“A vacinação deve ser uma preocupação de todos”

No âmbito da sessão de esclarecimento “Direito à Vacinação”, que decorreu em 29 de outubro, em Lisboa, o jornal Raio-X falou com a Dr.ª Isabel Saraiva, vice-presidente da Associação Respira, sobre o intuito desta iniciativa e o panorama atual da vacinação em Portugal.

Raio-X (RX) – Qual o objetivo do MOVA (Movimento Doentes pela Vacinação)?
Isabel Saraiva (IS) – O MOVA é um movimento de cidadania. Foi fundado há pouco mais de dois anos pela Respira, com o apoio da Fundação Portuguesa do Pulmão e do GRESP. Seguiu-se a entrada da Liga Portuguesa Contra a Sida, da Associação Portuguesa de Asmáticos, da Associação Portuguesa de Insuficientes Renais e da FPAD – Federação Portuguesa de Associações de Pessoas com Diabetes, a quem se juntaram recentemente a Liga Portuguesa Contra o Cancro, a Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca e Associação Portuguesa dos Enfermeiros de Reabilitação. O MOVA é, atualmente, composto por 10 entidades, todas distintas nas patologias e nas causas que defendem, e todas unidas num objetivo comum: a promoção dos direitos dos (nossos) doentes.

RX – E qual o propósito da sessão “Direito à Vacinação”?
IS – Com este encontro pretendemos fomentar uma conversa franca entre membros do MOVA e alguns convidados. Juntámos doentes e profissionais de saúde à mesa para falar sobre a importância da vacinação antipneumocócica, sobre os principais obstáculos que encontramos diariamente, e sugerimos aquelas que considerámos as melhores sugestões para os ultrapassar.

RX – Qual o balanço que faz da sessão?
IS –
O balanço foi francamente positivo. Tratou-se de uma sessão muito dinâmica, muito participada por todos, com excelentes contributos, em que, além de dos membros do MOVA, tivemos o privilégio de sentar, na mesma mesa, entidades de referência como a Direção Geral da Saúde (DGS), a Plataforma Saúde em Diálogo, imprensa e profissionais de saúde convidados.

RX – Qual o ponto de situação da vacinação em Portugal?
IS – Posso responder com os dados que temos. Em abril, para assinalar a Semana Europeia da Vacinação, realizámos um inquérito para avaliar as perceções da comunidade sobre vacinação e a sua importância, ao longo da vida. 94,3% dos inquiridos acredita ter as suas vacinas em dia e 89,1% considera-as fundamentais na prevenção de doenças graves. Mais, 87,4% das pessoas afirmou saber para que doenças deve estar vacinado na sua idade apesar de, nas idas ao médico, apenas 48% falar sobre vacinação. Entre os inquiridos pertencentes ao grupo com risco acrescido de contrair pneumonia, apenas 44,62% tinha sido aconselhado a vacinar-se contra a doença.
Quando pedimos aos inquiridos que selecionassem as patologias para as quais sabiam haver vacina, a pneumonia ficou na última posição. A Gripe foi a que mais se destacou (98,6%), seguida do tétano (97,3%). Bastante mediáticos, o sarampo registou 94,7%, a meningite 91,1%, e o HPV 90,3%. Varicela (84,6%), hepatite (82,1%), poliomielite (81,4%) ocuparam as posições seguintes e a lista fechou com a raiva (69,3%) e com a pneumonia (66,9%).

RX – Considera que os doentes crónicos em Portugal têm acesso facilitado à vacinação?
IS –
Ainda há, infelizmente, muito por fazer, quer a nível da sensibilização, quer da prática. Ainda mais quando sabemos que qualquer investimento que façamos em prevenção é preferível aos custos da cura, e que no caso da pneumonia corremos riscos de mortes, morbilidades e sequelas graves. Ao vacinarmos os grupos de risco estamos a investir na sua saúde, a prevenir eventuais internamentos e, no limite, a reduzir significativamente o número de mortes. Existe, desde junho de 2015, uma Norma da DGS que recomenda a vacinação antipneumocócica a todos os adultos pertencentes aos grupos de risco, nomeadamente idosos, diabéticos, doentes oncológicos, pessoas com asma, doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) ou doença cardíaca crónica. No entanto, ainda há muitos por vacinar. Não é demais reforçar – a vacinação deve ser uma preocupação de todos e deve estar presente em todas as fases das nossas vidas, sobretudo naquelas em que estamos mais fragilizados – casos de doença ou de envelhecimento do nosso organismo. A implementação da gratuitidade da vacina antipneumocócica conjugada a alguns grupos, como é o caso dos doentes crónicos, faria toda a diferença.

RX – O que pode ser melhorado neste campo?
IS –
À semelhança do que acontece com outras patologias, no caso da pneumonia, a falta de informação e/ou de aconselhamento, são a principal causa das reduzidas taxas de vacinação. Cabe a profissionais de saúde como médicos, farmacêuticos e enfermeiros, a importante tarefa de reverter este cenário. Cabe-nos a nós, MOVA, contribuir para essa sensibilização. Só informados podemos optar conscientemente por boas práticas como a vacinação.

RX – Qual o papel da RESPIRA na sensibilização para a vacinação, particularmente junto dos doentes respiratórios?
IS –
Faz parte dos objetivos estatutários da RESPIRA, e agora também do MOVA, a divulgação junto da sociedade civil e entidades oficiais da problemática da saúde respiratória em Portugal, nomeadamente a relativa às pessoas com DPOC e outras doenças respiratórias crónicas. A sensibilização da população, dos profissionais de saúde e dos decisores políticos enquadram-se nestes objetivos, na perfeição.

 


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