Violência Doméstica em tempos de COVID-19

Estudo que procurou analisar a violência doméstica psicológica, física e sexual autorreportada durante a pandemia, revela 15% de ocorrência de violência doméstica no domicílio e que 34% das vítimas sofreu violência doméstica, pela primeira vez, durante a pandemia. Os resultados preliminares do projeto VD@COVID19 são apresentados nesta quarta-feira em sessão online, transmitida em direto pelo canal de Youtube da Escola Nacional de Saúde Pública.

O contexto de pandemia e o efeito das medidas de combate à propagação do vírus nos determinantes sociais e de saúde potenciam o risco de violência doméstica. Com vista a conhecer o fenómeno, o projeto de investigação “VD@Covid19” recolheu, entre abril e outubro de 2020, um total de 1062 respostas a um questionário online dirigido à população. O desenho do estudo levou a uma maioria de respondentes com ensino superior, o que permitiu incluir grupos sociais que frequentemente têm menor participação em estudos de violência doméstica.

Os resultados preliminares indicam que, em tempos de COVID-19, a ocorrência de situações de violência é uma realidade em Portugal com 15% (n=159) dos participantes a reportar ocorrência de violência no seu domicílio e um terço das vítimas (34%) ter sofrido violência doméstica, pela primeira vez, durante a pandemia.

São as pessoas do género feminino quem mais reporta ser vítima de violência doméstica (15,5% das pessoas do género feminino) durante este período, contudo este fenómeno é também reportado por 13,1% de pessoas do género masculino.

O tipo de violência mais relatada é a psicológica (13,0% / n=138), seguindo-se a sexual 1% (n=11) e a física0,9% (n=10), existindo coocorrência de diferentes tipos de violência.

A pandemia e o efeito das medidas de combate à propagação do vírus nos determinantes sociais e de saúde, como o agravamento das desigualdades socioeconómicas, nos consumos de álcool, medicamento e drogas e nos sentimentos de mal-estar e stress, potenciam o risco de violência doméstica.

Este fenómeno, ainda que transversal a todos os grupos etários e níveis de escolaridade, tem especial relevo nos mais jovens e menos escolarizados. São também as pessoas que reportam dificuldades económicas ou cuja atividade profissional foi prejudicada pela pandemia quem mais refere ser vítima de violência doméstica.

O estudo indica que a maioria das vítimas de violência doméstica não procura ajuda nem a denuncia (72%). Os principais motivos para tal são considerar a ajuda desnecessária, que a ajuda não alteraria a situação e sentir-se constrangido com a situação ocorrida. Já os principais motivos para não ter denunciado a situação às autoridades policiais incluem considerar que o abuso não foi grave e acreditar que as autoridades não fariam nada.

As vítimas de violência doméstica que procuraram ajuda fizeram-no, na sua maioria, junto de profissionais de saúde mental. Globalmente, quem procurou ajuda, avaliou, de forma positiva, a resposta que recebeu.

“Os resultados deste estudo apontam para uma complexidade na ocorrência de violência doméstica e de género em tempos de COVID-19, pelo que existem pontos que carecem de maior aprofundamento, como por exemplo, o perfil de vítima e tipo de violência, novas vítimas, e distribuição geográfica. É ainda de salientar que parece haver sinais de um aumento de casos não reportados oficialmente, considerando o facto de a grande maioria das vítimas em tempos de COVID-19 não ter procurado ajuda ou denunciado”, refere Sónia Dias, docente e investigadora da ENSP-NOVA e Coordenadora do estudo.

É, por isso, relevante continuar os esforços de recolha, análise, integração e divulgação de dados sobre a violência doméstica, a sua caracterização e seus impactos, contribuindo para uma melhor definição de políticas públicas e planos de ação ao nível da prevenção e combate à violência doméstica e eficaz apoio às vítimas na atual situação de pandemia.

“Perante a atual realidade será relevante o continuar dos esforços para o planeamento e implementação de ações concretas de intervenção para o combate a todas as formas de violência doméstica e de género, bem como agilizar estratégias de proteção das vítimas em tempo de COVID-19, áreas que são acrescidas de maior dificuldade pelo contexto de pandemia”, conclui Sónia Dias.

 


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