Controlo das doenças alérgicas “está ao nosso alcance”, diz Mário Morais de Almeida

Decorreram nos dias 2 e 3 de Fevereiro as 6.ªs Jornadas de Alergologia Prática do Hospital CUF Descobertas, no Hotel Vila Galé na Ericeira. À semelhança das edições anteriores foi sob o tema “As dúvidas em patologia respiratória e alérgica” que se desenvolveram estas Jornadas, com o objectivo de actualizar e sedimentar conhecimentos na área da função respiratória,para que todos os participantes adquiram ensinamentos aplicáveis na sua vida profissional. As Jornadas foram presididas pelo Imunoalergologista e coordenador do Centro de Imunoalergologia do Hospital CUF Descobertas, Mário Morais de Almeida. O Raio-X esteve lá para falar com ele.

Raio-X (RX) – Esta é a 6.ª edição das Jornadas de Alergologia Prática do Hospital da CUF, o que mudou, desde então, na abordagem da patologia alérgica?

Mário Morais de Almeida (MMA) – Obviamente que existe cada vez mais divulgação, são patologias muito frequentes na prática clínica, nomeadamente aqui, numa reunião que é dedicada à Medicina Geral e Familiar. É muito frequente, em todos os grupos etários haver doenças alérgicas. Cerca de um terço da população sofre dessas patologias obviamente com gravidades distintas. O que tem mudado é a percepção sobre os próprios colegas, que estão cada vez mais capacitados, trazem as suas dúvidas e é essa a temática desta reunião: esclarecer as dúvidas. Ao exporem os seus casos clínicos, que têm tentado resolver, são aqui ajudados e encaminhados para a melhor maneira de os resolver, uma maneira prática, rentabilizando os recursos, não aumentando os custos. É importante também perceber quando é que deve encaminhar-se para a especialidade e também qual é a expectativa, ou seja, o que é que o doente vai receber dessa mesma especialidade.

RX – Como é que têm evoluído as Jornadas desde a 1ªEdição?

MMA – As jornadas têm sido cada vez mais participadas com muitas pessoas, algumas já são participantes habituais e vêm cá, por exemplo, esclarecer as suas dúvidas. Quando voltam aos seus locais de trabalho, conseguem colaborar melhor na observação dos seus casos clínicos e partilhar esses conhecimentos com os colegas que não tiveram a possibilidade de vir às jornadas.

RX – Atualmente, quais é que são as doenças alérgicas que deixam maior preocupação?

MMA – Do ponto de vista da gravidade, podemos considerar que a doença alérgica que causa maior preocupação é a anafilaxia. É uma situação que, apesar de tudo, não é muito frequente, mas ocorre quotidianamente e pode provocar a morte. Depois, do ponto de vista epidemiológico, a asma continua a ter um papel de destaque porque afeta muitos Portugueses. Centenas de milhares de Portugueses têm asma, alguns casos, de facto, bastante graves e a precisarem de muitos recursos, mas a maior parte dos asmáticos a serem facilmente controlados desde que a medicação seja feita correctamente.

RX – Quais as estratégias utilizadas para controlar as doenças alérgicas?

MMA – A monotorização da doença é muito importante, seja como recurso à espirometria, a avaliação funcional respiratória é crucial, ou o recurso à terapia inalada. Todo este processo passa pelo conhecimento e pelo detalhe que os nossos colegas têm de ter relativamente ao uso dos inaladores e como é que se faz essa educação, esse ensino. Podemos prescrever um medicamento mas, se ele não é feito corretamente, não conseguimos ter resultados. Estas jornadas têm também como prioridade esses aspetos práticos: alertar para a educação que começa nos profissionais de saúde, ou seja, sabermos usar bem as ferramentas que temos disponíveis.

RX – Quais são os alergénios mais frequentes? 

