“Se queremos ter uma melhor Medicina e uma melhor saúde a um menor custo, temos de pensar One Health”

A propósito do 16.º Congresso Internacional Veterinário Montenegro, que vai decorrer no Europarque, em Santa Maria da Feira, nos próximos dias 21 e 22 de fevereiro, o Raio-X entrevistou Luís Montenegro, fundador deste encontro científico. Além de comentar a evolução desta iniciativa ao longo dos anos, o diretor do Hospital Veterinário de Montenegro falou sobre as novidades desta edição, bem como dos desafios atuais da Medicina Veterinária e da sua influência na saúde humana.

Raio-X (RX) – Com que objetivo foi criado o Congresso Veterinário Montenegro e qual o balanço destes 16 anos?

Luís Montenegro (LM) – Quando iniciámos, há 16 anos, este modelo de congresso foi muito inovador, não se fazia nada do género em Portugal. Assim, conseguimos desde a primeira edição o apoio de vários patrocinadores, e muitos deles continuaram todos os anos a contribuir para que continuássemos edição após edição. Tentamos sempre trazer a Portugal os melhores experts nacionais e internacionais, mas num formato de baixo custo. Tivemos desde o princípio uma grande adesão por parte dos colegas, o que muito nos motivou, até porque valorizaram, e continuam a valorizar, o facto de a classe veterinária portuguesa ter “dentro de casa” uma formação de qualidade. Entretanto, começámos a ter uma percentagem significativa de colegas espanhóis, principalmente da Galiza. Temos vindo a crescer, mantendo a qualidade e o networking, e chegamos sempre ao fim de cada congresso com o espírito de missão cumprida. Neste momento, é um dos dois maiores congressos de Medicina Veterinária que se faz na Península Ibérica, o que nos deixa bastante orgulhosos. De frisar também o número de trabalhos científicos que serão apresentados neste ano (cerca de 150, que envolveram entre 300 a 400 pessoas), portanto, outra grande mais-valia deste encontro anual é a hipótese de estimular a investigação, tanto em Medicina como em Enfermagem Veterinária.

RX – Nesta 16.ª edição, o Congresso ganha o estatuto de internacional. Chegar além-fronteiras e contar com cada vez mais experts internacionais foi sempre um propósito da organização?

LM – Sim. Começamos a ter alguma possibilidade de trazer pessoas além da Península Ibérica.  Atualmente, temos cerca de 50 inscritos de outros países europeus. Além disso, estamos a apostar muito no que respeita a parcerias e divulgação na América Latina, especialmente o Brasil, pois consideramos que podemos dar um grande contributo para que a Medicina da América Latina possa beneficiar deste evento. A distância não facilita, mas já temos alguns brasileiros e colombianos inscritos nesta edição, é um começo. Assim, considerámos importante passar a designar o congresso como internacional, fizemos mais promoção fora de portas e apostámos na tradução em simultâneo para inglês e castelhano para atrair pessoas de todo o mundo.

RX – “Inovação & Desenvolvimento Sem Segredos” dá o mote à edição deste ano. O que levou à escolha deste tema e quais os principais assuntos em debate?

LM – Em todas as edições fazemos um inquérito de opinião para saber o que os congressistas gostariam de ver discutido no ano seguinte, refletimos muito sobre como o mercado está a evoluir e concluímos que há áreas da Medicina que estão a ter agora uma evolução mais acelerada, áreas emergentes que poderiam possibilitar uma revisão sobre as mesmas, pois atualmente a Medicina pressupõe o diagnóstico e o tratamento, mas com o mínimo de invasão possível, para uma menor morbilidade, recuperação mais rápida, etc. Por exemplo, na cirurgia, estamos cada vez mais a utilizar técnicas que possibilitam o acesso ao órgão de uma forma muito menos invasiva. Outro grande desenvolvimento no diagnóstico refere-se à imagem avançada, nomeadamente da TAC e da RM, porque com pouca agressão ao organismo conseguimos obter muito mais informação. Portanto, a cirurgia minimamente invasiva e a imagem avançada são as áreas que mais se têm expressado como inovadoras e alterado a nossa prática diária, daí serem focos deste Congresso.

