O voluntariado que fazemos constrói saúde em quem somos

O voluntariado que fazemos constrói saúde em quem somos

Ser voluntário é dar tempo, conhecimento e atenção ao outro. Mas será que também pode ser uma forma de cuidar de nós próprios? Neste artigo de opinião, Leonor Carmo Pedro, Diretora Executiva da Pedalar Sem Idade Portugal, reflete sobre o impacto do voluntariado na saúde física, mental e emocional e sobre o seu papel na construção de comunidades mais próximas e resilientes. Num contexto marcado pela solidão, pelo stress e pelo isolamento social, cuidar do outro pode ser, também, uma forma concreta de cuidar de si.

O voluntariado é, muitas vezes, encarado como um ato de generosidade e solidariedade. No entanto, é cada vez mais evidente que se trata, também, de um compromisso com a saúde física, mental e emocional de quem a ele adere. Num contexto em que tanto se fala de prevenção, bem-estar e qualidade de vida, ignorar o voluntariado é desperdiçar um dos mais importantes exercícios de responsabilidade, maturidade e empatia que fortalece tanto o indivíduo como a comunidade.

O envolvimento voluntário estimula a proatividade, o sentido de propósito, a cooperação e a construção de relações significativas, fatores determinantes para a saúde mental e emocional. E cada uma das formas de voluntariado, independentemente das áreas ou dos setores, gera benefícios notórios. O apoio aos cidadãos mais velhos, por exemplo, promove o convívio e o combate à solidão e ao isolamento social, com impacto direto na qualidade de vida. As visitas a pessoas hospitalizadas, um outro exemplo, intensificam o sentimento de gratidão e reforçam o bem-estar, enquanto o apoio ambiental contribui para um planeta mais sustentável.

O segredo da felicidade no voluntariado está, sem dúvida, na realização de atividades em áreas que se ajustem ao perfil do voluntário e às suas preferências. O voluntariado de competências assume, aqui, um papel particularmente relevante, ao permitir que cada pessoa coloque ao serviço da comunidade os seus conhecimentos e talentos. Esta é, assim, uma forma eficaz de alinhar motivação individual com benefício social, criando valor de forma estruturada.

As consequências do voluntariado refletem-se, ainda, em indicadores objetivos e concretos, com o “Diagnóstico das Organizações Não Governamentais (ONG) em Portugal 2015-2024” a divulgar o aumento do número de beneficiários entre 2015 e 2024 de 3.804 para 14.259, demonstrando a crescente pertinência e relevância de ações que podem parecer simples, mas que podem mudar a vida de alguém. Contudo, e inversamente ao cenário ideal, o número de voluntários regulares, isto é, de pessoas que dedicam ao voluntariado pelo menos uma hora por mês, tem vindo a diminuir, registando uma queda de 27,7% ao longo da última década.

Este é, portanto, um dos principais desafios na nossa sociedade, mas revela, também, uma oportunidade. O voluntariado é, indiscutivelmente, uma competência fundamental da vida em comunidade e já é reconhecido e incentivado em diversos países como pilar da coesão social e do bem-estar. Em Portugal, apesar deste ser um tema frequentemente abordado e associado a um impacto positivo, o envolvimento voluntário ainda é pouco valorizado. A promoção da adesão a este tipo de ações deve ser estrutural e realizada desde cedo, junto de crianças e jovens em instituições de ensino, e ir até às organizações.

Isto, porque as empresas têm, igualmente, um posicionamento estratégico que lhes permite chegar a vários profissionais talentosos e com vontade de se unir em prol de um contributo positivo para a sociedade. A solidariedade fortalece o bem-estar individual e, consequentemente, a satisfação no trabalho, o que conduz a maior motivação e produtividade e, por outro lado, a menores níveis de stress, ansiedade e risco de exaustão.

Talvez esteja na altura de deixarmos de olhar para o voluntariado como uma opção adicional. Num mundo marcado pela solidão, pelo stress e pela fragmentação social, o voluntariado afirma-se como uma verdadeira intervenção de saúde preventiva. Cuidar do outro é, cada vez mais, uma forma concreta e eficaz de cuidar de si e da saúde da sociedade como um todo.