Dia Mundial do Coração: “A principal lacuna está no acesso à reabilitação cardíaca”

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No Dia Mundial do Coração o Raio-X entrevistou o médico Hélder Pereira, Diretor do Serviço de Cardiologia do Hospital Garcia de Orta, em Almada, e também coordenador da iniciativa “Stent Save a Life” (SSL) na Europa e na Rússia. Com ele falamos sobre prevenção cardiovascular, sobre os objetivos da inciativa SSL e também sobre a atitude a tomar em caso de suspeita de enfarte.

As doenças cardiovasculares mantêm-se como a principal causa de morte em Portugal. De acordo com a campanha “Stent Save a Life – Não perca tempo. Salve uma Vida”, promovida, em Portugal, pela APIC, mais de dois terços da população portuguesa não conhece quais são os sintomas de enfarte do miocárdio e só um terço dos doentes utiliza o 112 para ser encaminhado para um hospital e ter a assistência médica mais adequada.

 

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Raio-X (RX) – Do ponto de vista epidemiológico qual a patologia cardíaca que inspira mais preocupação?

Hélder Pereira (HP) – Presentemente a patologia cardíaca que inspira mais preocupações é o enfarte do miocárdio, pois é uma patologia que continua a afetar milhares de portugueses. Está nas nossas mãos conseguir reduzir a mortalidade atual causada por esta doença.

 

RX – O que falta fazer no âmbito da prevenção?

HP – Na prevenção primária, isto é, na prevenção destinada à população em geral, creio que se tem progredido muito. Quer as sociedades científicas, quer o Ministério da Saúde, têm levado a cabo muitas iniciativas educacionais que têm ajudado as pessoas a saber mais sobre hábitos de vida mais saudáveis. Também a Medicina Geral e Familiar tem tido um importante papel na redução desta patologia, não só através do ensino e acompanhamento dos doentes, como no tratamento da hipertensão, diabetes, prevenção da obesidade, etc.

Relativamente à prevenção secundária, isto é, após o doente ter sofrido um enfarte, também temos acesso às mais modernas terapêuticas que se têm revelado eficazes na redução de novos eventos.

A principal lacuna está no acesso à reabilitação cardíaca. Neste aspecto ainda temos um longo caminho a percorrer, pois presentemente apenas 8% dos nossos doentes têm acesso a programas de reabilitação cardíaca. Temos que fazer muito mais.

 

RX – Qual é a principal missão da iniciativa “Stent Save a Life”?

HP –  A missão do Stent Save a Life é a redução da mortalidade por enfarte do miocárdio através do acesso à melhor terapêutica atual para o enfarte, tendo por objectivo que a maioria dos doentes tenham acesso à angioplastia primária. Importa explicar em que consiste este tratamento. A angioplastia primária é uma técnica que se realiza em hospitais especializados em tratar o enfarte e que consiste em fazer passar um minúsculo tubo plástico, chamado cateter, que entra por uma artéria periférica do braço ou da virilha e que vai até ao coração de forma a podermos injetar um produto chamado contraste e que nos vai permitir diagnosticar qual a artéria que está obstruída. Depois, através de um pequeno balão, abrimos a artéria e então implantamos uma pequena prótese metálica, chamada stent e que permite restabelecer o fluxo sanguíneo nessa artéria. Se este procedimento for realizado precocemente o coração recupera praticamente na totalidade, mas se for realizado tardiamente podem ficar importantes sequelas ou mesmo o doente falecer.

A atitude correta, perante uma suspeita de enfarte, é ligar para o 112 o mais rápido possível, pois através desta chamada temos acesso direto ao INEM que nos conduz direta e rapidamente para os hospitais especializados em angioplastia primária

Como nem todos os hospitais dispõem desta técnica, os doentes com suspeita de enfarte não se devem dirigir pelos seus próprios meios para o hospital, pois correm o risco de haver a necessidade de terem que ser transferidos depois para um outro hospital, o que acarreta uma perda de tempo e aumenta o risco de mortalidade. A atitude correta, perante uma suspeita de enfarte, é ligar para o 112 o mais rápido possível, pois através desta chamada temos acesso direto ao INEM que nos conduz direta e rapidamente para os hospitais especializados em angioplastia primária.

 

RX – A prevenção também faz parte dos vossos objetivos?

HP –  A prevenção faz claramente parte dos nossos objectivos. Um dos aspetos em que o anterior projeto “Stent for Life” em que Portugal se distinguiu dos seus parceiros de programa, foi ter posto a prevenção na ordem do dia. O projeto Stent Save a Life está focado no momento do enfarte, com o objectivo do doente receber atempadamente a melhor terapêutica atual para o enfarte, isto é, a angioplastia primária. Mas, para além disso, temos vindo a desenvolver programas que visam a prevenção primária, isto é, prevenir o desenvolvimento da doença, e a prevenção secundaria: reforçar que depois do enfarte se adoptem estilos de vida saudáveis e que os doentes tenham acesso à reabilitação cardíaca. No âmbito dos grupos de estudo e das associações da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, estabelecemos protocolos com a Ordem dos Farmacêuticos, em que programas educacionais são levados até às escolas secundárias no sentido de transmitir aos mais jovens noções de prevenção das doenças cardiovasculares.

No momento do enfarte há que dar ao doente o melhor tratamento possível, mas depois devemos ajudá-lo a que a doença não progrida e que o enfarte não recorra.

 

RX – Que mensagem quer deixar ao público neste Dia Mundial do Coração?

HP –   Não posso deixar de transmitir as duas principais ideias da nossa campanha “NÃO PERCA TEMPO – SALVE UMA VIDA”: no caso de suspeita de enfarte, isto é, na presença de dor, aperto ou sensação de peso no peito, por vezes acompanhado de irradiação ao pescoço, braços e costas, não perca tempo e peça ajuda de imediato. A segunda ideia fundamental, é que no caso de suspeita de enfarte, não vá para o hospital pelos seus próprios meios. Peçam sempre ajuda através do 112. Ligar 112, significa contactar o INEM e ter via direta, a chamada Via Verde, aos hospitais especializados em tratar o enfarte.

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