Olhe pelas suas costas: mexer é o melhor remédio para a coluna
Com a chegada do frio, as dores nas costas tendem a intensificar-se e os mitos em torno da saúde da coluna voltam a ganhar força. Neste artigo de opinião, Ricardo Frada, Ortopedista e Cirurgião da Coluna, com formação em Medicina Desportiva, médico do Grupo Luz Saúde, da Unidade de Cuidados Médicos Fidelidade (Porto e Coimbra), da Porto Spine Unit e do Algarve Pain Center, partilha uma mensagem clara e baseada na prática clínica: mexer é o melhor remédio para a coluna.
Ao longo do texto, o especialista desmistifica medos comuns associados à dor lombar, explica porque o sedentarismo — particularmente nos meses mais frios — agrava os sintomas e reforça o papel do exercício físico como pilar fundamental da prevenção, do tratamento e do envelhecimento com qualidade.

Enquanto cirurgião da coluna com mais de 12 anos de dedicação a esta área, deparo-me diariamente em consulta com pessoas muito alarmadas pela dor nas costas, independentemente do país de origem ou do estatuto socioeconómico. Muitos chegam com medo de ter “uma ou várias hérnias”, uma escoliose grave, de precisar rapidamente de cirurgia ou com a convicção de que terão de deixar de fazer várias atividades do dia a dia para não “estragar ainda mais” a coluna. Esta cultura do medo está profundamente enraizada e é, muitas vezes, alimentada por mitos antigos, conselhos mal interpretados e pelo excesso de sedentarismo.
Importa começar por desmistificar: a dor lombar é extremamente comum. Estima-se que cerca de 80% da população mundial tenha pelo menos um episódio de dor lombar ao longo da vida. Na grande maioria dos casos trata-se de uma situação benigna, temporária e não associada a doença grave da coluna. Ter dor, mesmo que intensa, não significa automaticamente ter uma hérnia nem precisar de cirurgia.
Nos meses mais frios, este problema tende a agravar-se. O frio favorece a contratura muscular, reduz a mobilidade, leva a posturas de defesa frequentes e diminui a atividade física ao ar livre. A isto soma-se o estilo de vida urbano: mais horas sentados, menos movimento e posturas pouco saudáveis no sofá, ao computador ou ao telemóvel. Tudo contribui para o aparecimento ou agravamento das dores de costas.
A coluna não é uma estrutura rígida. Pelo contrário, foi feita para se mexer. A sua estabilidade e mobilidade depende de vários músculos — os abdominais, os paravertebrais e os da região lombo-pélvica — que precisam de ser ativados para proteger e estabilizar a coluna durante o movimento. Com o envelhecimento ocorre de forma natural perda de força muscular, maior rigidez e algum desgaste das articulações e dos discos. O resultado é muitas vezes dor, limitação funcional e perda de autonomia.
O melhor “medicamento” para a coluna é o exercício físico.
Muitos doentes quando questionados se praticam atividade física dizem-me: “faço caminhada”. Caminhar é positivo e melhor do que estar parado, mas é um estímulo relativamente fraco para fortalecer os músculos que protegem a coluna. O exercício ideal deve trabalhar o corpo como um todo, com foco no reforço do chamado core, no equilíbrio e no controlo postural. Pilates, hidroginástica, treino de musculação orientado ou exercício funcional, são excelentes opções. Atualmente, existem aplicações e vídeos online que permitem também treinar em casa, com baixo custo e melhor gestão do tempo. Mesmo após cirurgia da coluna, o exercício físico adaptado é fundamental.
Outro aspeto essencial — e pouco falado — é a preparação para o envelhecimento. A partir dos 70–75 anos ocorre uma redução significativa das reservas físicas e do equilíbrio, aumentando o risco de quedas e perda de autonomia. Quanto melhor for a condição física mantida ao longo da vida, maior será a longevidade com qualidade.
Se tem dor persistente, dúvidas ou receios sobre a saúde da sua coluna realizar uma consulta médica atempada ajuda a esclarecer, a orientar e a evitar preocupações desnecessárias.
Cuidar da coluna é mover-se hoje, para evitar a dor de amanhã e, quando a cirurgia é necessária, a experiência do profissional faz toda a diferença.