Impacto da COVID-19 no idoso, a importância da intervenção multidisciplinar

Manuel Teixeira Veríssimo, internista no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e presidente do Hospital da Figueira da Foz, partilha a sua visão sobre o impacto da COVID-19 nos seniores e o papel da multidisciplinaridade neste contexto.

Os idosos têm sido uma das populações que mais tem sofrido com o impacto da pandemia do SARS-COVID-19, não só pela sua maior suscetibilidade às complicações causadas pelo vírus, como pelo maior número de comorbilidades que apresentam e défices funcionais (p.e. funcionamentos dos órgãos e sistemas e reservas), fatores estes que têm um grande impacto no desenvolvimento e recuperação da doença.

Entre as duas principais áreas de atuação na saúde do idoso encontram-se a nutrição e a atividade física. Em relação à nutrição no idoso sabe-se que a desnutrição é um dos principais problemas nutricionais que afetam os idosos dos países desenvolvidos. Por outro lado, o exercício físico adequado e regular é particularmente importante neste grupo etário, uma vez que é um antagonista do envelhecimento e contribui para a manutenção da função locomotora no idoso.

No doente idoso em recuperação da COVID-19 podem desenvolver-se diferentes complicações decorrentes da doença e do internamento prolongado, como o cansaço e a incapacidade, a perda de peso e de massa muscular, o desenvolvimento de úlceras por pressão, a disfagia causada pela intubação prolongada, a desidratação, existindo muitas das vezes uma grande dificuldade em assegurar as necessidades nutricionais nestes doentes. O estado inflamatório provocado por esta doença, associado com o aumento das necessidades enérgicas e com um reduzido aporte alimentar e mobilização do doente, estão relacionados como desenvolvimento de problemas como a desnutrição e sarcopenia.

A intervenção no cansaço e incapacidade deve incluir estratégias de conservação de energia, o recondicionamento físico e respiratório, o tratamento da imobilidade, da desnutrição e da sarcopénia e a revisão da terapêutica do doente.

Para correção da desnutrição preconiza-se uma intervenção nutricional nestes doentes, de acordo com as suas necessidades nutricionais, via(s) de acesso e tolerância, como também a motivação, educação, socialização e adoção de estratégias antianorexia. Segundo as guidelines da ESPEN*(2019), recomenda-se um aporte calórico entre as 27 – 30kcal/ kg de peso dia que devem ser ajustados de acordo com o estado nutricional, nível de atividade física, estado de doença e tolerância do doente. No que diz respeito ao aporte proteico, as quantidades recomendadas devem variar entre as 1.0g-1.2g de proteína/kg de peso/dia para os idosos em geral, podendo chegar às 1.2g-1.5g de proteína/kg de peso/dia nos idosos com doença aguda ou crónica ou até 2.0 g de proteína/kg de peso/dia em caso de patologia severa.

Está também recomendado no doente idoso, quando não são atingidas as necessidades calóricas através da dieta estabelecida (<60% do valor energético diário), utilizar suplementos nutricionais orais (SNO), que vão ajudar a reduzir o risco nutricional e/ou desnutrição nestes doentes. O tratamento da sarcopenia está intimamente ligado com o tratamento da desnutrição, com especial foco no aporte proteico, como também no tratamento da imobilidade e implementação de exercícios de carga.

As estratégias de recondicionamento (exercícios de carga e aeróbios e de equilíbrio), reabilitação respiratória, funcional e da marcha devem ser consideradas para tratamento da imobilidade nestes doentes.

Quanto ao tratamento das úlceras por pressão, a intervenção deve envolver a utilização de pensos e mobilização do doente, bem como o tratamento da desnutrição e suplementação com arginina. As recomendações da EPUAP2(2019) apontam para uma terapêutica nutricional com SNO hiperproteicos e hipercalóricos, com arginina (9g/dia) e zinco, para doentes com úlceras por pressão a partir do grau II e/ou desnutridos e/ou com risco de desnutrição.

Para corrigir o problema a disfagia pode ainda recorrer-se ao uso de agentes espessantes ou de água gelificada ajustados ao grau de disfagia, e que permitem garantir a adequada hidratação diária do doente.

Em suma, a intervenção interdisciplinar nestes doentes é fulcral para tratar os diferentes sintomas, patologias e síndromes geriátricas, e assim contribuírem para a recuperação da doença e para o retorno às atividades de vida diárias tanto quanto possível.

*ESPEN – European Society for Clinical Nutrition and Metabolism

**EPUAP – European Pressure Ulcer Advisory Panel


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