MMA – Os alergénios mais presentes na nossa população são os ácaros do pó, são os pólenes, são os pelos dos animais de companhia, os fungos. Depois, temos de destacar também os outros alergénios que dão origem a outro tipo de alergias, como a alergia alimentar e aí temos a alergia ao leite, ao trigo, aos ovos, ao peixe, aos frutos secos e frescos, ao amendoim e às sementes, por exemplo. Também já se discutiu, nestas jornadas, a problemática da alergia aos medicamentos, aos antibióticos e a hipersensibilidade aos anti-inflamatórios (não esteróides) que são muito usados também. Em termos de alergias, propriamente ditas, obviamente que nós temos sempre de pensar na rinite alérgica, no eczema e na asma.

RX – As alergias tem tendência a aumentar com o tipo de clima que temos?

MMA – As alergias estão agora um bocadinho estabilizadas. Embora os casos mais graves tenham registado um aumento significativo, ou seja, nós temos mais ou menos a mesma prevalência da asma, da rinite, do eczema, mas temos quadros cada vez mais desafiantes porque são mais graves, de controlo mais difícil e ai é importante, logo precocemente, diagnosticar e saber o que fazer desde o início e não deixar que as coisas evoluam para estados mais graves. Continuamos a ter muito presente a questão do tabaco, e fala-se muito do tabaco e da DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica – e essa questão é muito importante. Continuamos a ter os asmáticos a fumar tanto em Portugal como os não-asmáticos, tal como as crianças asmáticas em Portugal estão mais expostas ao tabaco do que as crianças que não são asmáticas, e estes exemplos são a prova de que nós ainda temos que trabalhar mais, continuar a fazer campanhas, continuar a fazer educação e a promover informação, quer aos outros profissionais de saúde, quer à população em geral.

RX – Depois deste inverno seco prevê-se uma primavera especialmente “agressiva” para quem sofre de alergias?

MMA – Tem havido um continuo histórico de alergias, ou seja, não havendo aqui este efeito de lavagem da atmosfera, as pessoas têm estado permanentemente expostas nomeadamente a pólenes e a fungos na atmosfera. Apesar de tudo, o tipo de clima que nós temos, a humidade que nós temos e alguma precipitação que ainda vai acontecendo, acabam por limpar os pólenes e por permitir que seja uma primavera perfeitamente normal. Ou seja, será uma Primavera bastante agressiva, uma vez que as vias aéreas já estão “mais sensíveis” e mais inflamadas porque têm estado sempre sujeitas a alergénios, tanto no exterior, como no interior dos edifícios, portanto é de prever que esta Primavera, tal como as outras, seja complicada para os doentes alérgicos.

RX – Qual é a melhor forma de combater as alergias?

MA –  Reconhecer que as temos, sabermos quais são as ferramentas para as controlar e não ter medo delas. Devemos sempre procurar ajuda, nomeadamente, junto dos médicos de Medicina Geral e Familiar, junto dos pediatras, para saber qual é que é a melhor solução, qual é que é o melhor caminho. Depois, tentar controlar e, neste contexto, participamos todos, começando pelos próprios doentes, e por mim próprio, que também sou doente asmático. Nós, profissionais de saúde, às vezes não podemos curar, nós gostaríamos de curar as doenças, mas muitas vezes são doenças crónicas que não têm cura mas têm controlo e isso está ao nosso alcance.

RX – Qual é a mensagem que quer passar às pessoas que sofrem continuamente de alergias?

MMA – Existem soluções, existem caminhos. Falem com a equipa de saúde, sigam as recomendações, sigam os conselhos mas também discutam abertamente, ponham as dúvidas, o que não perceberam, esclareçam. Procurem também as associações de doentes e neste caso também, a Associação Portuguesa dos Asmáticos está lá para servir e tem feito um trabalho muito importante. Procurem a informação válida que vai saindo cada vez mais na Comunicação Social. Tudo isto ajuda a que tenhamos uma população mais informada, mais educada e mais controlada naquilo que se pretende.

 

Por Rita Rodrigues


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