RX – A grande novidade deste ano é a sala One Health, em que se vai discutir, entre outros assuntos, a ligação entre a Medicina animal e a humana. Qual a importância da prática de “Uma só saúde”?

LM – A própria OMS dá orientações neste sentido, para que a saúde seja uma única. E verifica-se, por exemplo, com o aparecimento do recente coronavírus, que se queremos ter uma melhor Medicina e uma melhor saúde a um menor custo, temos de pensar One Health. Este coronavírus surge num local onde o ambiente é muito descurado, e, consequentemente, com condições higiénico-sanitárias fracas. Por outro lado, vê-se que a importância da salubridade da conservação de alimentos é extremamente importante. O coronavírus faz a translocação de animais selvagens para o ser humano porque não foram cumpridas as regras higiénico-sanitárias e não houve controlo veterinário nessa carne de consumo. Se houvesse uma política ativa “One Heath”, seria bastante provável que o problema do Coronavírus nunca tivesse surgido, ou, pelo menos, controlado de forma muito mais célere. A sala One Health despertará muitas consciências e acredito que nos ajudará a desenvolver este conceito, que possivelmente será o futuro da Medicina e da Saúde, por forma a garantir melhores resultados a menos custos.

RX – Atualmente, quais os principais desafios da Medicina Veterinária?

LM – Os nossos principais desafios vão continuar a ser os de sempre. Conseguir tratar os animais de forma sustentável e, acima de tudo, tratá-los com dignidade e tendo como sempre no topo da nossa orientação a ausência de dor e sofrimento. A Medicina Veterinária nisso é um exemplo, inclusive para a medicina humana, nomeadamente em práticas habituais relacionadas com situações terminais, em que, quando não há mais nada que medicamente se possa propor, a eutanásia pode ser praticada, evitando o sofrimento atroz.

RX – A Medicina humana deveria seguir o exemplo da Medicina Veterinária no que se refere à eutanásia?

LM – Há diferenças que têm de ser consideradas, mas já na atualidade muitos tentam perceber melhor o que isso significa e como pode ser praticado, e perguntam-nos como o fazemos e quais os critérios que seguimos. Na Medicina Veterinária podemos propor essa alternativa depois de excluirmos possibilidades de tratamento. Dessa forma conseguimos pelo menos evitar horas, dias, meses de sofrimento em situações terminais, sendo de frisar que não há nenhum veterinário que faça uma eutanásia a pedido, embora a decisão final seja sempre do tutor. Existem barreiras culturais, religiosas, entre outras, que têm de ser consideradas e nenhuma delas desvalorizadas. É mais um assunto que faz sentido discutir na sala One Health.

RX – Nos últimos anos a consciência para os problemas da causa animal tem vindo a crescer. O papel dos veterinários tem sido relevante neste campo?

LM – Sim, os veterinários têm tentado acompanhar esta nova era cultural, em que se consciencializou toda a sociedade para o facto de os animais não serem coisas, mas sim seres sencientes e que devem ser tratados com dignidade e respeito, não descurando o sofrimento e a dor. Para que isto fosse possível, o papel dos media ao longo dos últimos 20 anos foi de extrema importância, porque foram denunciando más práticas, ajudando a criar uma consciência social sobre o tema. Neste sentido, também temos de agradecer à classe política, que possibilitou o enquadramento legal para que esta situação tivesse mudado em relativamente pouco tempo.

RX – Nestas matérias, o que gostaria de ver incrementado?

LM – Temos de ter em conta a importância da Medicina Veterinária, inclusive para a saúde humana. Porém, os impostos são bastante caros, pois é uma atividade taxada a 23% de IVA. Se pudesse haver uma diminuição no IVA, a Medicina Veterinária tornar-se-ia mais acessível aos tutores, e isso seria uma evolução positiva.

Por Marisa Teixeira

 


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