“Há um longo caminho a percorrer para se conseguir erradicar a tuberculose”

No âmbito do Dia Mundial da Tuberculose, que se assinala hoje, o pneumologista António Domingos falou sobre o panorama desta patologia em Portugal e no mundo, bem como dos principais sintomas, tratamentos e desafios. O coordenador da Comissão de Trabalho da Tuberculose da Sociedade Portuguesa de Pneumologia acredita numa erradicação mais a longo prazo, até porque esta doença não atinge tanto os países ditos desenvolvidos.

Raio-X (RX) – Atualmente, qual a prevalência e a incidência de tuberculose em Portugal? E no mundo?

António Domingos (AD) – A incidência de tuberculose em Portugal, no ano de 2018, foi de 15,4 por 100 mil habitantes, e tem-se assistido a uma diminuição da notificação de tuberculose nos últimos anos, embora haja uma grande assimetria no nosso país. Os distritos de Porto e Lisboa, centros de elevada concentração populacional, têm uma taxa mais elevada, em 2018 estavam acima dos 20 casos por 100 mil habitantes e, por exemplo, só o concelho da Amadora atingia uma cifra superior a 40 casos por 100 mil habitantes. A maior parte dos casos de tuberculose em Portugal ocorre em população nativa, ao contrário do que ocorre na maioria dos restantes países da Europa Ocidental. Porém, a proporção de casos de tuberculose em pessoas nascidas fora do país tem vindo a aumentar ao longo dos anos, 19,2% em 2017 e 20,2% em 2018. É ainda de realçar a elevada taxa de infeção por VIH enquanto comorbilidade de risco para a tuberculose, além de outras como a diabetes, a doença pulmonar obstrutiva crónica e a doença neoplásica. Em termos mundiais, o relatório da tuberculose de 2018 da Organização Mundial de Saúde revelou o maior número de sempre de pessoas a receber tratamento para a doença – sete milhões. Contudo, no mesmo ano, esta doença foi responsável pela morte de 1,5 milhões de pessoas. Os grupos mais afetados são os das populações com menores rendimentos e aqueles em situações mais vulneráveis, incluindo as pessoas infetadas pelo VIH, para as quais a tuberculose é a principal causa de morte.

RX – Como se transmite esta doença?

AD – A tuberculose transmite-se por via aérea. Quando um doente com tuberculose respira, fala, tosse ou espirra pode libertar no ar grandes quantidades de bacilos, que conseguem ficar suspensos no ar durante várias horas.

RX – Qualquer pessoa corre o risco de contrair esta doença, mesmo que tenha tomado a vacina BCG em criança?

AD – A BCG não evita que a pessoa possa contrair a doença depois de vacinada, mas previne as formas graves e disseminadas na criança, como a meningite tuberculosa e tuberculose miliar.

RX – Quais os sintomas da tuberculose? 

AD – Na tuberculose pulmonar, a mais comum, há um acrónimo que os internos em Pneumologia aprendem para auxiliar a memória quanto aos principais sintomas: FEST. Febre vespertina, relativamente baixa ao final do dia, Emagrecimento, Sudorese noturna (suores) e Tosse persistente superior a mais de duas semanas consecutivas. Na tuberculose extrapulmonar existem queixas muito variadas, dependendo do órgão atingido.

RX – Qual o tratamento mais eficaz?

AD – O mais eficaz continua a ser o tratamento com medicamentos antibacilares em primeira linha, nomeadamente rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol. Contudo, as tuberculoses multirresistentes continuam a ser uma preocupação grande a nível mundial.

RX – O que pode ser feito para diminuir ainda mais os casos no nosso país?

AD – Isso assenta em dois pilares: diagnóstico precoce e tratamento adequado. Só com um diagnóstico precoce se consegue diminuir a infecciosidade do doente e a transmissão diminui com o tratamento da doença, enquanto o doente não for diagnosticado continua a transmitir. E o diagnóstico precoce depende de dois grandes fatores: a pessoa estar alerta para a sintomatologia e a realização de um exame de expetoração e uma radiografia do tórax a quem apresente os sintomas FEST (febre vespertina, emagrecimento, suores noturnos e tosse persistente) que não tenham justificação plausível; e, por outro lado, uma correta organização no tratamento da tuberculose, no sentido de ser atendido em zonas específicas para não estar junto de outros doentes que possa contagiar.

RX – Considera que a população em geral está devidamente informada acerca desta patologia?

AD – Em 24 de março de 1882, Robert Koch – perante a Academia de Ciências de Berlim – apresentou a descoberta do bacilo que causava a doença, daí assinalar-se este Dia. Ainda hoje há pessoas que falam da tuberculose como uma doença que já não existe, é tal e qual como aligeirarem a COVID-19. As pessoas aligeiram a COVID-19, erradamente, e algumas até a comparam com outras pandemias, como a da peste negra, afirmando que esta não é tão mortal. Este coronavírus há 500 anos tinha devastado a população mundial da mesma maneira que a peste negra. No entanto, repare que a COVID-19 não liquidará tantos doentes em África, por exemplo, porque a população é jovem, ainda morre muito pela sida, malária, febres hemorrágicas. Este novo coronavírus é fã de Darwin, poupa os jovens, as grávidas, e liquida os mais idosos e os doentes. É capaz de não ter a repercussão de outras doenças, mas os países desenvolvidos sucumbirem a uma pandemia destas é algo que nunca se pensou. É o mesmo com a tuberculose, no sentido de as pessoas não estarem, muitas vezes, informadas sobre esta patologia.

RX – Pode idealizar-se a erradicação da doença a médio prazo?

AD – Creio que não, muito provavelmente só a longo prazo. Há um longo caminho a percorrer para se conseguir erradicar a tuberculose. Basta dizer que para a COVID-19 todos vão tentar de tudo porque está a atingir os países mais desenvolvidos. A tuberculose ou a malária não lhes toca tanto, portanto, não se fazem tantos investimentos para permitir a erradicação. Acho que eventualmente será erradicada, mas mais a longo prazo.

RX – Por fim, que mensagem gostaria de deixar neste Dia Mundial da Tuberculose?

AD – A tuberculose continua a ser uma doença com elevada morbimortalidade, particularmente nos países em desenvolvimento, que têm mais dificuldades, países pobres. Mas mesmo nos países desenvolvidos não se pode baixar a guarda no combate a esta doença. O diagnóstico é fácil, tem tratamento eficaz, embora prolongado e com alguns efeitos secundários, e é importante apostar-se nisto para se conseguir diminuir os números e caminhar para uma erradicação da doença a médio-longo prazo.

Por Marisa Teixeira


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