“A colaboração e interação com outras disciplinas do saber médico nesta área é fundamental”

O 14.º Congresso Português de Hipertensão e Risco Cardiovascular Global, organizado pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH), vai decorrer de 6 a 9 de fevereiro, no Hotel Tivoli Marina Vilamoura, Algarve. Em entrevista ao Raio-X, Vítor Paixão Dias, presidente da SPH, falou sobre a importância de estreitar relações com outras sociedades científicas, além de comentar os temas que vão estar em debate ao longo do encontro.

Raio-X (RX) – “O papel das sociedades científicas na medicina do futuro” é o tema do Congresso deste ano. Que papel é esse?

Vítor Paixão Dias (VPD) – As sociedades científicas (SC) têm um papel inestimável na educação médica contínua. A aquisição do título de especialista não é, por si só, garantia suficiente de qualidade dos cuidados de saúde. O médico tem de estar continuamente atualizado e o papel das SC é muito relevante neste domínio. As SC ajudam a informar os seus associados acerca das novidades na investigação e nas recomendações nas respetivas áreas, colaborando de forma ativa com os médicos e outros profissionais de saúde na defesa do supremo interesse dos doentes.

RX – Para a SPH, qual a importância de estreitar ligações com outras sociedades científicas?

VPD – Este estreitamento de relações é para nós essencial, uma vez que a hipertensão arterial e o risco vascular fazem parte do âmbito de interesse de várias SC e porque, como se costuma dizer, da discussão nasce a luz. Num momento de evolução tecnológica vertiginosa e de constrangimentos financeiros, é fundamental ouvir os nossos parceiros na procura das melhores soluções para a medicina e para a investigação.

RX – A multidisciplinaridade é também fulcral para a medicina do futuro? Daí a aposta em sessões e formações dedicadas a outras especialidades no programa científico?

VPD – Sem dúvida. Na linha do que atrás referi e de acordo até com a designação do próprio congresso (de hipertensão e risco vascular global), há que atender aos diferentes aspetos do risco vascular e a colaboração e interação com outras disciplinas do saber médico nesta área é fundamental.

RX – Entre os vários temas que vão ser discutidos ao longo dos quatro dias, quais os que destaca e porquê?

VPD – Tentámos construir um programa abrangente, tocando os vários aspetos que à hipertensão arterial dizem direta ou indiretamente respeito. Seria injusto destacar este ou aquele tema. Penso que o programa é bastante equilibrado e completo, abordando desde as questões epidemiológicas, aos fatores de risco associados, aos doentes com comorbilidades, às novidades no campo da terapêutica e da proteção vascular, à prevenção das lesões de órgão mediadas pela hipertensão, à relação entre a microinflamação vascular e a doença oncológica, passando por algumas questões fisiopatológicas relevantes ou pelo impacto que a medicina personalizada pode eventualmente ter nesta área.

RX – Que novidades há a frisar nestas matérias?

VPD – Há novas guias de recomendação na hipertensão e nos lípidos, há importantes novidades na proteção vascular nos doentes diabéticos com recurso a novas classes farmacológicas, há uma chamada de atenção do papel que o maior órgão do corpo humano, a pele, pode ter na regulação do equilíbrio do sal e da pressão arterial ou ainda os desafios futuros que se colocam na investigação, tema que será abordado por um dos mais eminentes cientistas nesta área, o professor Giuseppe Mancia.

RX – Qual o panorama atual da hipertensão e do risco cardiovascular global no nosso país?

VPD – Embora a prevalência da hipertensão arterial se mantenha relativamente estável nos últimos 15 anos, atingindo mais de 40% da população adulta, a mortalidade cardiovascular de que a hipertensão é o principal fator de risco, tem vindo sistematicamente a diminuir e veio para baixo dos 30%, o que é um marco histórico. No entanto, o principal fator de risco não modificável é a idade e o envelhecimento da população colocará cada vez mais desafios aos médicos e aos decisores políticos.

RX – As doenças cerebrocardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, mas tem havido um decréscimo, em termos estatísticos, da morbimortalidade. Que medidas e estratégias devem ser tomadas para melhorar ainda mais este cenário?

VPD – Para além de se continuar a investir na promoção dum estilo de vida saudável, evitando o sedentarismo e estimulando o exercício físico, comendo com  pouco sal, restringindo o açúcar e as gorduras saturadas, não fumando, controlando o peso, etc., é muito importante que o médico e os outros profissionais de saúde saibam motivar o indivíduo a aderir à medicação quando ela é necessária e a persistir nessa adesão. Esta é uma questão que ultrapassa em muito o médico e neste domínio todos somos chamados a colaborar.

Por Marisa Teixeira


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