Imagens chocantes ilustram maços de tabaco a partir de hoje

A partir de hoje, quem for comprar um maço de tabaco vai deparar-se com imagens realmente chocantes sobre os efeitos nocivos do fumo, frases de alerta e o número da linha de saúde 24 onde os fumadores podem requerer ajuda para a cessação tabágica.
O Raio-X desafiou quatro especialistas nacionais a comentarem esta medida, assim como o seu eventual impacto na redução do consumo de tabaco. Venceslau Hespanhol, em representação da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, Carlos Robalo Cordeiro, em representação da European Respiratory Society (ERS), Rui Costa pelo Grupo de Trabalho de Problemas Respiratórios (GRESP) da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, e António Araújo da PULMONALE – Associação Portuguesa de Luta Contra o Cancro do Pulmão.

RG-6481Raio-X – O tabagismo é uma doença?
Venceslau Hespanhol – O tabagismo é uma doença com uma característica especial que é o facto de ser recidivante. É uma doença que deriva de uma toxicodependência que condiciona o organismo a um determinado tóxico que, depois, não funciona bem sem ele. Sabemos hoje que a nicotina não é a substância mais nociva do tabaco, mas é aquela que induz dependência. O que faz mal, mesmo em termos da DPOC e de cancro, é a combustão e a conjugação de muitos químicos altamente tóxicos que causam lesões permanentes nos tecidos, nas células. É uma doença com repercussões sistémicas, capaz de causar danos em qualquer órgão.

RG-6524Raio-X – Considera que as medidas antitabágicas até agora assumidas no nosso país têm sido suficientes para reduzir o consumo de tabaco ou considera que há ainda muito a fazer?

Carlos Robalo Cordeiro – Há sempre algo mais a fazer no que respeita à epidemia tabágica. Um bom exemplo, que o nosso país não acompanha no imediato, é a implementação do chamado “plain package”, que significa os maços não terem marcas, apenas uma cor inexpressiva, para além das imagens gráficas que agora estarão visíveis.
Esta medida entrará hoje em vigor no Reino Unido, sendo que, na Austrália, esta estratégia fez já diminuir em mais de 6% a prevalência da população fumadora.
Razões para se acreditar na necessidade de se promover a saúde da população portuguesa, com maior coragem e de forma mais empenhada.

Costa, Dr. RuiRaio-X – Qual seria, na sua opinião, a medida que faria reduzir drasticamente o consumo de tabaco em Portugal?

Rui Costa – Na minha opinião a medida que faria reduzir drasticamente o consumo de tabaco em Portugal seria o aumento dos preços do tabaco, o qual deveria ser ajustado periódica e progressivamente tendo em conta a taxa de inflação, limitando assim o poder de aquisição pelos consumidores. Neste aspeto, sabe-se que os adolescentes e as classes sociais economicamente mais débeis são os grupos mais vulneráveis ao aumento dos preços, pelo que em Portugal esta seria uma determinante medida dissuasora do consumo, em especial nos jovens, evitando que estes iniciem o seu consumo regular. Igualmente, os preços mais elevados do tabaco contribuem para a redução do número de fumadores e fazem com que os que continuam a fumar reduzam seu consumo diário.

Araujo, Dr. Antonio (ONC IPO Porto)Raio-X – Na perspetiva dos fumadores, considera que esta medida vai “pesar nas consciências” ou, pelo contrário, vai fazer disparar a aquisição de bolsas e capas coloridas para mascarar as imagens chocantes
António Araújo – A experiência passada, quando foram colocadas frases que avisavam explicitamente sobre os malefícios do consumo de tabaco, e a experiência de outros países, que já introduziram imagens semelhantes, mostram que o impacto nos fumadores é relativamente pequeno. Os viciados em tabaco rapidamente se habituam ao que é, agora, considerado chocante e há sempre a desculpa que tal só acontece aos outros. Esta medida só é importante se adicionada a todo um outro conjunto de medidas, como a implementação dos conceitos de vida saudável nos curricula desde a escola primária, o aumento dos impostos sobre o tabaco, a proibição de venda a menores e do consumo em todos os locais fechados, a comparticipação dos medicamentos que ajudem a deixar de fumar, a facilitação de acesso a consultas de cessação tabágica e ações de sensibilização nos locais de trabalho para os adultos.


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