14 de setembro: Dia Mundial da Dermatite Atópica | Mais do que pele seca, uma doença inflamatória com impacto profundo na vida dos doentes

14 de setembro: Dia Mundial da Dermatite Atópica | Mais do que pele seca, uma doença inflamatória com impacto profundo na vida dos doentes

A 14 de setembro assinala-se o Dia Mundial da Dermatite Atópica, uma doença frequentemente reduzida a “pele seca” ou encarada como um problema meramente estético. Na verdade, trata-se de uma doença complexa, de base imunológica, com um impacto profundo na qualidade de vida dos doentes e das suas famílias. A dermatite atópica é a doença inflamatória crónica cutânea mais comum, caracterizada por pele seca (xerótica) e por prurido (comichão) intenso. Resulta de uma interação complexa entre suscetibilidade genética, disfunção da barreira cutânea e desregulação do sistema imunitário. Sobre este terreno atuam fatores ambientais que podem desencadear ou agravar os surtos, fazendo com que a doença evolua tipicamente por períodos de agravamento que alternam com fases de estabilidade. Em Portugal, estima-se que a dermatite atópica afete entre 2 e 5% da população em geral e cerca de 15% das crianças e adolescentes, sendo que 34 mil portugueses apresentam dermatite atópica moderada a grave.
No âmbito desta data, partilhamos um artigo de opinião da autoria das Dras. Sofia Campina, Rita Brás e Sara Regalo, representantes do Grupo de Interesse de Alergia Cutânea da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, que abordam a realidade da dermatite atópica, os seus mecanismos e o impacto que esta doença pode ter no dia a dia dos doentes.

A 14 de setembro assinala-se o Dia Mundial da Dermatite Atópica. Frequentemente reduzida a “pele seca” ou a um problema estético, a dermatite atópica é, na verdade, uma doença complexa, de base imunológica, com um impacto profundo na qualidade de vida dos doentes e das suas famílias.

Trata-se da doença inflamatória crónica cutânea mais comum, caracterizada por pele seca (xerótica) e com prurido (comichão) intenso, que resulta de uma interação complexa entre suscetibilidade genética, disfunção da barreira cutânea e desregulação do sistema imunitário. Sobre este terreno atuam depois fatores ambientais que desencadeiam ou agravam os surtos, pelo que a doença evolui tipicamente por períodos de agravamento que alternam com fases de estabilidade.

Em Portugal, estima-se que a dermatite atópica afete entre 2 a 5% da população em geral e cerca de 15% das crianças e adolescentes, sendo que 34 mil portugueses apresentam dermatite atópica moderada a grave.

O sintoma mais marcante da doença e, muitas vezes, o mais debilitante é o prurido, intenso que agrava ao final do dia e durante a noite e que conduz à coceira compulsiva, capaz de originar feridas e infeções. São também típicas as lesões eczematosas caracterizadas por vermelhidão, descamação e, nos surtos, exsudação (lesões húmidas) e crostas. A localização das lesões varia com a idade, predominando na face e nas superfícies extensoras dos membros no bebé, e nas pregas de flexão, como cotovelos e joelhos, na criança mais velha e no adulto, sendo que neste último também a face e as mãos podem ser particularmente afetadas.

Embora possa surgir em qualquer idade, o início é, na larga maioria dos casos, precoce: cerca de 45% dos casos manifestam-se nos primeiros seis meses de vida, 60% no primeiro ano e 80 a 90% antes dos cinco anos. Isto não significa, contudo, que se trate de uma doença exclusiva da idade pediátrica. A dermatite atópica pode persistir na idade adulta ou até, cada vez mais, surgir pela primeira vez nesta fase.

Esta elevada prevalência acarreta também um elevado impacto sobre o dia a dia. A comichão persistente e a privação de sono afetam a concentração, o desempenho escolar e profissional e o equilíbrio emocional, sobretudo na doença moderada a grave, sendo frequentes distúrbios do sono, ansiedade e depressão. Importa referir que este impacto também se repercute na família/cuidador, não só do ponto de vista psicológico, mas também pelo absentismo laboral muitas vezes associado.

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseando-se no prurido intenso e na observação de lesões características, e deve ser complementado pela avaliação de outras doenças alérgicas ou atópicas, como a asma, a rinite e a alergia alimentar. Não existe um teste laboratorial que, por si só, confirme a doença; o estudo alergológico pode ser útil para identificar sensibilizações e fatores desencadeantes em doentes selecionados, mas não substitui a avaliação clínica.

Do ponto de vista terapêutico, o principal desafio é atingir e manter o controlo sustentado da doença. Felizmente, na última década assistimos a uma mudança do panorama no tratamento da dermatite atópica. À base do tratamento (os emolientes, os corticosteroides tópicos e os inibidores tópicos da calcineurina) juntaram-se as terapêuticas dirigidas para os casos mais graves, com fármacos biológicos, como o dupilumab, o tralokinumab e o lebrikizumab, e os inibidores das JAK, como o abrocitinib, o baricitinib e o upadacitinib. As recomendações internacionais mais recentes defendem uma abordagem proativa e personalizada, orientada para o controlo a longo prazo e não apenas para tratar cada surto. O desafio que permanece é garantir o acesso equitativo de todos os doentes a estas opções e a sua correta seleção, caso a caso.

Apesar de tudo o que hoje se sabe, a dermatite atópica continua rodeada de mitos. Não é contagiosa, não resulta de falta de higiene, não é “apenas pele seca” nem um problema estético, e não desaparece obrigatoriamente com a idade. Persiste, também, a ideia de que dietas de exclusão resolvem a doença quando, na ausência de uma alergia alimentar comprovada, as recomendações desaconselham dietas de eliminação injustificadas. Importa ainda esclarecer que o stress pode agravar a doença, mas não é a sua causa: a dermatite atópica é, na sua essência, uma doença inflamatória de base imunológica.

O Dia Mundial da Dermatite Atópica torna-se, assim, uma excelente oportunidade para dar visibilidade a uma doença ainda subvalorizada, combater o estigma que a acompanha, promover o diagnóstico e o encaminhamento atempados e recordar que existe, hoje, um conjunto de tratamentos capaz de controlar bem a doença. O objetivo é claro: que nenhuma pessoa com dermatite atópica tenha de aceitar a comichão intensa diária, as noites sem dormir e o isolamento como inevitáveis, porque já não o são.