamínicos de segunda geração em dose elevada, estão indicadas opções terapêuticas adicionais. O omalizumab, um medicamento biológico injetável, é a opção recomendada após falência da terapêutica antihistamínica em dose adequada. Para outros casos podem ser consideradas outras opções como o remibrutinib, um tratamento diferenciado que tem a vantagem de ser toma oral e o dupilumab, também um biológico injectável. A resposta ao tratamento deve ser reavaliada regularmente.
Na impossibilidade de ter acesso a estas opções ou nos casos refratários sem resposta a nenhuma delas, podemos pensar noutras opções incluindo ciclosporina, após avaliação cuidadosa dos benefícios e riscos.
Os corticoides sistémicos — orais ou injetáveis — não são tratamento de manutenção da urticária crónica. Podem ser utilizados apenas em situações selecionadas, para controlo de crises graves e durante períodos muito curtos, sempre por indicação médica, devido aos seus potenciais efeitos adversos.
A urticária crónica não deve ser minimizada: mesmo quando as lesões desaparecem da pele, a incerteza sobre a próxima crise, a comichão e o impacto no sono podem condicionar de forma relevante a vida das pessoas.
Quais são os desafios no acesso aos cuidados?
A urticária crónica requer diagnóstico atempado, acesso a cuidados diferenciados e terapêuticas adequadas à gravidade e ao impacto da doença. Quando os sintomas permanecem descontrolados, os doentes podem enfrentar consequências importantes no rendimento profissional ou escolar, nas relações sociais, na autoestima e no bem-estar psicológico.
É essencial reduzir atrasos no diagnóstico e garantir uma referenciação célere dos doentes com formas persistentes, graves ou difíceis de controlar para consultas especializadas de Imunoalergologia e/ou Dermatologia, conforme a organização local dos cuidados.
Os Centros UCARE — Urticaria Centers of Reference and Excellence — integram uma rede internacional de centros dedicados à urticária, focados na melhoria do diagnóstico, tratamento, formação e investigação.
O acesso equitativo a cuidados especializados e a tratamentos eficazes continua a ser central e um problema reconhecido na nossa realidade portuguesa.
Por exemplo, o acesso aos fármacos diferenciadores falados atrás, para os casos graves selecionados, só é possível pelo SNS, e se o doente for seguido em regime privado não terá essa hipótese (relacionado com os custos associados ao fármaco e sua administração e não haver opções de comparticipação pelas seguradoras que sejam eficazes).
Qual a mensagem a assinalar neste dia?
No dia 1 de outubro assinala-se o Dia Mundial da Urticária. Em 2026, o mote internacional é “Retomar o controlo — da comichão à compreensão” (Take Back Control — From Itch to Understanding). Esta mensagem lembra-nos que a urticária é muito mais do que uma erupção visível na pele.
A comichão persistente, o inchaço e a imprevisibilidade das crises podem afetar profundamente o sono, a vida familiar, o trabalho, a escola e a saúde emocional.
Ouvir a experiência de quem vive com urticária, melhorar a comunicação entre doentes e profissionais de saúde e garantir cuidados adequados são passos essenciais para devolver controlo a quem vive com esta doença.
A principal mensagem é simples: a urticária crónica tem tratamento, e ninguém deve resignar-se a viver com sintomas não controlados. Procurar avaliação médica diferenciada permite confirmar o diagnóstico, excluir situações alternativas e definir uma estratégia terapêutica ajustada a cada pessoa.
Referências principais:
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/all.70210 2
