Projeto da AICSO visa melhorar a vida dos doentes oncológicos

Partilhamos um artigo de opinião de Joana Marinho, da Associação de Investigação de Cuidados de Suporte em Oncologia (AICSO), que apresenta o projeto da AICSO: “Implementation of Geriatric assessment and management for older adults with cancer in clinical care”, de forma a que este chegue a mais doentes que dele possam beneficiar. 

O projeto Implementation of Geriatric assessment and management for older adults with cancer in clinical care da Associação de Investigação de Cuidados de Suporte em Oncologia (AICSO) foi premiado com uma bolsa da Sanofi no âmbito do concurso When Cancer Grows Old (WCGO). WCGO é um programa de financiamento destinado a organizações sem fins lucrativos que trabalham para melhorar a jornada do doente com cancro, abordando os desafios do cancro e do envelhecimento, com o objetivo de promover a melhoria da qualidade de vida. Na edição de 2021, a Sanofi reconheceu 40 projetos, cinco são portugueses.

O doente idoso é uma realidade na consulta de Oncologia, reflexo do envelhecimento da população. Com o aumento da esperança média de vida, estes números têm tendência a aumentar nas próximas décadas. A Oncologia Geriátrica caracteriza-se por uma abordagem multidimensional e multidisciplinar do idoso com cancro nas diferentes etapas da doença.

Os idosos com cancro são uma população muito heterogénea e com necessidades particulares. A abordagem do idoso compreende a avaliação de uma multiplicidade de variáveis que irão influenciar tanto a expressão da doença oncológica como a estratégia terapêutica personalizada a implementar.

No doente idoso a decisão terapêutica não deve ser baseada exclusivamente na idade cronológica, mas sim no estado fisiológico, situação funcional e cognitiva e no risco/benefício esperado com os tratamentos. A prestação de cuidados mais personalizados a esta população enfrenta vários obstáculos nos sistemas de saúde, relacionados com custos elevados, falta de recursos logísticos e humanos, entre outros. Tradicionalmente os doentes idosos são excluídos dos ensaios clínicos por serem uma população frágil, ou quando incluídos representam claramente uma minoria. Esta baixa representatividade contribui para que a evidência clínica acerca da eficácia e tolerância dos tratamentos antineoplásicos seja pouco robusta, levando muitas vezes a toxicidades inesperadas e benefícios marginais.

A avaliação geriátrica global é um instrumento de diagnóstico multidimensional e multidisciplinar realizado para recolher informações médicas, psicossociais e funcionais do doente idoso, com vista à identificação de vulnerabilidades. A informação recolhida é utilizada pelos profissionais de saúde para desenvolver um plano integrado de tratamento e acompanhamento. Esta abordagem multidisciplinar e abrangente requer o envolvimento de vários profissionais de saúde incluindo oncologistas, geriatras, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, psicólogos, farmacêuticos, entre outros. A identificação de fragilidades na avaliação geriátrica permite a implementação de intervenções personalizadas, resultando na melhoria dos cuidados prestados. A avaliação geriátrica global no doente idoso com cancro está recomendada pelas principais guidelines internacionais. Em 2020, vários ensaios clínicos randomizados de fase 3 mostraram pela primeira vez que a avaliação geriátrica e intervenções guiadas por esta nos domínios afetados, reduziam a toxicidade dos tratamentos antineoplásicos, com melhoria na qualidade de vida dos doentes, representando assim uma mudança de paradigma.

O projeto premiado tem como objetivo principal a implementação de cuidados personalizados de qualidade ao doente idoso com cancro em contexto hospitalar. Pretende-se desenvolver um circuito para o doente oncológico idoso frágil, com implementação de uma consulta de Oncogeriatria onde através de ferramentas de avaliação geriátrica de triagem, avaliação geriátrica global, avaliação neurocognitiva e scores de previsão de toxicidade ao tratamento sistémico, se possa estabelecer um plano terapêutico adequado e caso necessário um plano de reabilitação. O cuidado personalizado e centrado no doente pretende aumentar a resiliência do mesmo, e a sua capacidade em tolerar os tratamentos ou prevenir declínios funcionais ou cognitivos, promovendo uma melhoria da qualidade de vida e bem-estar dos nossos idosos. A implementação deste projeto piloto pretende assim demonstrar que com os recursos existentes é possível prestar cuidados mais individualizados aos nossos idosos.

Este projeto enquadra-se na missão da AICSO, associação sem fins lucrativos que se dedica à investigação, implementação e qualificação profissional em cuidados de suporte baseados em evidência em Oncologia. Otimizar os cuidados de suporte, centrados no doente que vive com e para além do cancro é a sua missão primordial.


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