O sono na criança

No período de férias escolares os horários são, por norma, mais flexíveis, no entanto, é importante manter as rotinas de sono. Neste artigo, Filipa Sommerfeldt Fernandes, terapeuta de sono infantil, explica a importância de se manterem bons hábitos de sono e deixa algumas recomendações.

 “Dormir é meio sustento”. É uma frase que ainda hoje se ouve, principalmente da boca das pessoas mais velhas, em relação ao sono das crianças. E de facto, para estas, dormir é tão importante quanto alimentar-se. Talvez até mais importante. Se o sono é fundamental para o ser humano, durante a infância a sua importância é ainda mais determinante. Ter bons hábitos de sono e descansar as horas adequadas é indispensável para um correto desenvolvimento cognitivo, físico e emocional. Mas é igualmente indispensável – e não deve ser um fator descurado – para a manutenção da harmonia familiar.

Então o que acontece durante o sono da criança?

Durante o sono REM consolida-se a aprendizagem, organiza-se a memória a curto prazo, processam-se os conhecimentos para novas aprendizagens e trabalha-se a estabilidade psicoafectiva. Já durante o sono NREM e as suas diferentes fases, produzem-se hormonas, como a somatotrofina (hormona do crescimento) essencial no desenvolvimento das crianças. O sono NREM é também definido como reparador, pois é nele que se repõem todos os gastos e abusos energéticos do tempo de vigília, reorganizando o sistema hormonal e imunitário, havendo uma higiene dos resíduos metabólicos tóxicos e consolidação e formação da memória a longo prazo.

São muitos os estudos – de Academias Pediátricas e Psiquiátricas – que demonstram que as alterações do sono na criança podem influenciar o comportamento, o relacionamento social, a capacidade de atenção e a modulação sensorial. O acréscimo da irritabilidade e de instabilidade emocional que resulta de noites mal dormidas pode causar problemas comportamentais até em ambiente de escolar que poderá interferir com a aquisição de aprendizagem. Por outro lado, ao estarem mais descansadas, as crianças conseguem lidar melhor com as frustrações, relacionar-se melhor com os seus pares e ter maior tolerância ao Outro

Por isso é tão importante que ensinemos os nossos filhos bons hábitos de sono desde cedo.

E como o podemos, então, fazer?

* Rotinas – aquela palavra “aborrecida” que passamos a ouvir depois de sermos pais não significa que vivamos uma vida militar e inflexível. Uma rotina adequada ajuda à estabilidade no ritmo circadiano, o que permite um melhor desenvolvimento do bebé. Como referi, não significa que os dias terão de ser necessariamente iguais, significa sim, que devemos estruturar o dia dos nossos filhos. Que as refeições, o horário para acordar e deitar devem ser mais ou menos fixos, que devemos criar um bom ritual para adormecer em vez de tentarmos deitar os nossos filhos a meio de uma brincadeira, por exemplo. As rotinas são como linhas orientadoras, limites ou balizas num dia em que quase tudo pode ser novidade. As crianças precisam de entender a sequência dos acontecimentos para não serem surpreendidas e assim aceitarem melhor a estrutura que lhes definimos. Estabelecer rotinas consistentes e adequadas permite ao bebé e à criança pequena criar um sentimento de confiança e segurança no mundo. Permite-lhe organizar as vivências do dia-a-dia e optimizar a sua aprendizagem – ao fazer todos os dias as coisas com a mesma cadência e organização (tomar banho, massagem, dormir…) com uma orientação consistente, o bebé vai conseguir prever o que vai acontecer a seguir. Esta capacidade de antecipar ajuda-o a perceber o que esperar e a confiar que os seus cuidadores vão conseguir satisfazer as suas necessidades, o que lhe transmite um sentimento profundo de segurança. Quando são mais crescidos, uma rotina adequada tem também a vantagem de diminuir os conflitos na relação pais-filhos. Se as crianças estiverem habituadas a uma rotina desde cedo, e ela for natural em casa, a “guerra” para não ir dormir é significativamente menor – é algo tão natural e habitual que não é sequer questionado.

Importa, acima de tudo, que impere o bom senso, pois o excesso de rotinas quando está associado a um funcionamento demasiado rígido e inflexível por parte dos pais, pode anular todos os seus benefícios.

* Deitar cedo – desde que haja tempo para estar com os pais, deitar cedo é bastante importante para um sono reparador. Ao contrário do que por vezes se faz – cansar muito o miúdo para que depois durma melhor – se aproveitarmos o relógio solar e os deitarmos no momento em que a melatonina (hormona do sono) começa a dar um empurrão ao nosso corpo, teremos maiores probabilidades de ter uma criança que adormece mais facilmente. É importante não deitarmos os nossos filhos exaustos, já demasiado tarde. Quanto mais cansados, mais desregulados estarão e menos tranquilamente conseguirão dormir.

