“Quem sofre desta doença refere que a psoríase constitui uma limitação à sua vida social, profissional e sexual”

Assinala-se em 29 de outubro o Dia Mundial da Psoríase, uma doença crónica, com manifestação principalmente cutânea, que afeta 200 000 portugueses. Em entrevista ao Raio-X, Pedro Mendes Bastos, especialista em Dermatologia e Venereologia, comenta esta patologia e o seu impacto na qualidade de vida dos doentes, que referem a psoríase como uma limitação nas suas vidas, bem como a existência de algum estigma associado.

O que é a psoríase?

A psoríase é uma doença frequente e com elevado impacto na qualidade de vida. É uma das doenças mais investigadas da Dermatologia, tendo o paradigma da sua abordagem mudado bastante nos últimos anos. É uma doença com manifestação maioritariamente cutânea, mas, principalmente nas formas moderadas a graves, devido à inflamação sistémica que a caracteriza, falamos já de um conceito mais amplo: a doença psoriática. A psoríase pode acarretar, desta forma, comorbilidades como o envolvimento musculoesquelético e maior risco de doença cardiovascular e perturbações de ansiedade ou depressão.

Qual a sua prevalência no nosso país? E no mundo?

Estima-se que a prevalência da psoríase seja de aproximadamente 2% da população. Assim, calcula-se que existam em Portugal 200.000 pessoas com este problema. A sua prevalência nas diferentes geografias parece aumentar à medida que nos afastamos do equador e nos aproximamos dos polos, ou seja, em climas mais frios e com menos exposição solar a psoríase parece ser mais frequente.

Quais as principais causas?

A psoríase é uma doença imunomediada, isto é, resulta de um erro no sistema imunitário que favorece o seu aparecimento. Assim, não é possível

identificar uma causa específica, pois é uma doença complexa e multifatorial que depende da interação de fatores genéticos (tendência genética) e fatores ambientais (infeções, medicamentos, stresse entre outros).

Como se manifesta?

A psoríase envolve tipicamente o couro cabeludo, cotovelos ou joelhos, podendo também ser disseminada por toda a pele. Em outros casos, pode surgir apenas em áreas limitadas. A área genital ou palmas das mãos e plantas dos pés são também localizações possíveis. As lesões na pele são rosadas, espessas ao toque e frequentemente são descamativas, ou seja, libertam escamas esbranquiçadas. As lesões vulgares são as placas, mas podem também surgir pápulas ou pústulas. Pode aparecer em qualquer idade, mas habitualmente surge aos 20-30 anos ou 50-60 anos.

Quais os fatores de risco associados à psoríase?

O principal fator de risco é a tendência genética. De acordo com os estudos, apenas 1/3 das pessoas com psoríase tem familiares afetados pela mesma doença. Por vezes, esta tendência genética não é traduzida em familiares com psoríase, mas sim com outras doenças imunológicas como a Doença de Crohn, espondilartropatias, vitiligo, etc.

Qual o diagnóstico diferencial e qual deve ser a melhor abordagem por parte do médico?

O diagnóstico diferencial é amplo e varia de acordo com a heterogeneidade clínica que a psoríase engloba. Falamos de situações tão díspares como dermatite seborreica, candidíase cutânea, dermatite atópica, entre outros. É importante sublinhar que na maioria dos casos a apresentação clínica da psoríase é paradigmática e o seu padrão crónico-recidivante ajuda o clínico no diagnóstico.

E quais os tratamentos atualmente disponíveis?

Nunca como hoje existiram tratamentos tão eficazes para a psoríase. O melhor tratamento é o tratamento personalizado que melhor se adeque a cada caso e a cada doente. Além dos medicamentos tópicos ou fototerapia (principalmente fototerapia UVB de banda estreita), os casos moderados a graves irão beneficiar de tratamentos sistémicos, sejam eles orais, como os clássicos metotrexato, ciclosporina ou acitretina, ou injetáveis como os tratamentos biotecnológicos. Nos últimos anos, os sucessivos dados de eficácia e de segurança, quer de registos de vida real, quer dos ensaios clínicos, posicionaram os biotecnológicos como opções terapêuticas verdadeiramente inovadoras. Por serem anticorpos monoclonais que antagonizam interleucinas específicas e cruciais na fisiopatologia da psoríase, alcança-se grande capacidade de controlo da doença na pele e articulação, bem como um perfil de efeitos adversos extremamente reduzido.

Os profissionais de saúde estão sensibilizados para esta problemática? E a população em geral?

Todos os médicos conhecem a psoríase, mas a desvalorização dos sinais e sintomas por parte da sociedade e dos protagonistas dos cuidados de saúde pode por vezes gerar frustração e insatisfação entre os pacientes. Disseminar informação científica válida e incentivar a formação dos médicos das diferentes especialidades é fundamental. Quanto à população geral, as várias campanhas de sensibilização para a psoríase têm chamado a atenção para a doença e seus tratamentos pelo que o caminho tem progressivo no sentido de trazer maior visibilidade a este problema.

Existe ainda algum estigma em relação à psoríase?

Apesar de toda a informação disponível, quem sofre desta doença ainda refere de forma frequente que a psoríase constitui uma limitação à sua vida social, profissional e sexual. As dermatoses crónicas acarretam consigo um estigma importante, importando sublinhar que a psoríase não é contagiosa e tem tratamento. Em pleno século XXI, a discriminação face a quem sofre de psoríase não é aceitável.

Por Marisa Teixeira


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