Inovação responsável: o futuro da formação em enfermagem
No âmbito da reflexão sobre os desafios e oportunidades que a inteligência artificial coloca ao ensino em saúde, o Raio-X partilha um artigo de opinião de Rúben Encarnação, investigador do Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde (CIIS) e docente da Faculdade de Ciências da Saúde e Enfermagem (FCSE) da Universidade Católica Portuguesa. Num momento em que estas tecnologias começam a ganhar espaço na formação dos futuros profissionais de saúde, o autor defende uma integração assente na responsabilidade, na ética e no reforço das competências críticas, fundamentais para garantir a qualidade do ensino e a segurança dos cuidados.
A inteligência artificial chegou ao ensino superior a um ritmo mais rápido do que a definição de normas claras para a sua utilização. Na formação de enfermeiros, esta não é uma questão menor. Está em causa a forma como se aprende a raciocinar, como se avalia o conhecimento e, sobretudo, como se constrói o juízo clínico em contextos complexos e de elevada vulnerabilidade.
Na prática, estas ferramentas já começaram a ser integradas na formação em enfermagem. Este processo tem permitido testar novas abordagens pedagógicas, como sistemas inteligentes que personalizam a aprendizagem, apoiam os estudantes em tempo real e tornam o ensino mais acessível e flexível. A promessa é clara, contudo, envolve um risco discreto, mas relevante.
Sem a orientação adequada, a inteligência artificial pode criar uma ilusão de competência. No ensino em saúde, a dependência de conteúdos plausíveis, mas não verificados, pode fragilizar competências como o pensamento crítico e a tomada de decisão. Isto importa porque não se trata apenas do desempenho em sala de aula, mas, acima de tudo, da segurança dos cuidados. O desafio é, assim, menos tecnológico e mais pedagógico. O papel do docente ganha uma nova dimensão, implicando orientar os estudantes na interpretação crítica das respostas geradas, na validação da informação e na construção de um conhecimento sólido.
Neste enquadramento, princípios como a transparência, a responsabilidade e a fiabilidade tornam-se estruturantes. A utilização destas ferramentas deve ser explícita, acompanhada e sujeita a escrutínio e, mais do que inovar, importa garantir que estas ferramentas respeitem a integridade científica e reforcem – e não comprometam – a qualidade da aprendizagem.
Há, ainda, uma dimensão frequentemente negligenciada: a equidade. Nem todos os estudantes partem do mesmo nível de acesso a essas tecnologias ou de literacia digital. Se não forem criadas condições justas, o que se apresenta como inovação pode aprofundar as desigualdades.
Importa recentrar a discussão: a inteligência artificial não substitui o ato de cuidar. O futuro da saúde não será construído por máquinas, mas por profissionais capazes de integrar a tecnologia sem abdicar da humanidade. A inteligência artificial deve, por isso, ampliar o raciocínio humano e nunca substituí-lo. É exatamente neste ponto que surge a oportunidade. Capacitar enfermeiros na era digital envolve formar profissionais mais críticos, informados e aptos a enfrentar a crescente complexidade dos cuidados. Além disso, reforça o ensino de enfermagem como um ambiente de inovação responsável, no qual a tecnologia é cuidadosamente testada, ajustada e incorporada.
A questão não é se a inteligência artificial fará parte do ensino, mas se conseguiremos integrá-la com critério e responsabilidade. Afinal, não se trata apenas de inovação no ensino, mas também da qualidade e da segurança dos cuidados prestados pela próxima geração de enfermeiros.
