A importância da liderança e da comunicação em tempo de pandemia

Luís Cortez, diretor do Departamento de cirurgia do Centro Hospitalar de Setúba, faz uma reflexão sobre a importância da liderança e da comunicação no contexto atual que vivemos.

Liderança e comunicação eficientes são fundamentais em qualquer processo governativo, em particular nas situações de crise, que podem ser materializadas de diversas formas. Apesar da atual pandemia apresentar vários aspetos desconhecidos e da falta de preparação prévia dos intervenientes, podemos afirmar que liderança e a comunicação têm falhado a vários níveis, tendo também em consideração o impacto que as decisões tomadas têm na vida da população.

Em primeiro lugar, importa definir as funções e os objetivos destas. A Liderança deve ter a capacidade de influenciar as pessoas, levando-as a empenharem-se e comprometerem-se voluntariamente perante determinados objetivos e metas. O papel da Liderança em tempos de crise é essencial para manter o equilíbrio, sendo para isso fundamental uma comunicação clara e orientadora. Liderança e Comunicação estão intrinsecamente ligados.

Consideremos então que a Comunicação deve ter como objetivo criar valor para as “partes interessadas (“Stakeholders”), ajudando a criar uma opinião informada, fidedigna e que estabeleça um clima de confiança propícia ao diálogo e participação, proporcionando diversos benefícios para todas as partes (Azevedo, Franco, Menezes – 2010).

Existem diferentes formas de abordar uma crise. No entanto, durante o contexto pandémico, Liderança e Comunicação têm por vezes ficado aquém do esperado. Exemplos disto são alguns dos enunciados por parte da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Direção Geral da Saúde (DGS), como ter sido considerada inicialmente uma infeção por SARS-CoV-2 confinada à China, o uso de máscaras, a data da declaração de Pandemia e a crescente gravidade da situação até esta ter implodido em Itália, etc. Um outro exemplo são as determinações variáveis por parte do governo português quanto ao confinamento/desconfinamento. Ao contrário de outros países, como Nova Zelândia, Dinamarca ou Noruega, onde foram estabelecidos e mantidos vários níveis de restrições, informando e explicando a situação à população e quais as medidas decorrentes a implementar de acordo com a planificação efetuada, o mesmo não se registou em Portugal.

Naturalmente, estes aspetos refletiram-se nas instituições prestadoras de cuidados de saúde a vários níveis da sua organização. Podemos considerar o caso de muitos hospitais, que não conseguiram preparar-se previamente (planos de catástrofe alterados para tentar responder aos doentes com Covid-19, desvios autoritários e censuradores). Apenas no dia 11 de março de 2020 é que o Primeiro-Ministro enunciou um plano estruturado de desconfinamento.

A Comunicação tem sido insuficiente, uma vez que se torna absolutamente necessário justificar junto da população quais os motivos que levaram à tomada de determinada decisão. Mas esta insuficiência deve-se também, em parte, aos recetores (media e população em geral). Isto é, deve-se em parte ao grau de exigência destes e de aceitação da informação prestada, sendo transversal a todos os aspetos da sociedade. Tal como salientam Robert Proctor e Londa Schiebinger, é importante questionar: “Porque não sabemos aquilo que não sabemos?” (1).

Por isto mesmo, é fundamental que o ensino seja democrático e participativo relativamente às ideias individuais e coletivas, privilegiando-se o desenvolvimento do pensamento ao invés da memorização.

Referências:

  1. Agnotology- The Making and Unmaking of Ignorance-Proctor N.R. and Schiebinger L., 2008.

 


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