Estudo NELSON vai ajudar a determinar o melhor método de rastreio do cancro do pulmão

No âmbito de uma sessão que teve lugar no XXV Congresso de Pneumologia do Norte, realizado no Porto, na semana passada, foi debatido o potencial benefício de um sistema de rastreio do cancro do pulmão. A grande maioria dos doentes ainda é diagnosticada com doença já avançada o que, segundo Venceslau Hespanhol, limita a possibilidade de tratamento cirúrgico e de cura. Neste sentido, o presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia fez uma revisão de alguns estudos já realizados ou em curso que têm como missão encontrar o melhor modelo de rastreio, no sentido de antecipar o diagnóstico desta doença.

Raio-X (RX) – Considerando que o prognóstico dos doentes com cancro do pulmão está muito dependente do momento em que é confirmado o diagnóstico, qual a importância de detetar as lesões cancerígenas precocemente?

Venceslau Hespanhol (VH) – A deteção precoce dessas lesões permite ter expectativa de cura da doença, situação não atingível se o diagnóstico do tumor só ocorrer em estádios avançados.

RX – Em Portugal, uma grande parte dos doentes ainda é diagnosticada com doença já avançada?

VH – Em todo o mundo desenvolvido e em Portugal também, 65% dos diagnósticos, são de doença avançada.

RX – Quais as alternativas terapêuticas para um doente que é diagnosticado com lesões precoces e para um doente que é diagnosticado já com doença avançada?

VH – Na doença precoce, a opção terapêutica de eleição é a cirurgia que, em face dos desenvolvimentos técnicos, é possível realizar-se utilizando técnicas cada vez menos invasivas, melhorando a qualidade de vida, reduzindo sequelas futuras e aumentando o número de candidatos elegíveis para tratamento cirúrgico. Na doença precoce, em situações especiais de fragilidade do doente, é possível utilizar um tipo especial de radioterapia, cujos resultados são muito aproximados dos da cirurgia para esse grupo de doentes, permitindo-lhes obter um benefício significativo.

Na doença avançada, por definição, envolvendo sistemicamente o doente, as opções não são de tratamento local, como a cirurgia e a radioterapia, mas sim tratamento sistémico, envolvendo quimioterapia, tratamentos dirigidos a alvos moleculares e imunoterapia. A decisão de escolha de cada um desses tratamentos é quase sempre personalizada, dependendo da identificação em cada doente, de marcadores moleculares, bem como a existência de condições físicas que permitam realizar essas opções de tratamento.

RX – Quais as diferenças de sobrevida entre estes dois grupos de doentes?

VH – É diferente até porque as doenças são biologicamente muito diferentes e condicionam prognósticos diferentes. Deverá ser ressalvado que, com as atuais opções terapêuticas para doença avançada, a sobrevivência dos doentes, dependendo das características moleculares dos tumores e da condição global dos doentes, em muitos casos, é três a cinco vezes superior ao que se verificava há 5-10 anos atrás.

RX – Como pode ser antecipado o diagnóstico de cancro do pulmão?

VH – A antecipação do diagnóstico é difícil em todas a doenças. No cancro do pulmão a antecipação ou mesmo, o diagnóstico precoce não é simples. A principal razão deve-se ao facto deste tumor, na maioria dos doentes, só causar sintomas em situações já de doença avançada. Este é motivo pelo qual o rastreio faz sentido pois, se for possível identificar a doença antes que algum sinal alerte os doentes, irá aumentar o número de cancros do pulmão precoce, a expectativa de cura e por consequência, a redução da mortalidade. Muitos têm sido os métodos testados o que mais próximo está deste objetivo é a TAC torácica de baixa dose de radiação que, podendo ser utilizada de uma forma generalizada e sendo reprodutível, poderá ser um dos métodos de antecipação do diagnóstico. Até ao momento, ainda há muito por esclarecer antes da adoção desta estratégia de rastreio que atualmente já está aprovado no EUA mas não na Europa.

RX – À semelhança dos cancros da mama, da próstata, do cólon ou do útero, faz sentido, para o cancro do pulmão, criar um sistema de rastreio universal? Ou apenas destinado a grupos de risco?

VH – São algumas das questões ainda em aberto neste momento. Aguardamos o resultado final de um ensaio clínico realizado na Europa – NELSON – que poderá esclarecer se faz sentido e nesse caso, qual a melhor metodologia para realizar o rastreio do cancro do pulmão.

RX – Esse modelo já existe noutros países? Com que resultados?

VH – Existe nos EUA, contudo, ainda não existem resultados do seu impacto na vida real, os resultados que existem remontam ao estudo NLST (National Lung Study Trial) realizado neste país e que permitiu provar que a sua aplicação reduziria em 20% a mortalidade por cancro do pulmão.

RX – Em que consistiria um modelo de rastreio desse tipo?

VH – Trata-se de um ensaio randomizado com mais de 55000 pessoas com risco elevado de cancro do pulmão aleatorizados em dois grupos, TAC versus radiografia de tórax anuais, durante três avaliações –  comparando ao fim de dez anos, se esta intervenção determinou ou não redução da mortalidade. O ensaio foi encerrado após 6,5 anos de seguimento por ter atingido este objetivo e tem, até agora, sido a base científica das decisões de implementação do rastreio do cancro do pulmão. Dado ter múltiplos problemas metodológicos e dificuldades de aplicação para a prática médica, aguardam-se resultados do ensaio europeu para melhor definir se faz ou não sentido realizar rastreio de cancro do pulmão.

Por Cátia Jorge


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