Podemos tratar a osteoporose? Devemos tratar a osteoporose!

A osteoporose caracteriza-se por ser uma doença silenciosa que vai reduzindo a densidade óssea, aumentando o risco de fraturas. Estima-se que atinge cerca de meio milhão de portugueses, em particular mulheres acima dos 50 anos, e é responsável por cerca de 50 mil fraturas por ano só em Portugal. No âmbito deste tema partilhamos um artigo de opinião de José Canas da Silva, Reumatologista, Chefe de Serviço, Diretor Clínico da Consulreuma (Consultores em Reumatologia e Osteoporose de Lisboa).

A osteoporose é uma patologia que, atualmente, está a cair em esquecimento, como acontece com muitas outras doenças crónicas ofuscadas pelo surto pandémico do Sars-cov 2. É crescentemente um problema de saúde pública pela dimensão e pela gravidade que vem assumindo. O envelhecimento crescente da nossa população, os sucessivos confinamentos, o isolamento social que daí adveio, o menor recurso aos cuidados médicos e medicamentos, a menor utilização dos fármacos, sobretudo de uso crónico, colocou em evidência uma situação grave com uma tendência que se acentua para as doenças crónicas como é o caso da osteoporose.

O aspeto crucial da osteoporose são as fraturas, sendo a da anca a mais grave pelas consequências imediatas e mediatas, referindo que ocorrem no nosso país, anualmente, cerca de 12 000 fraturas da anca, com uma mortalidade que oscila dos 15% aos 20% no decorrer do primeiro ano. Além disso, existe hoje um crescente gap no tratamento da osteoporose, que pode ser definido com a diferença entre o número de doentes que são elegíveis para serem tratados de acordo com as normas publicadas e aqueles que são efetivamente tratados. Esta diferença, num conjunto de sete países europeus é de 73% para as mulheres e de 63% para os homens. Se estes doentes fossem atempadamente tratados, um número considerável de fraturas e de mortes poderia ser evitado, ou seja, tem havido um esquecimento dos doentes e alguma negligência.

Para contextualizar o problema, podemos dizer que uma em cada três mulheres e um em cada cinco homens, acima dos 50 anos, vai sofrer uma fratura osteoporótica. Além disso, sabemos ainda que um em cada cinco doentes irá ter uma segunda fratura nos seguintes 6 a 12 meses após a primeira fratura. As fraturas osteoporóticas representam assim, para a população mais idosa, um dos problemas mais importantes da sua saúde, que continua a agravar-se face ao aumento da população mais idosa no conjunto da nossa população. Este cenário implica que na ausência de tratamento ou prevenção nestas idades e de políticas concertadas, que visem a diminuição do risco para as doenças crónicas não transmissíveis, teremos uma verdadeira tempestade formada, como será o caso com a osteoporose.

Olhar para o futuro na osteoporose:

A previsão para os próximos anos é de um aumento de 20% a 30% das fraturas do colo femoral até 2030; face a este panorama importa perguntar o que se poderá fazer. E a realidade é que é possível dar um grande passo em frente, com linhas de orientação claras para o diagnóstico, para a prevenção e para o tratamento da osteoporose. Idade que existem igualmente tratamentos comprovadamente eficazes quer na prevenção quer no tratamento dos doentes com risco iminente de fraturas, temos ferramentas, conhecimentos adequados e estruturados para combater a doença.

Podemos assim fazer mais e melhor. Afinal, não nos podemos esquecer, que a mortalidade e a morbilidade associada às fraturas da osteoporose, acompanha-se de encargos enormes para o Serviço Nacional de Saúde, não só pelas despesas imediatas decorrentes de internamentos e cirurgias, mas também da necessidade para que um grande número de doentes possa voltar a ter uma vida próxima do que tinham previamente, de cuidados continuados de auxiliares de marcha, de medicina física e de reabilitação e de cuidados adequados do ponto de vista médico e de assistência social. E mesmo assim muitos não recuperam a sua independência, muitos nem sequer recuperam a sua anterior qualidade de vida.

A regra para muitos doentes é a perda de independência, a necessidade de apoios sociais e financeiros permanentes e muitas vezes a passagem para lares da 3ª idade ou o recurso aos cuidados continuados. Importa, pois, prevenir, diagnosticar e tratar estes doentes sobretudo os que estão em risco de fratura iminente. Reforçando que chega a ser escandaloso o número impressionante de doentes que tem alta hospitalar sem nenhum tratamento para a osteoporose depois de terem tido uma fratura osteoporótica e ter sido esse o motivo do seu internamento!

É assim imperioso implementar nos hospitais estruturas de ligação entre as unidades de ortopedia que tratam em geral estes doentes com fratura da anca e as unidades especializadas no seguimento destes doentes a prazo, por exemplo as Fracture liaison services como já existem no Centro Hospitalar da Universitário de Coimbra e mais recentemente em Aveiro. Infelizmente os hospitais não têm tido as direções apropriadas com gestores preparados para assessorar médicos e não o contrário. O SNS precisa de ter mais médicos na sua gestão e um financiamento adequado ao seu funcionamento e contrapartidas contributivas para os seus profissionais cuja resiliência não é demais sublinhar.


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