* Autonomia no adormecer – Os bebés sabem dormir e precisam de dormir (e nós também). Conseguir adormecer de forma autónoma – sem ser necessário embalar, enfiar os dedos no nariz dos pais, dar a mão, mamar ou ser abanado no carrinho de passeio – é bem mais fácil do que parece e muito necessário a um sono contínuo e reparador. Porquê? Porque se os nossos filhos adormecem com uma determinada “fotografia” e acordam sem ela, é natural que sintam que precisam da mesma ajuda para readormecer. Ninguém está a falar em deixar uma criança a chorar sozinha num quarto, nem a exigir que um bebé de 2 meses consiga adormecer sozinho e dormir 12h. Como em tudo, é preciso mente e coração abertos e bom senso. Mas sim, é perfeitamente expectável que um bebé a partir dos 6 meses consiga adormecer sozinho, sem choro, pacificamente e dormir grande parte da noite. E isso é ainda mais expectável a partir dos 12 meses, altura em que o padrão de sono estável emerge. O processo de se manter sozinho na sua cama, a aquisição da capacidade de se auto-confortar e adormecer é uma tarefa de aprendizagem para as crianças que deve ser apoiada pelos pais. Obviamente que depende também das características da criança, do seu temperamento e capacidade de auto-regulação, mas com a atitude certa da parte dos pais – com consistência e tranquilidade – a maioria das crianças pequenas e dos bebés a partir dos 6 meses consegue esta aprendizagem de forma relativamente fácil e rápida. Quando estas competências não são adquiridas, as manifestações podem ser variadas, desde oposição ao deitar, à dificuldade em adormecer ou despertares noturnos frequentes que só se resolvem com intervenção dos pais.

* Assegurar Tempo de Pais – É um aspeto muito importante, mas frequentemente desvalorizado. E é ainda mais sentido em crianças a partir dos seus 2 anos. Não quer dizer que um bebé de poucos meses de vida não sinta falta da mãe e que o seu sono não se ressinta quando ela regressa ao trabalho, por exemplo. Mas numa criança a partir dos 2 anos nota-se ainda mais. Apesar de ser indispensável assegurar que a criança durma no mínimo dez a doze horas por noite, pode ser mais benéfico para todos adiar a hora de ir para a cama e estar com os pais do que perder a oportunidade de estar com eles. Depois de ter estado em família, sentir-se-á mais calma e de coração apaziguado. Uma criança pequena, se não estiver de coração cheio, vai oferecer resistência ao adormecer. Pode fazê-lo por birra ou por pedidos intermináveis, mas se os pais não entenderem esta parte, provavelmente vão ficar aborrecidos com eles e acabam por ter uma birra de pais e filhos. Dificilmente terão uma criança que adormeça tranquilamente se ela sentir que só tem os pais naquele momento.

No entanto, além das rotinas adequadas à família e à idade, do deitar cedo para aproveitar o empurrão da melatonina e de ensinar as crianças a serem autónomas no processo de adormecer, é também importante considerar outros aspetos no sono dos mais pequenos que, quando ainda não organizados ou não respeitados, podem ter um grande impacto no seu descanso. São eles:

Introdução da Diversificação Alimentar/Sólidos:

O termo “sólidos” é muito vago… na realidade, depois de estabilizada a alimentação, essa introdução possa ajudar a dormir melhor, mas normalmente não inicialmente. É importante entender que alimentos comem e quantas vezes comem para se perceber se os “sólidos” estão ou não a ajudar a dormir melhor. Apressarmo-nos a empanturrar os nossos filhos com comida nem sempre é o ideal. Quando começam a introdução da diversificação alimentar, o seu sistema digestivo está habituado apenas a digerir leite e por isso pode demorar algum tempo até que se acostumem. Durante a noite, enquanto estamos deitados, o nosso sistema digestivo funciona mais lentamente, daí que o bebé lute um pouco mais para digerir alimentos sólidos de noite do que durante o dia. O que sim… pode provocar despertares noturnos.

Luz

Ao contrário do que se promove, as luzes de presença são desnecessárias para os bebés. Qual é o propósito da luz de presença? Ajudar em caso de medo do escuro… mas os bebés não têm medo do escuro. As crianças têm medo do escuro a partir dos 2 anos e meio, 3. Nessa idade, havendo medo, deixamos uma luz acesa. Mas num bebé, o que a luz de presença faz é dar-lhes estímulo e distração, fazendo com que seja mais difícil (re)adormecer.

Tempo de Ecrã

Sabe-se que a luz azul dos dispositivos eletrónicos influencia de forma negativa o sono. Há vários estudos muito atuais sobre este tema, por exemplo sobre a forma como a luz emitida pelos ecrãs afeta o relógio biológico – pois inibe a secreção da melatonina (hormona do sono), desregulando os ritmos circadianos.

Em relação às crianças elas não são diferentes. Além de que a utilização de tablets antes de dormir atrasa a hora de deitar, pode haver outros efeitos bem mais graves para a sua saúde física e mental. A tecnologia veio revolucionar a forma como nos relacionamos bem como nos entretemos. E com as crianças isso tornou-se muito notório – hoje vê-se muitas crianças “desligadas” agarradas a um ecrã. Os pais que oferecem ecrãs aos filhos não o fazem por mal. Muitos desconhecem os efeitos negativos (até porque a criança fica quietinha, logo, à partida é porque está bem), outros pais simplesmente precisam desse tempo para poder cumprir as suas tarefas.

