Relatório internacional alerta: viver mais não significa viver melhor
Relatório internacional da Zurich, baseado em dados da OCDE, conclui que o principal desafio dos sistemas de saúde já não é apenas tratar doenças, mas acompanhar pessoas que vivem durante décadas com condições crónicas. Portugal destaca-se pela equidade no acesso aos cuidados, mas revela fragilidades na resposta às doenças crónicas.
Os avanços da medicina permitiram aumentar significativamente a esperança média de vida e reduzir a mortalidade associada a doenças cardiovasculares e a vários tipos de cancro. No entanto, este sucesso trouxe consigo um novo desafio: garantir que os anos conquistados são vividos com qualidade.
Esta é uma das principais conclusões do relatório The Value of Chronic Care, desenvolvido pelo Zurich Insurance Group com base em dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O estudo analisou a evolução de mais de 200 doenças crónicas e a resposta dos sistemas de saúde dos 38 países da OCDE entre 2014 e 2023.
Segundo o relatório, verifica-se uma mudança estrutural no panorama da saúde: o peso das doenças está a deslocar-se da mortalidade para a morbilidade. Em vez de morrerem prematuramente, cada vez mais pessoas vivem durante décadas com doenças como diabetes, patologias neurológicas, doenças músculo-esqueléticas ou problemas de saúde mental, exigindo acompanhamento continuado e cuidados prolongados.
Esta realidade obriga a repensar os modelos de prestação de cuidados, tradicionalmente organizados para responder a episódios agudos. Atualmente, o desafio passa por garantir acompanhamento ao longo da vida, promovendo a prevenção, o diagnóstico precoce e uma maior coordenação entre os diferentes níveis de cuidados.
Portugal evidencia o desafio das doenças crónicas
O relatório destaca Portugal como um dos países com maior equidade no acesso aos cuidados de saúde, ocupando a 7.ª posição entre os 38 países avaliados pela OCDE neste indicador.
Contudo, quando é analisada a capacidade dos sistemas de saúde para responder às necessidades das pessoas que vivem com doenças crónicas, o país desce para a 32.ª posição no novo Chronic Care Index, indicador que cruza a carga da doença com o desempenho dos sistemas de saúde.
Para Ana Paulo, Head of Life da Zurich Portugal, esta diferença evidencia uma mudança de paradigma. “Portugal é reconhecido pela equidade no acesso aos cuidados de saúde, mas o relatório The Value of Chronic Care mostra que o nosso desafio já não está apenas em chegar às pessoas quando a doença aparece. Está em conseguir acompanhá-las ao longo de décadas de vida com uma condição crónica.”
A responsável acrescenta que “vivemos mais anos, mas muitos desses anos são vividos com doença e com limitações que afetam a autonomia, a capacidade de trabalhar e a estabilidade financeira das famílias. O que está em causa já não é só salvar vidas, é garantir qualidade de vida.”
Prevenção e continuidade dos cuidados fazem a diferença
O estudo conclui ainda que os países com melhor desempenho não são necessariamente aqueles que mais investem em saúde, mas os que conseguem atuar mais cedo através da prevenção, do diagnóstico precoce, da monitorização contínua dos fatores de risco e da articulação eficaz entre cuidados de saúde primários, hospitais e respostas comunitárias.
Além do impacto nos sistemas de saúde, o aumento da prevalência das doenças crónicas tem consequências económicas e sociais relevantes, traduzindo-se em maiores necessidades de apoio continuado, maior pressão sobre os cuidadores informais, redução da participação no mercado de trabalho e aumento dos custos associados aos cuidados de longa duração.
A principal mensagem do relatório é clara: numa sociedade onde a esperança de vida continua a aumentar, o sucesso dos sistemas de saúde deixará de ser medido apenas pelo número de vidas salvas, passando também pela capacidade de garantir que esses anos adicionais são vividos com saúde, autonomia e qualidade de vida.
