COVID-19: A hidroxicloroquina “poderá ser uma arma terapêutica, mas dificilmente poderá ser a única”

A TEVA Portugal fez a doação de 50 mil comprimidos de hidroxicloroquina, ao Ministério da Saúde para apoiar no combate à pandemia do vírus COVID-19. Este fármaco está aprovado para o tratamento da malária, lúpus eritematoso e artrite reumatoide, e a sua eficácia contra o SARS-CoV-2 está a ser alvo de investigação. Neste âmbito, o Raio-X falou com Miguel Castanho, responsável pelo grupo de Bioquímica do Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos no Instituto de Medicina Molecular, que comenta que “uma ação anti-inflamatória [da hidroxicloroquina] em COVID-19, independente da hipotética ação antiviral, é plausível”.

Questionado sobre o papel da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19, Miguel Castanho começa por explicar que “é usada sobretudo no combate à malária por desregular o metabolismo dos hemos no parasita, que é crítico, e também interfere em alguns processos inflamatórios”. E acrescenta: “Na COVID-19, além de alguns efeitos indiretos sobre manifestações da doença, suspeita-se que possa dificultar a ligação do SARS-CoV2 às células contendo o recetor, ACE2, portanto, inibindo a entrado deste vírus em células. Existe ainda a possibilidade de as propriedades ácido-base da molécula alterarem o pH do meio das vesículas de endocitose que este vírus usa para entrar em células, retendo o vírus dentro dessas vesículas e não o deixando libertar o seu genoma.”

Até à data, as hipóteses mencionadas resultam de estudos in vitro obtidos com vírus e células isolados. O bioquímico ressalva que “nada garante que assim se passe in vivo em humanos. Só testes de natureza clínica, em curso, poderão confirmar ou refutar estas hipóteses”. “Devemos realçar também que, ainda que exista ação anti-SARS-CoV-2, nada garante que as dosagens e formas de administração otimizadas para outras patologias sejam replicáveis em terapêuticas para COVI-19”, avança.

Miguel Castanho revela estar cético quanto a ação antiviral, “mas em ciência mandam os resultados”. “Para já estou cético porque a ação farmacológica em malária (metabolismo dos hemos no parasita) não tem pontos de contacto com o modo de ação do vírus. Não é configurável uma relação entre ambas.”

“No entanto, uma ação anti-inflamatória em COVID-19, independente da hipotética ação antiviral, é plausível”, refere, adiantando que “esta poderá ser uma arma terapêutica, mas dificilmente poderá ser a única”.

Por Marisa Teixeira


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