A imunoterapia “constitui um passo de gigante para a cura do cancro”

Estima-se que sejam diagnosticados 40 mil novos casos por ano de cancro do pulmão em Portugal. 70% dos casos são diagnosticados já em estadio avançado, pelo que é essencial sensibilizar para a importância da prevenção e de um diagnóstico precoce, bem como debater as terapêuticas disponíveis e o acesso dos doentes a estes tratamentos. Entre os tratamentos possíveis, a imunoterapia tem vindo a destacar-se, pelos resultados que tem alcançado: melhoria das taxas de sobrevivência e de resposta dos doentes, que apresentam menos efeitos secundários. Como forma de abordar este tipo de tratamento e os seus benefícios, realizou-se, no passado dia 12 de outubro, na sala tejo do Altice Arena, em Lisboa, a 3.ª edição do workshop “O doente no centro da imunoterapia”, que reuniu conceituados especialistas nacionais e internacionais. Em declarações ao Raio-X, Gabriela Fernandes, Assistente Hospitalar Graduada de Pneumologia do Centro Hospitalar Universitário de São João, explica que este tratamento “constitui um passo de gigante para cura do cancro. Com estes tratamentos, muitos doentes com cancro  do pulmão avançado apresentam remissão prolongada da doença, tempo em que a doença não se evidencia, e taxas de sobrevivência mais elevadas”. Leia a entrevista na integra.

Raio-X (RX) – Quais são os grandes fatores de risco para o cancro do pulmão?

Gabriela Fernandes (GF) – O cancro do pulmão é o de maior mortalidade, sendo a primeira causa de morte oncológica. A nível mundial, segundo os números mais recentes, ocorrem cerca de  2.1 milhoes de casos novos de cancro do pulmão e  1.7 milhões de mortes por ano. Em Portugal, em 2018 (GLOBOCAN, 2018) estima-se terem ocorrido cerca de 5200 mortes por cancro de pulmão e cerca de 4670 mortes. A principal causa de cancro do pulmão é o consumo de tabaco causando 85 a 90% dos casos. A exposição passiva ao fumo de tabaco também é considerada um factor de risco. Outros factores de risco evitáveis são a exposição ao rádon e poluição.  A exposição profissional a metais pesados, sílica e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos desempenha um papel importante no desenvolvimento do cancro do pulmão, particularmente, se paralela ao consumo de tabaco.

RX – Quais são os grupos de risco para este tipo de cancro?

GF – Fumadores, fumadores passivos e ex fumadores.

RX – O que é a imunoterapia?

GF – A imunoterapia é uma classe de tratamentos que usa o sistema imunológico  (sistema de defesa contra agressões, por exemplo contra infecções) para ajudar a destruir as células cancerosas.

A imunoterapia que se usa no cancro do pulmão, activa o sistema imune que se encontra bloqueado pelo tumor, de modo a reconhecer o cancro como estranho e o destrua através dos mecanismos naturais de defesa. Esse tratamento inibe os “checkpoints” imunológicos para que o ciclo imunológico destrua as células tumorais.

RX – Como é realizado este tratamento?

GF – Os tratamentos actualmente aprovados para tratar o cancro do pulmão são os inibidores dos “checkpoints” imunológicos, usam-se por via endovenosa, em regime hospitalar, em centros com experiência com este tipo de tratamentos.

RX – Este tipo de tratamento é realizado em qualquer estadio do cancro do pulmão?

GF- A imunoterapia para o cancro do pulmão está aprovada para tratar as formas mais avançadas de cancro do pulmão, aquelas em que o tumor se encontra disseminado a nível do tórax ou para outros órgãos (doença metastizada). Dependendo das situações, pode ser usada como primeiro tratamento, de 1ª linha, ou quando a doença já progrediu após o tratamento inicial. Também, se pode usar em conjunto com o tratamento de quimioterapia convencional.

Os resultados positivos alcançados nos estádios mais graves, motivaram o seu uso em formas menos extensas da doença, em que o tumor progrediu a nível do tórax mas não se propagou para outros órgãos (doença localmente avançada).

RX – Quais são as vantagens e as desvantagens deste tratamento?

GF – Este tipo de tratamanto constitui um passo de gigante para cura do cancro. Com estes tratamentos, muitos doentes com cancro  do pulmão avançado apresentam remissão prolongada da doença, tempo em que a doença não se evidencia, e taxas de sobrevivência mais elevadas. Infelizmente, apenas uma pequena percentagem dos doentes responde ao tratamento, pelo que o efeito positivo da imunoterapia não é universal para todos os casos. Além disso, pode desencadear doenças noutros órgãos, mediadas pela hiperactivação do sistema imunológico, sendo, por isso, muito importante o acompanhamento por médicos experientes, pois esses efeitos são na sua maioria tratáveis desde que reconhecidos a tempo.

RX – Qual vai ser o impacto deste tratamento no presente e no futuro da prática clinica?

GF – No presente, temos a aprovação de inibidores de checkpoints imunológicos como tratamento de 1ª linha dos doentes com tumores avançados, do tipo mais frequente, o carcinoma do pulmão de células não pequenas, sem alterações genéticas que tenham tratamento específico. Dependendo das características do tumor e do doente, de determinados fatores preditivos que se associam a maior probabilidade de resposta, podem ser dados isoladamente ou em associação com a quimioterapia. Nos doentes que já tinham sido tratados com outro tipo de tratamento, nomeadamente, quimioterapia, podem ser usados com tratamento de 2ª linha.

No futuro, e com base em resultados preliminares de ensaios clínicos, este tratamento vai ter indicação para tipos de cancro do pulmão menos frequentes, como os tumores de células pequenas. Pela capacidade de obter resultados muito prolongados, também, está a ser estudada a sua utilidade em combinação  com outros tipos de tratamento, como radioterapia e mesmo cirurgia.

A imunoterapia, nas suas diferentes modalidades, vai tornar-se um tratamento cada vez mais universal, contribuindo para cronicidade desta doença devastadora.

Por Rita Rodrigues


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