A grande questão é que rapidamente os ecrãs viciam os miúdos (e os pais) e passam a ser utilizados para quase tudo: desde estar à mesa e comer, vestir sem fazer birra, andar no carro ou como recompensa/castigo. E aí pode tornar-se um fator de stress na relação entre pais e filhos. Os ecrãs em demasia impedem que haja momentos de conexão entre pais e filhos e são mais um fator para as birras dos pequenos – que passam a querer ver vídeos a toda a hora e que não gostam que estes lhes sejam retirados. Na hora de deitar podem ser mais um motivo de zanga. Além de que, embora estejam “quietos” na realidade estão com estimulados de uma forma que não ajuda, em nada, o descanso correto.

A Última Sesta da tarde

As sestas são essenciais para uma boa noite de sono. Mas o sono diurno desajustado pode sabotar o descanso noturno. Principalmente a última sesta da tarde, aquela entre as 17h e as 18h. Normalmente nos bebés a partir dos 9 meses esta sesta já desapareceu. A sesta do final da tarde, quando desajustada, pode ser até responsável pelo despertar demasiado cedo de manhã. Obviamente que é necessário conversar sobre cada bebé em particular para entender como se organizar o seu dia, mas em linhas gerais, a última sesta da tarde não deve ser, de todo, a sesta mais longa do dia.

Saltos de Desenvolvimento

Grandes saltos de desenvolvimento, motores e cognitivos, podem desorganizar o sono dos bebés e crianças pequenas. Os saltos de desenvolvimento são passageiros e o principal a ter em consideração é manter o comportamento tranquilo e de preferência com as alterações mínimas e indispensáveis enquanto o bebé passa pelas suas próprias mudanças.

 

Mas e quando mesmo assim, as crianças têm dificuldade em dormir?

Para se dormir bem é indispensável estar-se confortável. É verdade que a grande maioria dos problemas de sono que afetam os bebés  a partir dos 6 meses e as crianças pequenas até aos 5 anos são de origem comportamental – a criança não tem bons hábitos de higiene de sono, não tem rotinas adequadas, não tem tempo suficiente com os pais no dia-a-dia, tem um dia desorganizado em termos de descanso diurno e/ou alimentação ou falta-lhe (o mais frequente) autonomia no processo de adormecer. Mas, também há alterações físicas que podem dificultar o sono na criança. Miúdos com alterações/dificuldades respiratórias, com alergias alimentares, doença de refluxo gastroesofágico ou questões neuro-sensoriais são as mais frequentes e carecem de apoio e seguimento por parte de profissionais médicos adequados.

Depois, mesmo em crianças confortáveis e saudáveis, há uma grande percentagem que apresenta uma ou várias parassónias. As parassónias consistem num grupo de perturbações comuns durante a infância e são alterações no comportamento que envolve o sono.

Geralmente preocupam muito os pais mas têm carácter quase sempre benigno e são consideradas como parte integrante do desenvolvimento. Quase sempre vão desaparecendo com a idade. Existem parassónias relacionadas com despertares parciais (como os terrores noturnos, sonambulismo e sonilóquios – o falar de noite) existem os pesadelos e os automatismos do sono (como o head banging). São normais do desenvolvimento e não constituem grande motivo de preocupação quando não interferem com o dia-a-dia da criança. Como quase sempre são pontuais e acontecem durante o sono, não costumam impedir o descanso – apenas ocasionalmente.

Por fim, e muito importante, a privação de sono, além do efeito nefasto que tem sobre a saúde e desenvolvimento da criança, tem um enorme impacto na harmonia da família. É muito frequente haver um aumento da irritabilidade, da frustração, da sensação de solidão e até um acréscimo significativo da depressão em famílias que têm filhos que dormem pouco ou que têm noites muito fracionadas durante muitos meses ou anos. O bebé ou a criança é muito mais do que um sistema nervoso central. E o seu correto desenvolvimento físico, cognitivo e emocional depende de uma série de dinâmicas e da forma como ele se relaciona com o mundo. Ter pais desgastados, exaustos, sem energia não o deixa relacionar-se da mesma forma com os outros. Dormir é uma necessidade física e psíquica do ser humano. E tanto o bebé como os seus pais merecem conseguir descansar.

Dormir é uma necessidade básica. É um processo evolutivo que se vai adaptando às necessidades das crianças e os humanos têm de conseguir fazê-la porque é algo essencial à sobrevivência.  Não é possível obrigar uma criança a dormir. Não há formas mágicas, secretas e infalíveis…  os miúdos não são robots programáveis. Mas se não podemos obrigar uma criança a dormir podemos sim ajuda-la e ensina-la a dormir.

O sono na criança é, de facto, “meio sustento”. Para a criança e para a sua família.


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